- 1.10. A ciência das correspondências
Desde Moisésaté João, homens foram inspirados por Deus para escrever a Palavra de um modo sapientíssimo, no qual as coisas, as pessoas, as ações e as falas do sentido literal tivessem significações espirituais e celestes, fazendo com que a Palavra toda fosse uma parábola, com um significado dentro do outro. Ainda que os escritores mesmos talvez não entendessem bem o que escreviam, cada vocábulo inspirado ou ditado por Deus tinha sua razão de ser e seu significado, mesmo quanto a cada til ou iota (Mateus 5:18).
Seja, por exemplo, o vocábulo‘água’, ou ‘águas’, no segundo versículo de Gênesis, e o mesmo vocábulo nos versículos finais do Apocalipse. No sentido da letra,‘água’ é água, obviamente. No sentido espiritual, porém, a ‘água’ significa a verdade natural, e essa significação é a mesma que ela tem em toda a Palavra, de Gênesis até o Apocalipse. Por isso se diz que ‘água’ corresponde à verdade natural, ou seja, a verdade nua do sentido da letra que até uma criança pode entender. Por exemplo, “não roubarás”, “deixai vir a Mim as criancinhas”, “orai pelos que vos maltratam e vos perseguem” são verdades naturais.
Acorrespondência da água com esse tipo de verdade é porque o efeito que ambas produzem é o mesmo: assim como a água sacia a sede do corpo, também a verdade natural satisfaz o anseio de saber, instruindo e, assim, dissolvendo as dúvidas e a ignorância. E assim como a água remove as impurezas, também a verdade natural remove as falsidades e do mal, imundícies que contaminam o entendimento.
Vemos esse primeiro efeito da verdade natural, de instruir, representado nas palavras do Senhor à mulher samaritana:
“Aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede, porque a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água a jorrar para a vida eterna” (João 4:14).
E o segundo efeito, de purificar a mente, vemos em João 13:5, quandoo Senhor se cingiu de uma toalha e, tomando uma bacia, lavou os pés aos discípulos. Ele não fez isso apenas para dar um exemplo de humildade, mas, principalmente, para ensinar que as verdades naturais da Palavra, significadas aqui pela água, purificam os externos da mente, representados pelos pés, isto é, nosso pensamento consciente e nossasafeições. Por isso, logo depois Ele falou:
“Vós já estais limpos pela palavra que vos tenho falado” (João 15:3).
Por isso, quando Ele mandou que lavássemos os pés uns aos outros, no sentido espiritual ensinava que não devemos imputar a falsidade e o mal ao pensamento e à vontade do irmão, ou seja, não pôr uma interpretação maldosa no comportamento dos outros, pois não conhecemos seus interiores.
Como, porém, quase todas as correspondências na letra da Palavra têm um sentido positivo e um negativo, as ‘águas’, no sentido negativo, significam o oposto da verdade, ou, a falsidade.Em Gênesis 6, as ‘águas’ do dilúvio têm essa significação negativa, pois o dilúvio corresponde à inundação de falsidades que acabou por sufocar e destruir a dispensação da igreja que fora representada por Adão.
Assim, se tomarmos o ‘sol’sendo criado no quarto diaemGênesis, veremos que significa o amor verdadeiro, que é implantado no homem somente na quarta fase (ou ‘dia’) do processo de seu novo nascimento ou regeneração, porquanto a história da criação é o relato de como o Espírito de Deus opera a nova criação do homem. A ‘lua’, ali, corresponde à fé então implantada, e as ‘estrelas’ são os conhecimentos a respeito das coisas espirituais, de que o homem é dotado. Esse mesmo ‘sol’,ao se esfriar no Apocalipse, descreve o amor de Deus se esfriando no coração do homem,no fim da igreja; a ‘lua’, que não daria mais a luz, é a fé que se torna morta e não esclarece mais a mente acerca das coisas de Deus, pois a fé, assim como a lua, não tem luz própria, mas reflete a luz que vem do amor ou do sol. Não havendo amor, não haverá fé genuína, e isto é o que acontece no ‘fim’ da igreja.
