. Falei sobre esse assunto algumas vezes com os anjos e disse que, no mundo, os que vivem no mal, em sua maioria, quando falam com os outros sobre o céu e a vida eterna, não dizem outra coisa senão que ir ao céu é apenas ser admitido pela misericórdia somente. Assim crêem, principalmente, aqueles que fazem da fé o único meio de salvação, porque esses, pelo princípio de sua religião, não consideram a vida e os feitos do amor que fazem a vida, portanto, não consideram os outros meios por que o Senhor introduz o céu no homem e o torna receptível das alegrias celestes. E como, assim, rejeitam todo mediato real por necessidade de princípio, estabelecem que o homem vem ao céu pela misericórdia somente, à qual crêem que Deus Pai é levado pela intercessão do Filho. Mas a isso os anjos disseram que sabem que tal dogma se segue por necessidade de um princípio concebido sobre a fé só; e, como esse é dogma é a cabeça dos demais, nenhuma luz do céu pode influir nele, porque não é verdadeiro; disso decorre a ignorância em que se acha a igreja de hoje a respeito do Senhor, do céu, da vida após a morte, da alegria celeste, da essência do amor e da caridade e, em geral, a respeito do bem e de sua conjunção com o vero; por conseguinte, disso decorre a ignorância a respeito da vida do homem, donde ela é e qual é, vida essa que, todavia, nunca está em alguém pelo pensamento, mas pela vontade e, assim, pelos feitos; só está no pensamento na medida em que o pensamento procede da vontade, assim, não pela fé a não ser na medida em que a fé procede do amor. Os anjos lastimam que as pessoas não saibam que a fé não pode existir isolada em alguém, porquanto a fé sem sua origem, que é o amor, é somente uma ciência e, em alguns, um persuasivo que imita a fé (veja-se acima, n. 482). Esse persuasivo não está na vida do homem, mas fora dela, pois é separado do homem se não for coerente com o amor. Disseram, além disso, que aqueles que se acham em tal princípio sobre o meio essencial de salvação no homem não podem crer em outra coisa senão na misericórdia imediata; com efeito, esses percebem, pela luz natural e também pela experiência visual, que a fé separada não faz a vida do homem, visto que aqueles que vivem uma vida má podem pensar e se persuadir de modo semelhante. Assim é que se crê que os maus podem ser salvos igualmente aos bons, tão somente se, na hora da morte, falarem com segurança da intercessão e da misericórdia por ela. Os anjos asseveraram que ainda não viram ninguém que tenha vivido no mal ser recebido no céu por misericórdia imediata, qualquer que tenha sido o modo como tenha falado no mundo com a segurança ou a confiança que se entende pela fé, no sentido eminente. À pergunta a respeito de Abrahão, Isaque, Jacob e David, como também os apóstolos, se eles porventura tinham sido recebidos no céu por misericórdia imediata, responderam que nenhum deles o foi, mas cada um segundo sua vida no mundo; sabiam onde eles estavam e, ali, não eram estimados mais do que os outros. Disseram que a razão de eles serem citados com honra na Palavra é porque por eles, no sentido interno, se entende o Senhor. Por “Abrahão”, “Isaque” e “Jacob”, o Senhor quanto ao Divino e o Divino Humano; por “David”, o Senhor quanto à Divina realeza; e pelos “apóstolos”, o Senhor quanto aos Divinos veros. Disseram, também, que não percebem absolutamente coisa alguma a respeito dessas pessoas quando a Palavra é lida pelo homem, visto que os nomes deles não entram no céu, mas, em lugar disso, percebem o Senhor, como foi dito há pouco. E, na Palavra que está no céu, do que se tratou acima (n. 259), em nenhum lugar eles são citados, porque essa Palavra é o sentido interno da Palavra que está no mundo *285.
*285 Que por “Abrahão”, “Isaque” e “Jacob”, no sentido interno da Palavra, se entenda o Senhor quanto ao Divino mesmo e ao Divino Humano (n. 1893, 4615, 6098, 6185, 6276, 6804, 6847). Que Abrahão não seja conhecido no céu (n. 1834, 1876, 3229). Que por “ David” se entenda o Senhor quanto à Divina realeza (n. 1888, 9954). Que os doze apóstolos tenham representado o Senhor quanto a todas as coisas da igreja, assim as coisas que são da fé e do amor (n. 2129, 3354, 3488, 3858, 6397). Que Pedro tenha represen tado o Senhor quanto à fé, Tiago quanto à caridade e João quanto às obras da caridade (n. 3750, 10087). Que os doze apóstolos que deviam se sentar sobre doze tronos e julgar as doze tribos de Israel significam que o Senhor deverá julgar segundo os veros e bens da fé e do amor (n. 2129, 6397). Que os nomes das pessoas e os lugares, na Palavra, não entrem no céu, mas se convertam em coisas e estados; e que no céu os nomes não possam ser enunciados (n. 1876, 5225, 6516, 10216, 10282, 10432). Que também os anjos pensem abstratamente das pessoas (n. 8343, 8985, 9007).