LJ 56

O Juízo Final - E a Babilônia Destruída
Emanuel Swedenborg
Ocorrido no mundo espiritual em 1757
E mandará seus anjos com grande voz de trombeta, e ajuntarão seus escolhidos desde os quatro ventos, desde um fim dos céus até o outro. (Mateus 24:30)

. II. A qualidade dos que na outra vida são da Babilônia só pode ser vista por aquele a quem foi dado pelo Senhor estar com os que se acham no Mundo Espiritual. E como isso foi concedido a mim, posso falar segundo a experiência, pois eu os vi, os ouvi e conversei com eles. Cada homem depois da morte está em uma vida semelhante a que ele tinha no mundo; ela não pode ser mudada, salvo quanto aos prazeres de seu amor, os quais se mudam em prazeres correspondentes, como se pode ver nos dois artigos da obra "O Céu e o Inferno" (484 e 485 a 490). O mesmo se dá com a vida daqueles de que aqui se trata: ela é absolutamente tal qual foi no mundo; com esta diferença, que então as coisas escondidas em seus corações são descobertas, pois eles estão em espírito, no qual residem as coisas interiores que pertencem aos pensamentos e as intenções, que por sua vez eles haviam ocultado no mundo e encoberto com uma santidade externa. Como essas coisas interiores são então descobertas, viu-se que mais da metade dos que tinham usurpado o poder de abrir e fechar o Céu, eram inteiramente ateus; como, porém a dominação residia em suas mentes, tal qual era no mundo, e ela fundamentava-se no princípio que todo poder foi dado ao Senhor pelo Pai e transmitido a Pedro; e, por sucessão, aos primazes da Igreja. Daí resulta que ao seu ateísmo fica adjunta uma confissão oral sobre o Senhor; contudo isso dura somente enquanto eles têm prazer em alguma dominação por meio dessas coisas. Quanto aos outros que não são ateus, eles são tão vazios que sabem absolutamente nada sobre a vida espiritual do homem; sobre os meios de salvação; sobre os divinos veros que conduzem ao Céu e nem sobre coisa alguma da fé e do amor celestes. Eles crêem que o Céu pode ser dado a qualquer um, seja ele quem for, pela graça do papa. Como cada um no Mundo Espiritual está em uma vida semelhante a que estava no mundo natural - sem nenhuma diferença enquanto não se está no Céu ou no inferno (como foi mostrado na obra "O Céu e o Inferno" 453 a 480) - e como quanto a sua aparência externa o Mundo Espiritual é absolutamente semelhante ao mundo natural (170 a 176), por isso eles têm vida moral e civil semelhantes; e, principalmente, semelhante culto, porque o culto está arraigado no homem e ligado em seus íntimos, e ninguém depois da morte pode ser retirado dele, exceto se estiver no bem pelos veros, e nos veros pelo bem. Mas, é mais difícil retirar o povo de que aqui se trata de seu culto do que os outros povos, porque o seu culto não está nos bem do vero, e menos ainda no vero do bem; pois seus veros não vêm da Palavra, com exceção de algumas, as quais eles falsificam aplicando-as à dominação. Por conseguinte, eles também não têm o bem, a não ser um bem espúrio, porque assim como são os veros, se torna o bem. Estas coisas são ditas para que se saiba que no Mundo Espiritual, o culto dessa nação é completamente semelhante ao seu culto no mundo natural.
Tendo essas premissas sido dadas, vou agora relatar alguns particulares do culto e da vida dos papistas no Mundo Espiritual. Eles têm um tipo de sinédrio que substitui o sinédrio ou o consistório em Roma, no qual os primazes se reúnem e deliberam sobre diversos assuntos de sua religião, principalmente sobre os meios para manter o povo em obediência cega, e ampliar sua dominação. Esse consistório é localizado ao sul, próximo do leste. Mas quem foi papa ou cardeal no mundo, não se atreve a entrar lá, pelo fato de que uma autoridade semelhante à autoridade Divina incide em suas mentes, por eles terem, enquanto no mundo, arrogado sobre si o poder do Senhor. Portanto, tão logo eles se apresentam ali são arrebatados e lançados junto aos seus semelhantes em um deserto. Mas os dentre eles que foram retos de mente e não usurparam tal poder por uma fé confirmada, estão em certo tipo de câmara escura localizada atrás desse consistório. Há uma outra assembléia ao leste, perto do norte. Sua ocupação consiste em introduzir o povo crédulo no Céu. E para isso são