. (iii.) Pode-se levantar dúvida contra a Divina Providência pelo fato de que até aqui se ignorou que fugir dos males como pecados seja a religião cristã mesma. Que isto seja a religião cristã mesma, mostrou-se na Doutrina de Vida para a Nova Jerusalém, do princípio ao fim. E como a fé separada da caridade é unicamente o que impede a que isso seja recebido, também se tratou dessa fé. Acima se disse que ignorou-se o fato de que fugir dos males como pecados é a religião cristã mesma, porque quase todos o ignoram e, todavia, cada um o sabe (vê-se acima, n° 258). Que quase todos o ignorem é porque a fé separada da caridade o obliterou, pois ela dita que só a fé salva e não alguma boa obra ou algum bem da caridade; depois, que não se está sob o jugo da lei, mas na liberdade. Aqueles que ouviram isso algumas vezes, não pensam mais a respeito de algum mal da vida nem de algum bem da vida. Também, por sua natureza cada homem se inclina a abraçar isso, e quando o abraça, não mais pensa sobre o estado de sua vida. Eis a razão por que se ignora.
[2] Que se ignore isso, é o que me foi desvendado no mundo espiritual. Perguntei a mais de mil recém-chegados do mundo se não sabiam que fugir dos males como pecados é a religião cristã mesma; disseram que não sabiam, e que isso lhes era algo novo, até ali não ouvido, mas que tinham ouvido que não se podia fazer o bem por si mesmo e que não estavam sob o jugo da lei. Quando perguntei: "Acaso não sabem que o homem deve se examinar, ver seus pecados, praticar penitência e, em seguida, começar uma vida nova, que de outro modo os pecados não são remidos, e, se os pecados não forem remidos, não se é salvo - e que isso lhes foi recitado em alta voz todas as vezes que se aproximaram da Santa Ceia?" Responderam que não tinham dado atenção a essas coisas, mas somente a isto, que a remissão dos pecados para eles se dá pelo sacramento da Ceia, e a fé, sem que saibam como, opera as demais coisas.
[3] Novamente perguntei-lhes: "Por que ensinastes o Decálogo a vossas crianças? Não é para que saibam que os males são pecados, dos quais se deve fugir? Ou foi somente para que o soubessem e cressem, sem o fazerem? Por que, então, dizem que isso é algo novo?" A isso não puderam responder senão que sabiam e, contudo, não sabiam, e que nunca pensam no sexto preceito quando cometem adultério, no sétimo preceito quando roubam ou defraudam, e assim por diante. Ainda menos que tais coisas sejam contra a Lei Divina, portanto, contra Deus.
[4] Quando lhes relembrei várias coisas das doutrinas das igrejas e da Palavra, confirmando que fugir dos males como pecados e ter aversão a eles é a religião cristã mesma, e que a fé de cada um é conforme foge e tem aversão, ficaram em silêncio. Foram, porém, confirmados de que isso é verdade quando viram que todos são examinados quanto à vida e julgados segundo as ações, e ninguém segundo a fé separada da vida, porquanto cada um tem fé segundo a vida.
[5] Que o mundo cristão, quanto à maior parte, tenha ignorado isto é conforme a Divina Providência, que a cada um concede agir pelo livre segundo a razão (sobre este assunto, vê-se acima, n° 71-99 e n° 100-128) e, depois, conforme a lei que determina que ninguém seja ensinado imediatamente do céu, mas mediatamente, pela Palavra, pela doutrina e pelas pregações da Palavra (sobre isso, n° 154-174); e, também, conforme todas as leis da permissão, que também são leis da Divina Providência. Muitas coisas a este respeito se vêem acima (n° 258).
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