DIVPROV &278

Sabedoria Angélica sobre a DIVINA PROVIDÊNCIA
Emanuel Swedenborg
Doutrina da Nova Jerusalém sobre a Divina Providência

b. Mas esses pontos devem ser esclarecidos um por um, porque são as primeiras coisas da religião cristã, da parte do homem. Primeiro: Daqueles que se confessam réus de todos os pecados e não procuram algum deles em si, dizendo: "Sou pecador; nasci nos pecados, nada há em mim de íntegro; da cabeça ao calcanhar, nada sou senão o mal. Bom Deus! Sê propício a mim, perdoa-me, purifica-me, salva-me, faz-me andar na pureza e no caminho do justo!", e muitas coisas semelhantes. Todavia, não se examina e, por conseguinte, não conhece mal algum. Ninguém pode fugir daquilo que não sabe o que é, ainda menos lutar contra isso. E ele também se acha limpo e lavado após a confissão, quando, todavia, é imundo e impuro da cabeça até a planta dos pés, pois a confissão de todos os pecados é um adormecimento e, finalmente, uma cegueira. E é como o universal sem singular algum, que não é coisa alguma.
[2] Segundo: Daqueles que, pela religião, omitem a pesquisa. Esses são principalmente os que separam a fé da caridade, pois dizem consigo mesmos: "Por que eu pesquisaria quanto ao mal ou ao bem? Por que o mal, se isso não me condena? E por que o bem, se isso não me salva? É a fé, só, pensada e proferida com certeza e confiança, que justifica e purifica de todo pecado. E uma vez que fui justificado, sou íntegro diante de Deus. Estou, por certo, no mal, mas Deus o limpa assim que é praticado e, assim, não aparece mais", além de outras coisas semelhantes. Mas, quem é que não vê, se abre os olhos, que essas são palavras vazias, nas quais não há coisa alguma, porque nada há do bem nelas? Quem não pode pensar e falar assim, mesmo com certeza e confiança, quando ao mesmo tempo pensa no inferno e na danação eterna? Porventura esse quer saber alguma coisa mais, seja vero ou seja bem? Do vero, diz: "Que é o vero, senão o que essa fé confirma?', e do bem, diz: "Que é o bem, senão o que está em mim por meio dessa fé? Mas, para que esteja em mim, não o farei como por mim, visto que assim é meritório, e o bem meritório não é bem". Assim omite todas as coisas até que finalmente não sabe mais o que é o mal. O que, então, ele examinaria em si, e o que veria? Seu estado então não se torna aquele em que o fogo encerrado das concupiscências do mal consome os interiores de sua mente e os devasta até à porta? Esta ele guarda somente para que tal incêndio não se mostre, mas é aberta após a morte e então se manifesta perante todos.
[3] Terceiro: Daqueles que, por causa das coisas mundanas, não pensam sobre os pecados e, por conseguinte, não os conhecem. São aqueles que amam o mundo sobre todas as coisas e não admitem vero algum que os tire de algum falso da religião. Dizem a si mesmos: "O que é isso para mim? Não faz parte de meu pensamento". Assim, rejeitam o vero tão logo o ouvem e, se o ouvem, sufocam-no. Fazem quase a mesma coisa quando ouvem as pregações; não retêm delas coisa alguma exceto algumas palavras. Como fazem isso com os veros, por conseqüência não sabem o que é o bem, pois estes agem em comum, e pelo bem que não provém do vero não se conhece o mal, a não ser que seja tido como bem, o que se faz por meio de raciocínios pelos falsos. São esses que se entendem pelas sementes que caíram entre espinhos, das quais o Senhor assim falou:
"Outras... sementes caíram entre espinhos; e os espinhos cresceram e as sufocaram... Esses são os que ouvem a Palavra, mas os cuidados deste século e os enganos das riquezas sufocam a Palavra, de modo que se torna infrutífera" (Mt. 13:7, 22; Mc. 4:7, 18, 19; Lc. 8:7,14).
[4] Quarto: Daqueles que favorecem os pecados e, por isso, não podem conhecê-los. Esses são os que reconhecem Deus, adoram-No segundo os rituais comuns e confirmam-se de que algum mal, que é pecado, não é um pecado, pois o disfarçam por meio de falácias e aparências e, assim, escondem sua enormidade. Quando fazem isso, favorecem-no e o tornam amigo e familiar. Diz-se dos que fazem isso que eles reconhecem Deus, porque os outros não consideram mal algum como pecado, pois todo pecado é contra Deus. Mas isso vai ser ilustrado por meio de exemplos. Não considera o mal como pecado aquele que, pela cobiça do lucro, faz lícitas algumas espécies de fraudes por meio de razões que inventa. Faz o mesmo aquele que confirma em si a vingança contra os inimigos e as pilhagens daqueles que não são inimigos nas guerras.
[5] Quinto: Que os pecados nesses não apareçam e que, por isso, não possam ser afastados. Todo mal que não aparece se fomenta. É como fogo na madeira sob a cinza e como pus na ferida que não é aberta, pois todo mal encerrado aumenta, e não cessa antes que tudo esteja consumado. Por isso, para que nenhum mal fique encerrado, é permitido a cada um pensar a favor de Deus e contra Deus, e também a favor das coisas santas da igreja e contra elas, e não ser punido no mundo por causa disso. A este respeito o Senhor assim fala em Isaías:
"Da planta dos pés até à cabeça... [não] há integridade; ferida e cicatriz, e chaga recente, não foram espremidas, nem bandadas, nem amolecidas com óleo. ... Lavai-vos, purificai-vos, removei a malícia de vossas obras de diante de Meus olhos. Cessai de fazer o mal, aprendei a fazer o bem. ... Então, se fossem os vossos pecados como a escarlata, ficariam brancos como a neve; se fossem rubros como a púrpura, como a lã seriam. Se vos recusardes e vos rebelardes, sereis devorados pela espada" (Is. 1:6, 16, 17, 18, 20);
'ser devorado pela espada' significa perecer pelo falso do mal.
[6] Sexto: Sobre a razão, até aqui oculta, por que os males não podem ser afastados sem o exame, o aparecimento, o reconhecimento, a confissão deles e a resistência a eles. No que precedeu, foi lembrado que todo o céu está ordenado em sociedades segundo [as afeições do bem, e todo o inferno segundo] as concupiscências do mal opostas às afeições do bem. Quanto a seu espírito, cada homem está em alguma sociedade: numa sociedade celeste, se está na afeição do bem, ou numa sociedade infernal, se está na concupiscência do mal. Isto o homem ignora enquanto vive no mundo, mas, não obstante, está em alguma sociedade quanto ao seu espírito. Sem isso ele não pode viver e por esse meio é governado pelo Senhor. Se está numa sociedade infernal, não pode ser dali tirado pelo Senhor a não ser segundo as leis de Sua Divina providência, entre as quais se acha também esta, que o homem veja que está ali, queira sair dali e para isso se esforce. Isso o homem pode fazer enquanto está no mundo, mas não após a morte, pois então permanece eternamente na sociedade em que se inseriu enquanto estava no mundo. Esta é a razão por que o homem deve se examinar, ver e reconhecer seus pecados, praticar penitência e, em seguida, perseverar aí até o fim da vida. Que seja assim, eu poderia confirmá-lo por muitas experiências até a plena fé, mas aqui não é o lugar de se ajuntar as provas da experiência.

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