. (ii.) Pode-se levantar dúvida contra a Divina Providência pelo fato de que até aqui se ignorou que em cada uma das coisas da Palavra existe um sentido espiritual e que a santidade da Palavra venha daí. De fato, pode-se levantar dúvida contra a Divina Providência, dizendo-se: "Por que isso é revelado só agora? E por que isso se faz por este ou por aquele, e não por algum primaz da igreja?" Mas, quer tenha sido por um primaz ou por um servo do primaz, isso pertence ao beneplácito do Senhor. Ele sabe quem é um e quem é outro. A razão, porém, por que esse sentido da Palavra não foi revelado antes é: Primeiro: Porque se o fosse antes, a igreja tê-lo-ia profanado e, por ele, a santidade da Palavra. Segundo: Porque o Senhor não revelou a doutrina do vero genuíno, na qual está o sentido espiritual da Palavra, antes que fosse efetuado o Juízo Final e uma nova igreja, que se entende pela Santa Jerusalém, fosse instaurada pelo Senhor. Mas isso será examinado separadamente.
[2] Primeiro: Que o sentido espiritual da Palavra não tenha sido revelado antes, porque, se o fosse, a igreja tê-lo-ia profanado e, por aí, a santidade da Palavra. Não muito depois de sua instauração, a igreja tornou-se Babilônia e, depois, Filístia. A Babilônia até reconhece a Palavra, porém a despreza, dizendo que o Espírito Santo os inspira no seu juízo supremo, tal como inspirou os profetas. Que reconheçam a Palavra, é por causa do vicariato estabelecido pelas palavras do Senhor a Pedro. Mas que, todavia, a desprezem, é porque ela não concorda com eles. Por isso ela foi tirada do povo e encerrada nos mosteiros, onde poucos a lêem. Por conseguinte, se o sentido espiritual da Palavra, no qual está o Senhor e, ao mesmo tempo, toda a sabedoria angélica, fosse desvendado, a Palavra teria sido profanada não só quanto aos seus últimos - que são as coisas contidas no sentido da letra - como ocorreu, mas também quanto aos seus íntimos.
[3] A 'Filístia', pela qual se entende a fé separada da caridade, também teria profanado o sentido espiritual da Palavra, porquanto põe a salvação em algumas palavras que se pensam e pronunciam e não nos bens que se fazem, como se mostrou anteriormente, pelo que faz salvífico o que não é salvífico, além de remover o entendimento das coisas em que se deve crer. O que eles têm em comum com a luz em que está o sentido espiritual da Palavra? Acaso não foi mudada em trevas? Quando se muda o sentido natural em trevas, o que não se fará ao sentido espiritual? Dentre eles, quem se confirmou na fé separada da caridade e na justificação por ela só, acaso quer saber o que é o bem da vida, o que é o amor ao Senhor e para com o próximo, o que é a caridade e o bem da caridade, o que são as boas obras, o que é praticar, e mesmo o que é a fé em sua essência e algum vero genuíno que a constitui? Escrevem-se volumes e confirma-se somente aquilo a que chamam fé, e dizem ser inerentes a essa fé todas as coisas aqui citadas. Por aí é evidente que, se o sentido espiritual da Palavra tivesse sido desvendado, aconteceria conforme as Palavras do Senhor em Mateus:
"Se teu olho for mau, todo o corpo será tenebroso; se pois a luz que há em ti se torna trevas, quão grandes trevas serão" (Mt. 6:23);
pelo 'olho', no sentido espiritual da Palavra, entende-se o entendimento.
[4] Segundo: Que os veros genuínos, nos quais está o sentido espiritual da Palavra, não tenham sido revelados anteriormente pelo Senhor, antes que uma nova igreja, que se entende pela Santa Jerusalém, fosse por Ele instaurada. Foi predito pelo Senhor, no Apocalipse, que depois de o Juízo Final ter-se realizado, os veros genuínos seriam desvendados, uma nova igreja seria instaurada e o sentido espiritual seria revelado. Que o Juízo Final tenha sido realizado mostrou-se no opúsculo Do Juízo Final e, em seguida, em sua Continuação. E que isso se entenda pelo céu e a terra que passariam, no Apocalipse (21:1). Que os veros genuínos seriam então desvendados, foi predito por estas palavras no Apocalipse:
"Disse Aquele que Se assenta no trono: Eis que faço novas todas as coisas" (Ap. 21:5 e também 19:17, 18; 21:18-21; 22:1, 2).
Que então o sentido espiritual da Palavra seria revelado, cap. 19:11-16. Isto se entende pelo "cavalo branco" sobre o qual Se assentava Aquele que foi chamado Palavra de Deus e que era Senhor dos senhores e Rei dos reis. Sobre isso, vide o opúsculo Do Cavalo Branco. Que pela 'santa Jerusalém' se entenda a Nova Igreja que então foi instaurada pelo Senhor, vê-se na Doutrina da Nova Jerusalém sobre o Senhor (n° 62-65), onde isso foi mostrado.
[5] Por aí é agora evidente que o sentido espiritual da Palavra seria revelado para a Nova Igreja, que reconhecerá e adorará o Senhor somente, considerará santa a Sua Palavra, amará os Divinos veros e rejeitará a fé separada da caridade. Mas, muitas coisas sobre esse sentido da Palavra se vêem na Doutrina da Nova Jerusalém sobre a Escritura Santa (n° 5-26 e seq.) e, ali, o que é o sentido espiritual, n° 5-26; que há um sentido espiritual em todas e cada uma das coisas da Palavra, n° 9-17; que é por esse sentido que a Palavra do Senhor é divinamente inspirada e santa em cada vocábulo, n° 18, 19; que o sentido espiritual tenha sido até aqui ignorado, e por que não foi revelado antes, n° 20-25; que doravante o sentido espiritual a ninguém será dado, senão a quem estiver nos veros genuínos pelo Senhor, n° 26.
[6] Por estas explicações pode-se agora ver que é da Divina Providência do Senhor que o sentido espiritual permaneceu oculto ao mundo até este século, estando entrementes reservado no céu, com os anjos, do qual eles tiram sua sabedoria. Esse sentido foi conhecido e também cultivado entre os antigos que viveram antes de Moisés. Mas como os descendentes deles transformaram as correspondências em várias idolatrias e, no Egito, em magias, pela Divina Providência do Senhor esse sentido foi vedado, primeiro aos filhos de Israel e, depois, aos cristãos, pelas razões de que se falou acima, e agora é aberto pela primeira vez para a Nova Igreja do Senhor.
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