. (v.) O homem meramente natural se confirma contra a Divina Providência pelo fato de que, entre os que professam a religião cristã, há os que põem a salvação em algumas palavras que pensam e pronunciam, e não em algum bem que fazem. Que tais sejam os que fazem a fé, somente, salvífica, e não a vida de caridade, por conseguinte, os que separam a fé da caridade, mostrou-se na Doutrina da Nova Jerusalém sobre a Fé; e mostrou-se ali também que eles são os que se entendem na Palavra pelos 'filisteus', pelo 'dragão' e pelos 'bodes'.
[2] É da Divina Providência que essa doutrina também tenha sido permitida, para que não profanassem o Divino do Senhor e o santo da Palavra. O Divino do Senhor não é profanado quando se põe a salvação nessas palavras "Que Deus Pai tenha misericórdia por causa do Filho, que sofreu a cruz e satisfez por nós", pois assim se aproximam não do Divino do Senhor, mas do Humano, ao qual não reconhecem como Divino. Tampouco a Palavra é profanada, porque não prestam atenção às passagens ali onde se nomeiam 'amor', 'caridade', 'fazer', 'obras'; dizem que todas essas coisas estão na fé daquelas palavras. E os que se confirmam a esse respeito dizem consigo mesmos: "A lei não me condena, nem o mal; e o bem não salva, porque o bem que procede de mim não é bem". São, por isso, como aqueles que não sabem coisa alguma da Palavra e, por esse motivo, não a podem profanar. Mas a fé daquelas palavras não é confirmada por outros senão os que se acham no orgulho da própria inteligência proveniente do amor de si; esses não são sequer cristãos de coração, mas somente querem ser vistos assim. Agora se dirá que, no entanto, a Divina Providência continuamente opera para salvar aqueles em que a fé separada da caridade tornou-se própria da religião.
[3] É da Divina Providência do Senhor que, embora essa fé tenha se tornado própria da religião, qualquer um saiba, entretanto, que essa fé não salva, mas a vida de caridade com a qual a fé age como um. Com efeito, em todas as igrejas onde a religião foi recebida se ensina que não há salvação a não ser que o homem se examine, veja seus pecados, reconheça-os, faça penitência e comece uma vida nova. Isso é recitado com muito zelo diante de todos os que se aproximam da Santa Ceia, acrescentando-se que, se não se fizer isso, mistura-se as coisas santas com as profanas e se lança na danação eterna. Na Inglaterra, diz-se que, se não fizerem isso, o diabo entrará neles assim como em Judas, e os destruirá quanto à alma e ao corpo. Por aí é evidente que, nas igrejas onde a fé, só, foi aceita, ainda assim se ensina que se deve fugir dos males como pecados.
[4] Além disso, qualquer um que nasce cristão também sabe que deve fugir dos males como pecados, pois o Decálogo é passado às mãos de todos os meninos e meninas e ensinado pelos pais e mestres. E também todo cidadão do reino, especialmente os simples, são examinados pelos sacerdotes pelo Decálogo somente, recitado de memória, sobre o que sabem da religião cristã, e também são advertidos a que pratiquem as coisas que ali se acham. Nunca lhes é dito, por eclesiástico algum, que não estão sob o jugo dessa lei, nem que não ao podem cumprir por não poderem fazer bem algum por si mesmos. Em todo o mundo cristão também se aceitou o Credo Atanasiano e também se diz ali, por último, que o Senhor virá para julgar vivos e mortos, e então os que tiverem feito o bem entrarão na vida eterna, e os que tiverem feito o mal, no fogo eterno.
[5] Na Suécia, onde foi aceita a religião da fé só, ensina-se claramente também que não existe fé separada da caridade ou sem o bem das obras, e isso em um Apêndice Memorial anexado a todos os hinários e que se chama 'Impedimentos ou Prevaricações dos Impenitentes' (Obotferdigas Forhinda). Ali se lêem estas palavras:
"Os que são ricos em boas obras mostram por isso que são ricos na fé, porque, quando a fé é salvífica, opera pela caridade, pois a fé que justifica jamais existe sozinha e separada das boas obras, do mesmo modo que não existe a boa árvore sem o fruto, o sol sem a luz e o calor e a água sem a umidade".
[6] Estes poucos exemplos foram citados para que se saiba que embora tenha sido aceita a religião da fé só, ainda assim em todos os lugares se ensinam os bens da caridade, que são as boas obras, e isto é da Divina Providência do Senhor, para que o povo simples não seja seduzido por essa fé. Ouvi Lutero - conversei com ele algumas vezes no mundo espiritual - execrando a fé só e dizendo que, quando a instituiu, foi admoestado por um anjo do Senhor, para que não o fizesse, mas em si mesmo concluiu que, se não rejeitasse as obras, não faria a separação da religião católica, pelo que, contra a admoestação, confirmou essa fé.
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