SW 11

A Doutrina Cristã Revelada através de Emanuel Swedenborg
Cristóvão R. Nobre
"E JEHOVAH será Rei sobre toda a terra: Nesse Dia JEHOVAH será Um e o Nome d'Ele Um." (Zc. 14:9)

- 1.9. O sentido interno na Palavra
Conforme já foi dito, quando se dedicou a examinar a fundo os livros sagrados do Antigo e Novo Testamentos em suas línguas originais, Swedenborg se guiou pelos mesmos critérios de estudo que o tinham norteado nos campos científico e psicológico, ou seja, o exame racional, cuidadoso e isento de ideias preconcebidas ou doutrinas tradicionalmente estabelecidas.
A partir de 1744, suas observações começam a ser registradas em um diário privado com quase 3000 páginas, que foram reunidos postumamente sob o título Diário Espiritual. Boa parte do que ele registrou ali foi depois transcrito em outros títulos dos Escritos teológicos, a partir de 1749.
Nesse novo campo de investigação, sua primeira constatação foi a existência de um sentido alegórico ou simbólico, chamado sentido espiritual, que está uniformemente presente nos livros da Palavra, desde o Gênesis até o Apocalipse. Isto significa que os relatos literais dos eventos históricos, as poesias, profecias e parábolas ali têm um segundo significado, interior, que pode ser conhecido e decodificado por meio de uma ciência lógica chamada de ‘ciência das correspondências’, porque mostra como todas as coisas na natureza visível correspondem às coisas que há no mundo espiritual e invisível. O universo criado é, de fato, um espelho representativo de outra dimensão em que vive o espírito humano. Cada coisa que existe no mundo natural corresponde a determinada coisa no mundo espiritual, e a Bíblia é onde essa relação se mostra e se revela à nossa compreensão.
Sabendoque todas as coisas derivam sua origem do mundo espiritual, e que todo objeto material contém uma força espiritual ou alma que o produz e sustenta, ele concluiu que o espiritual e o natural se relacionamcomo a causa e o efeito, e que há uma interaçãoconstante entre os dois, de sorte que um existe e subsiste pelo outro. Esta é a base da doutrina das correspondências, como Swedenborg a chamou.
“Hoje se ignora o que é correspondência. Essa ignorância se deve a muitas causas, sendo a primeira que o homem se afastou do céu por causa do amor de si e do mundo, pois quem ama a si e ao mundo acima de todas as coisas não tem em vista outras coisas senão as mundanas, porquanto essas satisfazem os sentidos externos e agradam a índole, e não tem em vista as espirituais, porque essas satisfazem os sentidos internos e agradam a mente; por isso eles as repelem de si, dizendo que são tão superiores que estão acima do pensamento. Os antigos agiam de outro modo: para eles, a ciência das correspondências foi a principal de todas as ciências; por ela adquiriam inteligência esabedoria, e os que eram da igreja, tinham por ela comunicação com o céu, porque a ciência das correspondências é a ciência angélica.
“Todo o mundo natural corresponde ao mundo espiritual, não só o mundo natural em geral, mas também em cada uma das coisas. É por isso que tudo o que no mundo natural existe pelo espiritual, diz-se que é correspondente. Deve-se saber que o mundo natural existe e subsiste pelo mundo espiritual absolutamente como o efeito por sua causa eficiente. Chama-se mundo natural toda essa extensão que está debaixo de um sol e recebe dele o calor e a luz; a esse mundo pertencem todas as coisas que daí subsistem. Mas o mundo espiritual é o céu e a esse mundo pertencem todas as coisas que estão nos céus.”16
Segundo o simbolismo das correspondências, a mensagem espiritual por trás dos relatos da criação no livro de Gênesis é coerente com a mesma mensagem nos eventos escatológicos do Apocalipsee com todos os demais livros da Palavra. Na obra Arcanos Celestes, Swedenborg demonstra na prática e em abundantes detalhes o que é essa ‘ciência das correspondências’.Os tipos simbólicos do Gênesis e do Êxodo têm o mesmo significado que em toda a Palavra, até o Apocalipse, coisa admirável que demonstra cabalmente a autoria Divina das Escrituras Sagradas.À luz da explicação de seu sentido espiritual, a massa aparentemente heterogêneade símbolos torna-se um relato conexo de eventos espirituais. E a tônica desse sentido é que a Palavra não trata, em sua essência, de eventos físicos, geológicos ou políticos, mas tão somente do Senhor e, em consequência, de Seu reino nos céus, na igreja e no espírito do homem.
Muitos estudiosos têm suspeitado da existência de um simbolismo nos relatos bíblicos, especialmente nos números, e procurado decodificá-lo, esforço que deu origem à Cabala. Dentre todos os livros da Bíblia, o que mais apelou à curiosidade das pessoas é o Apocalipse, e muitos livros têm sido escritos para decifrá-lo. Um famoso contemporâneo de Swedenborg, Sir Isaac Newton, escreveu, em 1733, um tratado teológico explicando o simbolismo das profecias dos livros de Daniel e do Apocalipse17, uma vez que ele também percebeu que devia necessariamente haver um simbolismo naqueles sonhos de Daniel e nas visões de João. Todavia, Newton, assim como todos os que se empenharam nessa obra antes e depois dele, tentou decodificar o simbolismo de Daniel e do Apocalipse aplicando-o à história humana, aos governos, aos fenômenos naturais etc. Swedenborg, porém, em seu Apocalipse Revelado (1766) e na obra póstuma Apocalipse Explicado, mostra que todas as singularidadesdo Apocalipsese relatam ao mundo espiritual, ou seja, aos estados espirituais por que passou e passa a igreja cristã, desde o seu começo até o seu fim, e à instauração de uma nova igreja no mundo, a Jerusalém santa que desce do céu.