As“estrelas” que caem do céu são os conhecimentos Divinos que, na igreja dos últimos tempos, se tornam conhecimentosmeramente terrenos, rasteiros, materialistas e até profanos, pela falsificação ou ausência da verdadeira instrução da Palavra. Os eventos escatológicos mencionados no Apocalipse são, pois, as situações e as etapas de degeneração pelas quais a igreja cristã passa, até o formalismo externo ser julgado, condenado e desaparecer, e sersubstituído por uma igreja verdadeiramente espiritual, que não tem aparência externa visível, mas está dentro de cada umdaqueles que adoram a Deus em espírito e em verdade, independentemente de denominação.
Assim como ocorre com as águas, o sol, a luz, as estrelas, também se dá com todos os objetos, pessoas, qualidades e quantidadesmencionados na letra da Palavra. Desse modo, quando se sabe o que cada coisa corresponde, obtém-se um ensinamento novo, uma visão mais profunda da Palavra, e por isso é que a Palavra é santa e Divina em cada coisa.Essa significação ou correspondência da letra da Palavra estava oculta, de fato, mas podia ser vislumbrada parcialmente em certas passagens, como, por exemplo, quando a hipocrisia dos fariseus foi significada pelo fermento (Mateus 16:12), quando as ações do arrependimentoforam significadas pelos frutos em várias passagens, quando a verdade Divina foi significada pela espada que saía da boca do Senhor (Apocalipse 1:16) e assim por diante.
Vejamos um exemplo da explicação das correspondências do versículo 6, capítulo 6 do Apocalipse:
“E vi, e eis no meio do trono e dos quatro animais e no meio dos anciãos”. Significa desde os íntimos e, por conseguinte, em todas as coisas do céu, da Palavra e da igreja. “No meio” significa nos íntimos e, por conseguinte, em todas as coisas; “o trono” significa o céu; “os quatro animais” ou querubins significam a Palavra; e “os vinte e quatro anciãos” significam a Igreja quanto a tudo o que lhe pertence. Do exposto resulta que “no meio do trono e dos quatro animais e no meio dos anciãos” significa desde os íntimos em todas as coisas do Céu, da Palavra e da Igreja.
“’Um cordeiro que estava de pé como tendo sido morto’ significa o Senhor quanto ao Humano não reconhecido como Divino na Igreja. Por “Cordeiro” no Apocalipse entende-se o Senhor quanto ao Divino Humano e por “Cordeiro como tendo sido morto” se entende que o Seu Humano não foi reconhecido na Igreja como Divino. O mesmo ocorre no capítulo 1, versículo 18, onde se diz: “Fui morto e eis estou vivo nos séculos dos séculos”. O que significa que o Senhor foi desprezado na Igreja e que o Seu Humano não foi reconhecido como Divino.
“Ora, como o Senhor, quanto ao Divino Humano, é entendido pelo “Cordeiro” e como se diz d'Ele que “tomou o livro da destra d'Aquele Que estava sentado sobre o trono” e que depois “Ele o abriu e rompeu os sete selos”, e como nenhum dos mortais pôde fazê-lo, porque somente Deus o pode, segue-se que pelo “Cordeiro” se entende o Senhor quanto ao Divino Humano e que por “tendo sido morto” se entende que Ele não foi reconhecido como Deus quanto a Seu Humano.”21
No seu sentido espiritual, todas as coisas estão em um enredo contínuo, pois o significado espiritual, tratando de Deus, da igreja e da alma humana, segue uma sequência lógica e concatenada, de modo que não se pode subtrair qualquer coisa do sentido literal, por menor que seja, sem que o sentido espiritual sofra interrupção. Assim, para que o sentido espiritual fosse preservado, o sentido literal também tinha de ser mantido intacto, e, por esse motivo,no final do Apocalipse foi determinado que ninguém tirasse ou acrescentasse coisa alguma (Apocalipse 22:18, 19). Pela mesma razão, aprouve a Divina providência do Senhor, que cada uma das letras do Antigo Testamento fosse contada pelos massoretas.
