. Diz-se em João:
“No princípio era a Palavra [Verbo] e a Palavra estava em Deus e Deus era a Palavra... todas as coisas foram feitas por Ela e, sem Ela, nada do que foi feito se fez. N’Ela estava a vida e a vida era a luz dos homens... Estava no mundo e o mundo foi feito por Ela... E a Palavra Se fez carne e habitou entre nós e vimos a Sua glória” (Jo. 1:1, 3, 4, 10, 14).
Que seja o Senhor que se entende pela “Palavra” é evidente, pois se diz que a Palavra Se fez carne. Mas o que se entende pela “Palavra” em particular, ainda não se sabe e, assim, se dirá. A “Palavra” aí é o Divino vero que está no Senhor e vem do Senhor *105; por isso é também chamado “Luz” ali; que esta seja o Divino vero, foi mostrado anteriormente neste capítulo. Que todas as coisas tenham sido feitas e criadas pelo Divino vero é o que vai ser explicado agora. No céu, todo poder pertence ao Divino vero e sem ele não existe absolutamente poder algum *106. Todos os anjos são chamados poderes por causa do Divino vero e, também, quanto mais são recepções ou receptáculos deste, mais poderes são. Pelo Divino vero eles prevalecem sobre os infernos e sobre todos os que se lhes opõem. Ali, mil inimigos não suportam um só raio de luz do céu, que vem do Divino vero. Como os anjos são anjos pela recepção do Divino vero, segue-se que todo o céu não vem de outra parte, pois o céu provém dos anjos. Que haja tanto poder no Divino vero é o que não podem crer aqueles que não têm do vero outra idéia senão a de um pensamento ou uma palavra em que não haja poder a não ser quando os outros fazem algo por obediência. Mas o Divino vero tem poder em si e tanto poder que por ele foi criado o céu e foi criado o mundo com tudo o que há neles. Que haja tal poder no Divino vero, pode-se ilustrar por duas comparações, a saber, pelo poder do vero e do bem no homem e pelo poder da luz e do calor do sol no mundo. Pelo poder do vero e do bem no homem. – Tudo o que o homem faz, ele o faz pelo entendimento e pela vontade; pela vontade age pelo bem e, pelo entendimento, pelo vero. Todas as coisas que há na vontade se referem ao bem e todas as coisas que há no entendimento se referem ao vero *107; assim, por eles, o homem age com todo o corpo e milhares de coisas aí concorrem junta e espontaneamente ao comando e ao bel-prazer delas. É evidente, assim, que todo o corpo é formado para servir ao bem e ao vero, conseqüentemente, pelo bem e pelo vero. Pelo poder do calor e da luz do sol no mundo. – Todas as coisas que crescem no mundo, tais como as árvores, as searas, as flores, as relvas, os frutos e as sementes, não existem por outra parte senão pelo calor e pela luz do sol; assim, é evidente qual é neles o poder de produzir. Qual não é, pois, o poder da Divina luz, que é o Divino vero? E do Divino calor, que é o Divino bem? Como o céu existe por eles, também o mundo existe, pois o mundo existe pelo céu, como foi mostrado anteriormente. Por aí se pode ver como deve ser entendido que todas as coisas foram feitas pela Palavra e que sem ela nada foi feito do que se fez, bem como que o mundo também foi feito por ela, ou seja, pelo Divino vero do Senhor *108. É, também, por isso que, no Livro da Criação, primeiro se fala da luz e, na seqüência, das coisas que vêm da luz (Gên. 1:3, 4). E também é, assim, que todas as coisas no universo, tanto no céu quanto no mundo, se referem ao bem e ao vero e à conjunção deles, para que sejam alguma coisa.
*105 Que o “Verbo” [ou Palavra], na Escritura Santa, signifique varias coisas, a saber: a Palavra, o pensamento da mente, toda coisa que realmente existe e é, então, algo. E, no sentido supremo, o Divino vero e o Senhor (n. 9987). Que a “Palavra” signifi que o Divino Vero (n. 2803, 2894, 4692, 5075, 5272, 6880, 9383, 9987). Que a “Palavra” signifique o Senhor (n. 2533, 2859).
*106 Que ao Divino Vero procedente do Senhor pertença todo o poder (n. 6948, 8200). Que todo o poder no céu seja do vero proveniente do bem (n. 3091, 3563, 6344, 6423, 8304, 9643. 10019, 10182). Que os anjos sejam chamados poderes e que sejam poderes pel a recepção do Divino vero proveniente do Senhor (n. 9639). Que os anjos sejam recipientes do Divino vero proveniente do Senhor e que, por isso, sejam chamados “deuses” na Palavra (n. 4295, 4402, 8301, 8192, 7873. 9160).
*107 Que o entendimento seja recipiente do vero e a vontade recipiente do bem (n. 3623, 6125, 7503, 9300, 9930). Que, por isso, todas as coisas que estão no entendimento se refiram ao vero, quer sejam veros, quer o homem creia que sejam veros; e que toda s as coisas que estão na vontade se refiram semelhantemente ao bem (n. 803, 10122).
*108 Que o Divino vero procedente do Senhor seja a única coisa real (n. 6880, 7004, 8200). Que pelo Divino vero todas as coisas sejam feitas e criadas (n. 2803 2884, 5272, 7878, 7796).