. Mas a Babilônia tratada no Apocalipse é a Babilônia de hoje, que começou depois da vinda do Senhor e existe entre os papistas, como é notório. Esta Babilônia é mais perniciosa e mais abominável do que a que existiu antes da vinda do Senhor, porque ela profana os bens e os veros interiores da Igreja que foram revelados pelo próprio Senhor quando Ele Mesmo Se revelou. O quão perniciosa e interiormente abominável ela é, é o que se pode ver em suma pelos seguintes pontos: eles reconhecem e adoram o Senhor, mas este, sem nenhum poder de salvar; eles separam inteiramente o Seu Divino de Seu Humano e transferem para si próprios o Seu Divino poder, o qual pertenceu ao Seu Humano {*14}, pois eles perdoam os pecados; enviam ao Céu; precipitam no inferno; salvam quem eles querem; vendem a salvação; e assim, atribuem a si coisas que pertencem somente ao Divino poder. E desde que eles exercitam esse poder, segue-se que eles se fazem deuses, cada um de acordo com seu lugar, por transferência, desde seu chefe supremo, o qual eles chamam de Vigário de Cristo, até aos mais baixos. Assim, eles se consideram como o Senhor, e O adoram, não por causa d'Ele, mas por causa de si próprios. Eles não somente adulteram e falsificam a Palavra, como também a arrebatam do povo para que ele não entre na menor luz do vero. E se isso não fosse o bastante, eles a aniquilam ao reconhecerem os decretos vindo de Roma como um Divino acima do Divino que está nela. Deste modo, eles fecham a todos o caminho do Céu, pois o reconhecimento do Senhor, a fé n'Ele e o amor para com Ele formam o caminho para lá, e é a Palavra que o ensina; por conseguinte sem o Senhor, por meio da Palavra, não há salvação.
Eles empregam todos os seus esforços para extinguir a luz do Céu, a qual procede do Divino Vero, para que no lugar dela haja a ignorância, que quanto mais densa for, mais lhes é agradável. Eles extinguem a luz do Céu proibindo a leitura da Palavra e dos livros que contém doutrinas tiradas dela, e instituindo o culto por missas rezadas em um idioma não compreendido pelos simples e nas quais não há o Divina vero. Além disso, eles enchem o seu povo com falsos que são as próprias trevas, as quais repelem e dissipam a luz. Do mesmo modo, eles persuadem o povo que eles têm vida na fé em seus padres, assim na fé de outro e não na sua mesma. Ainda mais, eles põem tudo do culto no santo externo, sem o santo interno; fazendo que o culto interno seja vazio, porque este se acha sem os conhecimentos do bem e do vero; e, contudo não há culto Divino externo senão tanto quanto haja um culto Divino interno - porque o externo procede do interno. Além disso, eles introduzem idolatrias de vários tipos; eles fazem e multiplicam santos; eles vêem e toleram a adoração desses santos, e até as preces oferecidas a eles, quase como deuses.
Eles expõem os seus ídolos por toda parte; proclamam os muitos milagres que eles fazem; os colocam sobre cidades, templos e mosteiros; apresentam seus ossos tirados de suas sepulturas como sendo santos, os quais são, entretanto o que há de mais vil; assim, desviam as mentes de todos do culto a Deus para o culto aos homens; e mais, eles cuidam com grande habilidade para que ninguém passe dessa grossa escuridão para a luz, e do culto idolátrico para o culto Divino; porquanto eles multiplicam os mosteiros de onde eles enviam espias e guardas que são colocados por toda parte; eles extorquem as confissões de coração, que também são confissões de pensamentos e intenções, e se alguém não confessa, é ameaçado com o fogo infernal e tormentos no purgatório; e os que se atrevem a falar contra o trono papal e seu domínio, são encerrados em prisões horríveis, as quais eles chamam de inquisição. Tudo isso com o fim único de possuírem o mundo e os seus tesouros a fim de viverem no luxo e serem os maiores, enquanto os outros são escravizados. Mas tal dominação não é a dominação do Céu sobre o inferno, mas do inferno sobre o Céu, pois quanto mais o amor de dominar está no homem, especialmente no homem da Igreja, tanto mais reina o inferno. Que esse amor reina no inferno e faz o inferno, pode ser visto na obra "O Céu e o Inferno" (551 a 565). Sendo assim, pode-se ver que lá há não a Igreja, mas a Babilônia; pois a Igreja é onde o Senhor Mesmo é adorado e onde a Palavra é lida.
EXTRATO DOS ARCANOS CELESTES.
{*14} Que essa Igreja atribui ao Senhor duas naturezas, e assim separa o Seu Divino de Seu Humano; e que isso foi feito em um concílio pelo bem do Papa - para que ele fosse reconhecido como Vigário de Cristo, é o que me foi descoberto do Céu - vide na obra "Arcanos Celestes" 4738.