É segundo esse sentido simbólico que a Palavra deve ser entendida: como uma parábola da realidade espiritual. Ela trata dos assuntos celestes e não terrenos; trata do reino de Deus dentro de cada homem e não das organizações eclesiásticas formais ou de governos humanos. Se a Palavra não for considerada a partir dessa ótica, ela será um livro repleto de incongruências e impossibilidades que desafiam a lógica e a razão.
O que podemos dizer, por exemplo, da impossibilidade do cumprimento literal da profeciado Apocalipse12:4,de um terço das estrelas caírem na Terra? (Ainda mais porque as mesmas estrelas já tinham caído antes, no cap. 6:13!) Pelas correspondências, porém, sabemos que a profecia é sobre o tempo na igreja em que os conhecimentos das coisas espirituais (‘estrelas’) se transformarão emconhecimentos apenas do homem externo (‘caírem na terra’). Em outras palavras, é quando a genuína instrução espiritual na igreja for substituída por chavões de autoajuda, conceitos oriundos da psicologia humana e relatos da própria experiência do indivíduo.
Ou, o que dizer, por exemplo, da questão havida entre dois irmãos, Caim e Abel, e do primeiro assassinato, e das muitas dúvidas que surgem quando essa história é interpretada literalmente? Quando, porém, entendemos que ‘Caim’significa, não uma pessoa, mas a fé no homem da igreja, e ‘Abel’significaa caridade, então veremos que a história ali é, de fato, da questão da supremacia de uma à outra na igreja, porque, quando a fé quer ter supremacia sobre a caridade e, sozinha, ser bastante para a salvação, a caridade é desprezada e aniquilada, pois a fé sem as obras é morta em si. Isto explica por que o Senhor preferiu o culto de Abel, ou seja, Ele quer que o amor seja o essencial e o principal na igreja. A fé é importante, mas é um meio, não um fim, que é o amor ou caridade. A fé é secundária na vida cristã, como bem ensinou o apóstolo Paulo:
“Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e a caridade, estas três; mas a maior destas é a caridade” (1Coríntios, 13:13).
Se não entendermos desta maneira, como iremos explicar que Deus, que é o Amor mesmo, poderia ter preferência por um de seus filhos e desprezar a oferta do outro, se nem um bom pai humano faz isso? Abel era pastor de ovelhas e Caim era lavrador;cada um só podia oferecer daquilo que tinha. Não haveria razão, literalmente falando, para um ser eleito e o outro, preterido, se eles tivessem sido pessoas reais, a menos que se considere Deus um pai injusto.
Contudo, a fé, mesmo quando predomina e aniquila a caridade, ou seja, mesmo quando é uma fé estéril, ainda assim ela deve ser preservada, pois poderá ser instruída e vir a ser útil mais tarde, quando se submeter à caridade. Isto se dá quando a pessoa, pela fé, renuncia-se a si mesma e recebe o amor. Por essa razão, a fé, mesmo inoperante, não deve ser desrespeitada ou aniquilada, mas protegida. Isto é significado pela marca posta por Deus em Caim, para que o não matasse quem o encontrasse.
Mas, então, alguém poderia perguntar: Se esse sentido é tão vital como a alma no corpo, por que foi desconhecido até os dias de Swedenborg? Bem, a pergunta já traz implícita uma primeira resposta, ou seja, esse sentido ficou desconhecido até então porque é, exatamente, como a alma no corpo, e a alma não vem à aparência externa senão por certos sinais observáveis no corpo.
Quando contemplamos uma pessoa viva, falamos com ela ea ouvimos falar de suas ideias e seus sentimentos, estamos vendo, de fato, sua alma,que se manifesta através dosemblante, da voz, dos gestos,do sentido de suas palavras e tudo mais que compõe o seu caráter. Quando, porém, contemplamos um defunto de um desconhecido, nada há ali que manifeste o caráter do falecido. Da mesma forma, se considerarmos que a Palavra tem, de fato, um significado interior, parabólico, espiritual, começaremos a ver sua verdadeira vida, sua sabedoria, transparecendo nos tipos figurativos do sentido literal. Mas se, por outro lado, considerarmos que a Palavra é somente a letra, deixaremos de ver a beleza e a profundidade da sabedoria Divina nela encerradas. Seria como se admirássemos apenas um estojo de joias, ignorando a beleza e o valor do que o estojo contém.
