. (i.) O que é a própria prudência e o que é a prudência não própria. Na própria prudência estão os que se confirmam nas aparências e delas fazem verdades, principalmente essa aparência de que a própria prudência é tudo e a Divina Providência nada é senão algum universal que, todavia, não existe sem os singulares de que existe, como acima se mostrou. Esses estão também nas falácias, porque toda aparência confirmada como verdade torna-se falácia, e quanto mais se confirmam pelas falácias, mais se tornam naturalistas e mais não crêem em coisa alguma senão no que podem perceber por algum sentido do corpo, principalmente o sentido da visão, porque este, mais do que os outros, age com o pensamento. Esses, finalmente, tornam-se sensuais. E, se se confirmam em favor da natureza e contra Deus, fecham os interiores de sua mente, interpõem como se fosse um véu e, em seguida, pensam sob esse véu e não em alguma coisa que esteja acima dele. Esses sensuais foram chamados pelos antigos de 'serpentes da árvore da ciência'. Deles se diz, no mundo espiritual, que à medida que se confirmam, os interiores de sua mente se fecham tanto que atinge o nariz, pois o nariz significa a percepção do vero, quer dizer, essa percepção não mais existe.
[2] Dir-se-á agora como eles são. São mais ardilosos e astutos que os outros,e são raciocinadores engenhosos. Ao ardil e à astúcia chamam inteligência e sabedoria; não sabem outra coisa. Os que não são tais, eles consideram como símplices e estúpidos, principalmente os que adoram a Deus e reconhecem a Divina Providência. Quanto aos princípios interiores de sua mente, de que eles pouco sabem, são como os que se chamam maquiavélicos, que consideram como nada em si mesmos os homicídios, os adultérios, os furtos e os falsos testemunhos. E, se raciocinam contra tais coisas, é somente pela prudência, para que não apareçam tais quais eles são.
[3] Sobre a vida do homem no mundo não pensam outra coisa senão que é semelhante à vida da besta; e sobre a vida do homem após a morte, que é como um vapor vital que, subindo do cadáver ou sepulcro, cai, e assim morre. Dessa loucura é que vem a idéia de que espíritos e anjos são seres aéreos e, naqueles aos quais é imposto crer na vida eterna, que dá-se de modo semelhante com as almas dos homens, a saber, que espíritos e anjos não vêem, não ouvem, nem falam, pelo que são cegos, surdos e mudos, e pensam somente numa partícula de seu ar. Dizem: "Como pode a alma ser outra coisa? Acaso os sentidos externos não morreram com o corpo?" E acham que esses sentidos não podem ser retomados antes de a alma ser reunida ao corpo. E como não puderam compreender espiritualmente, mas apenas sensualmente, o estado da alma após a morte, estabeleceram isso. De outro modo a fé na vida eterna teria perecido. Confirmam-se principalmente no amor de si, ao qual chamam fogo da vida e estímulo para vários usos no reino. E visto que são assim, também são ídolos de si mesmos; seus pensamentos, por serem falácias de falácias, são imagens do falso; e como favorecem os prazeres das concupiscências, são satanases e diabos; chamam-se 'satanases' os que confirmam em si as concupiscências do mal, e 'diabos' os que nelas vivem.
[4] Também me foi dado saber como são os homens sensuais mais astutos. O inferno deles fica profundamente atrás; querem ser invisíveis, pelo que aparecem ali voando como fantasmas, que são suas fantasias, e são chamados gênios. Certa vez, alguns foram enviados desse inferno, para que eu soubesse quais eram. Eles imediatamente se aplicaram à minha nuca, sob o occipício, e dali entraram em minhas afeições, sem querer entrar em meus pensamentos, os quais evitavam habilmente. E variavam minhas afeições, uma após outra, no intento de transformá-las imperceptivelmente em afeições opostas, que são concupiscências do mal. E como em nada tocavam dos meus pensamentos, eles as teriam torcido e invertido, sem que eu soubesse, se o Senhor não o tivesse impedido.
[5] Tais se tornam aqueles que no mundo não creram que existe coisa alguma da Divina Providência e não examinam nos outros senão suas cobiças e desejos, e os dirigem assim até o ponto de dominarem sobre eles. E visto que fazem isso tão clandestina e astutamente que os outros não notam, e os tornam semelhantes a si mesmos após a morte, por isso, assim que chegam ao mundo espiritual são imediatamente lançados no inferno. Vistos na luz do céu, aparecem sem nariz. E, o que é admirável, embora sejam tão astuciosos, ainda assim são mais sensuais que os outros. Uma vez que os antigos chamavam de serpente o homem sensual, e esse homem é ardiloso, astucioso e engenhoso raciocinador mais do que os outros, por isso foi dito:
Que a serpente se fez mais astuta que toda fera do campo (Gn. 3:1).
E o Senhor disse:
"Sede prudentes como as serpentes, e simples como as pombas" (Mt. 10:16);
E o dragão, que também foi chamado 'antiga serpente, diabo e satanás' é descrito como:"
"Tendo sete cabeças e dez chifres, e sobre as cabeças, sete diademas" (Ap. 12:3, 9);
por 'sete cabeças' é significada a astúcia; por 'dez chifres' é significado o poder de persuadir por meio de falácias; e por 'sete diademas' são significadas as coisas santas da Palavra e da igreja profanadas.
Versão Impressa
Para estudo mais confortável, adquira esta obra em formato impresso.