. Pelos feitos e obras, porém, não se entendem os feitos e as obras somente, quais se apresentam na forma externa, mas, também, quais elas são na forma interna. Porque qualquer um sabe que todo feito e toda obra procedem da vontade e do pensamento do homem, pois, se não procedessem daí, ele seria somente um movimento, como o que é feito pelos autômatos e simulacros. Por isso, o feito ou a obra, considerado em si mesmo, é somente um efeito que tira da vontade e do pensamento sua alma e sua vida, ao ponto de ser a vontade e o pensamento no efeito, sendo, por conseguinte, a vontade e o pensamento na forma externa. Segue-se daí que, quais são a vontade e o pensamento que produzem o feito ou a obra, tais são o feito e a obra. Se o pensamento e a vontade são bons, então os feitos e as obras são bons; mas se o pensamento e a vontade são maus, então os feitos e as obras são maus, ainda que na forma externa apareçam semelhantes. Mil homens podem agir semelhantemente, isto é, apresentarem um feito semelhante e, tão semelhante, que mal se possa discernir na forma externa e, todavia, cada um deles, considerado em si mesmo, é dessemelhante, porque procede de dessemelhante vontade. Seja, por exemplo, agir sincera e justamente com o companheiro: um pode agir sincera e justamente com ele a fim de parecer que é sincero e justo por causa de si e de sua honra; outro, por causa do mundo e do ganho; um terceiro, por causa da recompensa e do mérito; um quarto, por causa da amizade; um quinto, por causa do temor da lei, da perda da reputação e da função; um sexto, para atrair alguém para suas facções, mesmo más; um sétimo, para enganar e, assim, diferentemente com outros. Mas todos os feitos desses, ainda que pareçam bons – pois agir sincera e justamente com o companheiro é bom – são, todavia, maus, porquanto não foram feitos por causa de algum amor do sincero e do justo, mas por causa de si e do mundo, que são amados. A esse amor o sincero e o justo servem como fâmulos ao senhor e, quando não o servem, esse senhor os despreza e despede. Os que agem pelo amor do sincero e do justo também agem sincera justamente com o companheiro numa semelhante aparência, na forma externa. Alguns deles o fazem pelo vero da fé ou obediência, porque assim está prescrito na Palavra; outros, pelo bem da fé ou consciência, porque isso vem da religiosidade; outros, pelo bem da caridade para com o próximo, pois é o bem que deve ser consultado; outros, pelo bem do amor ao Senhor, porque o bem deve ser feito por causa do bem, como também o sincero e o justo por causa do sincero e do justo, coisas que eles amam porque vêm do Senhor e porque o Divino procedente do Senhor está nelas e, portanto, consideradas em sua essência, são Divinas. Desses, os feitos ou obras são interiormente bons, pelo que também são bons exteriormente, porque, como foi dito acima, os feitos ou obras são absolutamente tais quais são o pensamento e a vontade de que procedem e sem o que não são feitos nem obras, mas apenas movimentos inanimados. Por aí se vê o que se entendem por “obras” e “feitos” na Palavra.
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