“Muitos há que expuseram este livro profético que se chama Apocalipse, mas eles, todos, não entenderam o sentido interno ou espiritual da Palavra e, por isso, aplicaram cada uma das coisas que ali se acham aos estados sucessivos da Igreja, os quais lhe foram conhecidos pelos relatos históricos. E, além do mais, aplicaram muitas coisas aos estados civis. Assim é que, quanto à maior parte, [suas exposições] não passam de conjecturas que nunca podem aparecer numa luz tal que possam ser afirmadas como verdadeiras. Por esse motivo, após serem lidas, [essas exposições] são também rejeitadas como opiniões. A razão pela qual aparecem explicações assim é porque, como foi dito, não se conheceu coisa alguma do sentido interno ou espiritual da Palavra, quando, todavia, todas as coisas escritas no Apocalipse foram escritas num estilo semelhante ao das partes proféticas do Velho Testamento e, em geral, semelhante ao estilo em que foi escrita toda a Palavra. E a Palavra na letra é natural, mas no seu seio é espiritual; e, por ser tal, ela contém em si um sentido que absolutamente não aparece na letra.”18
Quando entendemos a Palavra segundo as correspondências espirituais, percebemos que os céus e a terra mencionados ali não são o universo visível e o planeta físico, mas os dois aspectos da natureza humana: o interno (alma ou espírito), o céu; e o externo (corpo), a terra. O ‘sol’, a ‘lua’ e as ‘estrelas’ no céu são, respectivamente, o amor, a fé e os conhecimentos da fé, que estão no homem interno. A ‘terra’ e todas as coisas de seus três reinos são os elementos presentes na mente natural, como as afeições, a memória etc., portanto, do homem externo. Assim, por meio desses tipos simbólicos, a Palavra descortina a natureza do espírito do homem e as fases de sua formação e preparação para a vida eterna.
Todas as coisas genéricas e particulares que existem no universo criado têm tal correspondência com todas as coisas genéricas e particulares do homem, que podemos dizer que o homem é uma espécie de universo. Há uma correspondência de suas emoções e, portanto, de seus pensamentos com todas as coisas do reino animal; de sua vontade e, portanto, de seu entendimento, com todas as coisas do reino vegetal; e de sua vida final com todas as coisas do reino mineral“19.
“As coisas do reino animal são correspondências de primeiro grau, porque vivem; as coisas do reino vegetal são correspondências do segundo grau, porque crescem somente; e as coisas do reino mineral são correspondências do terceiro grau, porque não vivem nem crescem. Além dessas, são correspondências tudo o mais que a operosidade do homem fabrica com essa matéria-prima, como todos os gêneros de alimentos, vestimentas, casas, edifícios públicos e muitas outras coisas”20.
Cabe, aqui, o esclarecimento de que osentido espiritual ou interno não é essa exegese que os pregadores elaboram a partir de seus estudos ou experiências pessoais, com aplicação à vida moral ou espiritual, ainda que sejam pensamentos elevados e valiosos, pois o sentido espiritual está encoberto pelos símbolose somenteaparecequando são aplicadasas correspondências ou significações que o decifram.
Se esse sentido oculto foi desvendadosomente na história recente da humanidadeé porque o entendimento do homem chegou a um grau de maturidade intelectualcapaz de compreender verdades que os primeiros cristãos não podiamsuportar ainda. A revelação desse sentido pelo Senhor é a manifestação do Espírito da Verdade prometido, isto é, a manifestação do próprio Senhorcomo a Divina Verdade em sua glória, para guiar as mentes humanas a toda verdade.Swedenborg, Seu humilde servo, foi apenas um vaso ou um arauto para trazer ao mundo essa revelação.
“Ainda tenho muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora. Mas, quando vier aquele Espírito da verdade, ele vos guiará em toda a verdade, porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará o que há de vir” (João 16:12, 13).
Quando esse sentido é desvendado, a Palavra se abre para uma nova dimensão. Não se trata de uma Palavra nova, ou de um evangelho novo, ou de outro evangelho, mas a abertura da mesma Palavra do Velho Testamento e Novo Testamento, do mesmo Evangelho,em seu significado interior. Coisa semelhante aconteceu logo depois da ressurreição do Senhor, pois Ele,
“Começando por Moisés e por todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras. Então, abriu-lhes o entendimento para compreenderem as Escrituras”(Lucas 24:27, 45). 
É por esse sentido que a Palavra é Divina e repleta de uma sabedoria que transcende os relatos da letra.

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