Uma segunda resposta à pergunta: “por que esse sentido interior permaneceu oculto?”é que, de fato, esse sentido ficou oculto apenas temporariamente na história da raça humana. Num passado remotíssimo, anterior à era hebraica – antes, portanto, de a Palavra judaica e cristã ser escrita – havia, sim, outros livrosdivinamente inspirados que eram a Palavra de Deus para a dispensação antiga, anterior à israelita. Esses livros foram mencionados na Palavra judaico-cristã. Assim diz Swedenborg a este respeito:
“Que tenha havido uma Palavra entre os povos antigos, é evidente por Moisés, que a menciona e dela tomou certas coisas (Nm 21:14, 15, 27-30); suas partes históricas eram chamadas de “As Guerras de Jehovah” e suas partes proféticas “Enunciações”. Das partes históricas daquela Palavra, o seguinte é citado por Moisés:Por isso é dito no livro das Guerras de JEHOVAH, Vahebe em Suphah, as torrentes de Arnon, e no vale dos cursos de água que desce para a habitação de Ar, e encosta no termo de Moabe (Num. 21 : 14, 15).Pelas “Guerras de JEHOVAH”, naquela Palavra, como na nossa, se entendem e são descritos os combates do Senhor contra os infernos e Suas vitórias sobre eles quando Ele viesse ao mundo.. Os mesmos combates são significados e descritos em muitos lugares nas partes históricas de nossa Palavra, como no que é dito das guerras de Josué com as nações da terra de Canaã, e as guerras dos Juízes e os reis de Israel.
“Das partes proféticas daquela Palavra, as seguintes passagens foram tiradas:“Pelo que dizem os que falam em provérbios: Vinde a Hesbom; edifique-se e fortifique-se a cidade de Seom.Porque fogo saiu de Hesbom, e uma chama, da cidade de Seom; e consumiu a Ar dos moabitas e aos senhores dos altos de Arnom. Ai de ti, Moabe! Perdido és, povo de Quemos! Entregou seus filhos, que iam fugindo, e suas filhas, como cativas a Seom, rei dos amorreus. E nós os derribamos; Hesbom perdida é até Dibom, e os assolamos até Nofa, que se estende até Medeba.(Números 21: 27-30).
“Os tradutores traduzem isso como “compositores de provérbios” [ou “os que falam em provérbios”]; mas a interpretação deve ser “Enunciadores” ou “Enunciações Proféticas”, como pode ser visto a partir da significação da palavra “meschalim” na língua hebraica, que significa tanto provérbios quanto enunciações proféticas (como em Números 23: 7, 18; 24: 3, 15), onde se diz que Balaão “proferiu sua enunciação”, que era uma profecia que também se referia ao Senhor. Essa enunciação é chamada de “maschal”, no singular. Além disso, o que Moisés cita disso não é um provérbio, mas uma profecia.
Que essa Palavra também tenha sido Divinamente inspirada é evidente por Jeremias, onde quase as mesmas coisas são ditas:“Um fogo saiu de Chesbon e uma chama dentre Sichon; ela devorou o ângulo de Moab e o cimo dos filhos de Schaon. Ai de ti, Moab! pereceu o povo de Kemosh, pois levados foram teus filhos em cativeiro, e tuas filhas em cativeiro”(Jr 48:45, 46).
Além de tudo isso, um livro profético da antiga Palavra, chamado o Livro de Jasher ou o livro da Erva, é mencionado por Davi e Josué; por David da seguinte forma:Davi lamentou sobre Saul e sobre Jônatas; e ele escreveu: Ensinar aos filhos de Judá o arco.Eis que está escrito no Livro de Jasher (2 Sm 1:17, 18).E por Josué:Josué disse: Sol, fica parado em Gibeão e tu, lua, no vale de Ajalon. Isto não está escrito no Livro de Jasher? (Josué 10:12, 13).22
O Livro de Jó, que também é um livro antigo, anterior a Abrahão, é composto por correspondências. Qualquer um pode ver que os eventos ali relatados são um relato não histórico, mas poético e simbólico, como era o estilo dos povos antigos.
