- I. Que a Divina Sabedoria nos céus apareça perante os olhos dos anjos como luz. No Senhor há o amor e a sabedoria. O amor n’Ele é o Ser e a sabedoria n’Ele é o Existir. Entretanto, esses não são dois n’Ele, mas um só, pois a sabedoria pertence ao amor e o amor à sabedoria; por essa união, que é recíproca, tornam-se um, e esse um é o Divino Amor, que perante os olhos do anjo aparece como sol. A união recíproca da Divina Sabedoria e do Divino Amor se entende por estas palavras do Senhor:
“Não crês”, Filipe, “que Eu estou no Pai e o Pai em Mim? ... Crede-Me que eu estou no Pai e o Pai em Mim” (Jo. 14:10, 11);
e por estas:
“Eu e o Pai somos um” (Jo. 10:30).
[65.] Esses dois, que são um no Senhor, realmente procedem d’Ele como Sol como duas coisas distintas, a sabedoria como luz e o amor como calor. Mas procedem distintos em aparência; em si mesmos, porém, não são distintos, pois a luz pertence ao calor e o calor à luz, porquanto são um só no mínimo ponto, assim como se dá no sol, já que aquilo que procede do sol também é o sol nas mínimas coisas e, daí, universalmente em tudo. Diz-se todo ponto e mínimo, mas não se entendem o ponto e o mínimo do espaço, porque este não existe no Divino, pois é espiritual e não natural.
[2] [66.] [Seção I. (2)] Visto que a sabedoria e o amor procedem do Senhor como um Sol, como duas coisas distintas em aparência, a sabedoria numa espécie de luz e o amor numa espécie de calor, por isso são recebidos como duas coisas distintas pelos anjos; por alguns, mais do calor, que é o amor, e por outros, mais da luz, que é a sabedoria; por isso também os anjos de todos os céus se distinguem em dois reinos. Os que receberam mais do calor, que é o amor, do que a luz, que é a sabedoria, constituem um reino e são chamados anjos celestes; nestes consistem os supremos do céu. Já aqueles que receberam mais da luz, que é a sabedoria, do que o calor, que é o amor, constituem o outro reino e são chamados anjos espirituais; nestes consistem os céus inferiores. Diz-se que aqueles receberam mais da luz, que é a sabedoria, do que do calor, que é o amor, mas este ‘mais’ é um mais aparente, pois não são mais sábios além do ponto em que o amor neles faça um com a sabedoria; por isso também os anjos espirituais não são chamados sábios, mas inteligentes.
[3] [67.] [Seção I.]
A Divina Sabedoria que nos céus aparece como luz não é, em sua essência, a luz, mas reveste-se de luz, para aparecer também perante a vista dos anjos. A sabedoria em sua essência é o Divino Vero, e a luz é sua aparência e correspondência. Com a luz da sabedoria acontece o mesmo que com o calor do amor, de que se tratou acima. Como a luz corresponde à sabedoria, e o Senhor é a Divina Sabedoria, por isso o Senhor é também chamado de ‘Luz’ em muitas passagens na Palavra, como nas seguintes:
“Era a verdadeira Luz, que ilumina todo homem que vem ao mundo” (Jo. 1:9);
Jesus disse: “Eu sou a Luz do mundo; quem Me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida” (Jo. 8:12);
“Jesus disse: ... Um pouco ainda a Luz está convosco; andai enquanto tendes a luz, para que as trevas não vos apanhem. ... Enquanto a luz está convosco, crede na luz, para que filhos da luz sejais... Eu, a Luz, vim ao mundo para que aquele que crê em Mim não permaneça em trevas” (Jo. 12:35, 36, 46),
e muitas outras passagens. A Sua Divina Sabedoria também foi representada por Suas vestes, quando Se transfigurou:
Elas apareceram como luz, cintilantes e brancas como a neve, como nenhum lavandeiro na terra pode branquear (Mc. 9:3; Mt. 17:2).
As ‘vestes’, na Palavra, significam os veros da sabedoria; por isso todos os anjos nos céus aparecem vestidos segundo os veros de seu conhecimento, sua inteligência e sua sabedoria.
[4] [68.] [Seção I (4)]
Que a luz seja aparência da sabedoria, e que seja sua correspondência, é evidente no céu, mas não no mundo, porque no céu não há outra luz senão a luz espiritual, que é a luz da sabedoria, iluminando todas as coisas que existem ali pelo Divino Amor. A sabedoria nos anjos dá entendê-las em sua essência, e a luz dá entendê-las em sua forma, pelo que a luz nos céus está no mesmo grau que a sabedoria nos anjos. Nos supremos céus há uma luz flamejante, cintilante como brilhantíssimo ouro, pelo fato de eles estarem na sabedoria. Nos céus inferiores há uma luz branca, esplendorosa como de alvíssima prata, pelo fato de eles estarem na inteligência. E a luz nos céus mais baixos há uma luz como a do meio-dia do mundo, pelo fato eles estarem no conhecimento [scientia]. A luz dos céus superiores é branca, exatamente como de uma estrela, resplandecente e brilhante em si na noite, e também é uma luz contínua, porque ali o sol não se põe. Essa é a mesma luz que no mundo ilumina o entendimento dos homens que amam se tornarem sábios, mas não aparece a eles, porque são naturais e não espirituais. Ela pode aparecer, pois apareceu a mim, perante os olhos de meu espírito. Foi-me dado, também, perceber que na luz do céu supremo eles estão na sabedoria, na luz do segundo céu, na inteligência, e na luz do céu mais externo, no conhecimento, e que estavam na ignorância quando se achavam somente na luz natural.
[5] [69.] [Seção I [5]. Para que eu soubesse em que luz se acham hoje os eruditos do mundo, foram-me mostrados dois caminhos: um era chamado da sabedoria e o outro da estultícia. No fim do caminho da sabedoria havia um palácio na luz, mas no fim do caminho da estultícia havia algo semelhante a um palácio, porém na sombra. Os eruditos foram reunidos em número de trezentos e foi-lhes dada a opção de andar pelo caminho que quisessem, e viu-se que duzentos e sessenta entraram no caminho da estultícia, e somente quarenta no caminho da sabedoria. Os que foram pelo caminho da sabedoria entravam no palácio na luz onde havia coisas magníficas, e foram-lhe dadas vestes de linho e tornaram-se anjos, mas os que foram pelo caminho da estultícia quiseram entrar no que parecia semelhante a um palácio, na sobra, (sombra) mas eis que era um teatro de palhaços, onde eles vestiram vestes cênicas e deliraram fantasiados, e tornaram-se estultos. Foi-me dito, depois, que hoje há tantos e tais eruditos estultos, que estão na luz natural, relativamente aos eruditos sábios, que estão na luz espiritual, e que têm luz espiritual aqueles que amam entender se é verdadeiro aquilo que é dito pelos outros, mas têm luz natural aqueles que somente amam confirmar aquilo que é dito pelos outros.
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