dispostas ao redor deles muitas sociedades que estão em diversos prazeres externos, em umas eles brincam; em outras dançam; em outras compõem o rosto com diferentes aspectos de hilaridade e regozijo; em outras falam amigavelmente sobre assuntos civis, em outras sobre coisas religiosas, em outras sobre obscenidades, e assim por diante. Eles admitem seus protegidos nessas sociedades, segundo o desejo de cada um, e a isso eles chamam de Céu. Mas todos, depois de ficarem lá por algumas horas, se fatigam e se retiram, porque tais prazeres são externos e não internos. Deste modo, muitos se desligam da fé nos doutrinais sobre o poder de introduzir no céu.
Quanto ao que se refere ao seu culto, ele é quase semelhante ao culto no mundo. Ele consiste em missas como no mundo, e elas não são ditas em uma língua comum aos espíritos, mas em uma língua formada de palavras altissonantes, que induzem uma santidade externa e um tremor, mas que é completamente incompreensível. Eles igualmente adoram os santos e expõem as suas imagens, mas eles não se apresentam em nenhuma parte, pois todos dentre eles que tiveram a ambição de receber culto como divindades, estão nos infernos; todos os outros que não tiveram a ambição de receber culto, estão entre os espíritos comuns. Os seus oficiais eclesiásticos o sabem por que eles os buscam e os acham por isso eles os desprezam; mas ocultam isso ao povo para que eles sejam sempre adorados como deuses guardiões, e para que eles próprios, os primazes que estão à frente do povo, sejam como os senhores do Céu. Como faziam no mundo, eles multiplicam os templos e os mosteiros; eles amontoam riquezas, acumulam objetos preciosos e os escondem em suas adegas, pois no Mundo Espiritual há objetos preciosos, assim como no mundo natural, mas muito mais abundantemente. Da mesma forma, eles enviam monges para persuadirem os gentios para a sua religião, e assim subjugá-los ao seu império. É comum que tenham torres de observação no meio das congregações, de onde eles podem estender a sua vista para todas as regiões vizinhas. E, por diferentes meios e diversos artifícios, eles estabelecem comunicação entre si, com os que estão próximos e com os que estão afastados, e formam com eles alianças e os arrastam para os seus partidos.
Tal é o seu estado em geral; mas quanto aos particulares, muitos chefes eclesiásticos daquela religião tiram todo poder do Senhor e o atribuem a si próprios. E por agirem assim, eles não reconhecem Divino algum. Nos externos, contudo eles simulam santidade, santidade que em si própria é profana, porque em seus internos não há reconhecimento algum do Divino. Daí vem que eles se comunicam com algumas sociedades do último Céu por um santo externo, e com os infernos pelo profano interno, de sorte que estão nos dois lugares. Dessa forma eles atraem bons espíritos simples e lhes dão habitações perto deles e reúnem espíritos maliciosos que são dispostos ao redor da sociedade, por todas as direções. Pelos bons espíritos simples, portanto, eles têm conjunção com o Céu e pelos espíritos maliciosos, com o inferno. É assim que eles podem empreender as coisas abomináveis que eles executam pelo inferno, porque os bons espíritos simples que estão nos últimos do Céu, olham somente para seu santo externo e para sua santíssima adoração ao Senhor nos externos e não vêm suas infâmias, por isso também lhes são favoráveis, e essa é a sua maior proteção. Contudo, todos aqueles que, com o passar do tempo, se retiram do santo externo, são então separados do Céu e lançados no inferno. Por estas explicações, pode-se saber um pouco sobre a qualidade daqueles que são da Babilônia na outra vida. Mas estou ciente que os que estão no mundo e que não sabem sobre o estado do homem depois da morte, nem sobre o Céu e o inferno, mas que têm sobre essas coisas somente uma idéia estúpida e vazia, se admirarão que o homem seja homem depois da morte; que ele vive em sociedades como no mundo; que habita em casas; que ouve pregações nos templos; que desempenha funções e que veja no Mundo Espiritual coisas semelhantes as que estão no mundo que ele deixou, é o que se pode constatar por tudo o que foi visto, ouvido e mostrado na obra "O Céu e o Inferno".

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