. (iii.) Quanto mais os males são afastados, mais são remidos. Um erro do século é acreditar [primeiro:] que os males são separados do homem, e até expelidos, quando são remidos; [segundo:] que o estado da vida do homem pode ser mudado em um momento, até num estado oposto, e, assim, de mal o homem pode ser transformado em bom e, conseqüentemente, ser tirado num instante do inferno e transferido ao céu, e isso pela misericórdia imediata do Senhor; [terceiro:] mas os que crêem assim e têm essa opinião não sabem coisa alguma do que é o mal e o que é o bem, nem coisa alguma sobre o estado da vida do homem e absolutamente não sabem que as afeições, que pertencem à vontade, são meras mudanças e variações de estado das substâncias puramente orgânicas da mente; [quarto:] que os pensamentos, que são do entendimento, são meras mudanças e variações de suas formas; e que a memória é o estado permanente dessas mudanças. Pelo conhecimento destas e daquelas coisas, pode-se ver claramente que mal nenhum pode ser afastado a não ser sucessivamente, e a remissão de um mal não é a sua remoção. Mas estas coisas foram ditas resumidamente, e, se não forem demonstradas, podem até ser reconhecidas, mas não compreendidas, e o que não é compreendido é como uma roda movida pela mão. Por isso, as coisas ditas acima serão demonstradas uma a uma na ordem em que foram referidas.
[2] Primeiro: Que seja um erro do século crer que os males são separados e até expelidos, quando são remidos. Foi-me dado saber do céu que todo mal em que o homem nasce, e do que ele mesmo realmente se imbui, não é separado do homem, mas afastado, para que não apareça. Antes disso eu estava na crença em que a maioria está no mundo, a saber, que os males, quando são remidos, são expelidos, lavados e limpos, como o são as impurezas da face, pela água. Mas não é a mesma coisa com os males ou pecados. Todos permanecem. E, quando são remidos após a penitência, são transferidos do meio para os lados. Então, o que está no meio, uma vez que está diretamente sob a intuição, aparece na luz como do dia, e o que está nos lados, aparece na sombra e, às vezes, nas trevas da noite. E uma vez que os males não são separados, mas somente afastados, isto é, banidos para os lados, e o homem pode ser transferido do meio para a periferia, também pode ocorrer que ele pode retornar aos seus males, que acreditava terem sido rejeitados. Pois o homem é tal que pode ir de uma afeição a outra e, por vezes, a uma que é oposta e, por conseguinte, de um meio a outro. A afeição do homem faz o meio enquanto ele está nela, pois então está no seu prazer e na sua luz.
[3] Há alguns homens que, por terem vivido no bem, depois da morte são elevados ao céu pelo Senhor, mas que, no entanto, levaram consigo a crença de que são limpos e puros de pecados e, por conseguinte, não estão em falta alguma. Esses são a princípio vestidos de vestes brancas, segundo a sua fé, pois as vestes brancas significam o estado purificado dos males. Mas, em seguida, começam a pensar como no mundo, que estão como que lavados de todo mal e, por isso, a se gloriar de que não são mais pecadores como os outros. Isso dificilmente pode ser separado de uma espécie de soberba da mente e de uma espécie de desprezo pelos outros em relação a si. Por isso, para que sejam removidos de sua crença imaginária, são despedidos do céu e repostos nos seus males, que tinham contraído no mundo, e ao mesmo tempo lhes é mostrado que também estão nos males hereditários, dos quais antes não tinham tido conhecimento. Depois de terem sido assim levados ao reconhecimento de que seus males não foram separados deles, mas somente afastados, e que, assim, são por si mesmos impuros e, mesmo, que nada são a não ser o mal, e que é pelo Senhor que são desviados dos males e mantidos nos bens, e que isso lhes parece como sendo por si mesmos, são de novo elevados ao céu pelo Senhor.
[4] Segundo: Que seja um erro do século crer que o estado da vida do homem possa ser mudado em um momento e, assim, que de mau o homem possa ser transformado em bom; que, por conseqüência, possa ser tirado do inferno e transferido instantaneamente ao céu, e isso pela imediata misericórdia do Senhor. Nesse erro estão aqueles que separam a caridade da fé e põem a salvação na fé só, pois acham que apenas o fato de se pensar e enunciar palavras que são dessa fé, se isso for feito com certeza e confiança, justifica e salva. Muitos supõem também que isso é instantâneo, se não antes, pelo menos na última hora da vida do homem. Esses não podem deixar de crer que o estado da vida do homem pode ser mudado num momento e que o homem pode ser salvo por misericórdia imediata. Mas, no último parágrafo deste tratado se verá que a misericórdia do Senhor não é imediata, e que o homem não pode num instante ser transformado de mau em bom, nem ser tirado do inferno e transferido ao céu a não ser por contínuas operações da Divina Providência, desde a infância até o fim da vida do homem. Aqui se verá somente que todas as leis da Divina Providência têm por fim a reforma e, assim, a salvação do homem, portanto, sua inversão de estado, que é infernal de nascimento, no oposto, que é celeste. Isso não se pode fazer senão progressivamente, à medida que o homem se desvia do mal e seu prazer e entra no bem e seu prazer.
[5] Terceiro: Aqueles que crêem assim não sabem coisa alguma sobre o que é o mal e o que é o bem, pois não sabem que o mal é segundo as concupiscências de agir e pensar contra a ordem Divina, e que o bem é segundo as afeições de agir e pensar segundo a ordem Divina, e que há miríades de concupiscências que entram em cada mal e o compõem e, semelhantemente, miríades de afeições em cada bem. Essas miríades estão numa tal ordem e tal conexão nos interiores do homem que uma não pode ser mudada sem que todas o sejam ao mesmo tempo. Aqueles que não sabem isso crêem ou podem ter a opinião de que o mal, que aparece diante deles como único, pode facilmente ser removido e no seu lugar pode ser posto o bem, que também aparece como único. Os que não sabem o que é o mal e o que é o bem não podem deixar de supor que existe a salvação instantânea e a misericórdia imediata. Mas que essas coisas não existam, ver-se-á no último parágrafo neste tratado.
[6] Quarto: Os que crêem na salvação instantânea e na misericórdia imediata não sabem que as afeições, que pertencem à vontade, são meras mudanças de estado das substâncias puramente orgânicas da mente; que os pensamentos, que pertencem ao entendimento, são meras mudanças e variações dessas formas; e que a memória é o estado permanente dessas mudanças e variações. Quem não reconhece, quando ouve dizer, que as afeições e os pensamentos não existem senão nas substâncias e suas formas, que são sujeitos? E visto que existem no cérebro, que é cheio de substâncias e formas, são chamadas formas puramente orgânicas. Ninguém que pense racionalmente pode deixar de rir das fantasias de alguns, que supõem que as afeições e os pensamentos não estão nos sujeitos substanciais, mas são sopros modificados pelo calor e pela luz, como imagens que aparecem no ar e no éter, quando, todavia, o pensamento não pode existir separado da forma substancial mais que a visão separada da sua forma, que é o olho, a audição da sua, que é o ouvido, e o paladar da sua, que é a língua. Considera o cérebro e verás substâncias e fibras igualmente inumeráveis, e que nada há ali que não esteja organizado. Que outra confirmação é necessária além desta que é ocular?
[7] Mas, pergunta-se, o que é a afeição e o que é o pensamento? Isto pode ser deduzido de todas e cada uma das coisas que se acham no corpo. Aí existem muitas vísceras, cada uma em sua sede fixa e operando suas funções por meio de mudanças e variações de estado e de forma. Que estejam em suas operações, é notório. O estômago nas suas, os intestinos nas suas, os rins nas suas, o fígado, o pâncreas, o baço nas suas, e o coração e o pulmão nas suas. E todas essas operações só são efetuadas intrinsecamente, e efetuar intrinsecamente é sê-lo por mudanças de estado e de forma. Assim se pode ver que as substâncias puramente orgânicas da mente não são outras operações, com a diferença de que as operações das substâncias orgânicas do corpo são naturais, enquanto as da mente são espirituais, e estas e aquelas fazem um pelas correspondências.
[8] Não se pode mostrar ao olho quais são os estados e as formas das mudanças e variações das substâncias orgânicas da mente, que são as afeições e os pensamentos, mas pode-se ver, entretanto, como num espelho, pelas mudanças e variações de estados do pulmão na fala e no canto, pois há correspondência, uma vez que o som da fala e do canto, como também as articulações do som, que são as palavras da fala e as modulações do canto, fazem-se pelos pulmões; os sons correspondem às afeições, e a fala ao pensamento. São também produzidos pela afeição e pelo pensamento, e isto se faz por meio de mudanças e variações do estado e da forma das substâncias orgânicas no pulmão e, do pulmão, pela traquéia ou artéria áspera na laringe e no glote, em seguida na língua e finalmente nos lábios. As primeiras mudanças e variações de estado e forma do som se fazem no pulmão, as segundas na traquéia e laringe, as terceiras na glote pelas diferentes aberturas de seu orifício, as quartas na língua por suas várias aplicações ao palato e aos dentes, e, as quintas, nos lábios por várias formas. Por aí se pode ver que as meras mudanças e variações de estado das formas orgânicas sucessivamente continuadas produzem os sons e as suas articulações, que pertencem à fala e ao canto. Ora, como o som e a fala não são produzidos de outra parte senão das afeições e dos pensamentos da mente, pois por eles existem e nunca sem eles, é evidente que as afeições da vontade são mudanças e variações de estado das substâncias puramente orgânicas da mente, e os pensamentos do entendimento são mudanças e variações das formas de suas substâncias, do mesmo modo que nas substâncias pulmonares.
[9] Porquanto as afeições e os pensamentos são meras mudanças de estado das formas da mente, segue-se que a memória não é outra coisa senão o estado permanente dessas mudanças. Pois todas as mudanças e variações de estado nas substâncias orgânicas são tais que, uma vez que se tornam habituais, permanecem. Assim, o pulmão está habituado a produzir sons na traquéia e variá-los na glote, articulá-los na língua e modificá-los na boca. E quando essas partes orgânicas foram uma vez habituadas, os sons estão neles e podem ser reproduzidos. Que essas mudanças e variações nas partes orgânicas da mente sejam infinitamente mais perfeitas do que nas partes orgânicas do corpo, vê-se pelo que foi dito no tratado Divino Amor e Divina Sabedoria (n° 199-204), onde se mostrou que todas as perfeições aumentam e sobem com os graus e segundo os graus. Outras coisas sobre este assunto serão vistas adiante (n° 319).