Todas as Igrejas Antigas, anteriores a Abrahão,tinham, em seus rituais e estatutos, representações de coisas celestes, pelo que elas são chamadas de igrejas representativas. Essas representações eram segundo as mesmas correspondências, e as pessoas daquele tempo conheciam o significado delas.
Também entre os filhos de Jacob, os rituais, como os holocaustos, sacrifícios e tudo o mais, foram instituídos segundo as correspondências. Assim era com o tabernáculo e todos os objetos que nele se achavam, também as suas festas, como a festa dos ázimos, a festa dos tabernáculos, a festa das primícias etc. A diferença era que os israelitas e judeus não sabiam o que aquelas coisas significavam, pois nada sabiam das correspondências.
Mas aquela dispensação religiosa, que nós chamamos de Igreja Antiga para fins de identificação, degenerou-se em toda parte aonde se tinha espalhado, como Egito, Síria e outros países da Ásia e da África, e seus doutrinais acerca do amor e da fé se transformaram em falsidades, magia e idolatria.
Os sacerdotes e adivinhadores dos filisteus, citados em I Samuel 6:1, eram remanescentes da Igreja Antiga canaanita, que também se perverteu pela idolatria. Aqueles sacerdotes tinham-se tornado, de fato, ministros de um ídolo, mas ainda possuíam o conhecimento dos seus antecessores, sobre as correspondências. E foi por isso que eles instruíram que os filisteus fizessem imagens de ouro e de ratos, e os pusessem em um carro novo, ao devolverem a arca da aliança,a fim de aplacarem a ira do Deus de Israel (1 Samuel 5, 6).Outro remanescente daquela Igreja foi o sírio Balaão, que, chamado por Balaque para amaldiçoar Israel (Números 22), proferiu, em vez disso, uma profecia daquela Palavra sobre a vinda do Messias.
Mas havia, também, remanescentes que não se tinham degenerado, como os sábios ou magos que visitaram o Senhor, quando Ele nasceu, e que eram conhecedores daquela mesma profecia citada por Balaão.E houve os dois sacerdotes:Melquisedeque, que era também e rei de Salem (Gênesis 14:18), e Jetro, que era sacerdote em Midian (Êxodo 4:18). É óbvio que eles eram sacerdotesdo Senhor e ministravam em uma igreja que não era a Israelita, pois essa ainda não existia.
No caso de Jetro, sendo sacerdote,ele deviapossuiros livros sagrados daquela Palavra antiga, e há a possibilidade de que foi desses livrosque Moisés, nos quarenta anos que viveu na casa do sacerdote, transcreveu os primeiros onze capítulos de Gênesis, que são parábolas antiquíssimas e, por isso, comuns a vários povos.
Todos esses membros da Igreja Antiga conheciam, pois, o sentido espiritual, manifesto pelas correspondências. Mas, quando aquela Igreja, em suas várias ramificações, começou a se degenerar, o conhecimento da Palavra antiga também começou a cair no esquecimento e, com isso, o conhecimento de suas correspondências. Então aprouve ao Senhor que houvesse no mundo uma espécie de renovação, com uma nova Igreja sendo instituída, começando pelo chamado de Abrahão. A aliança feita com o arameuAbrão foi o início da nova dispensação, mas a Igreja nova só veio a ser instituída realmente por meio de Moisés, quando uma Palavra nova foi outorgada também por meio dele.
Em uma coisa, porém, a dispensação israelita diferia da anterior: como eles eram pessoas simples de índole, ficaram somente nos externos do culto e em rituais meramente representativos, sem conhecimento algum dos seus significados ou correspondências. Por isso o sentido espiritual da Palavra foi completamente vedado ao povo judeu. Para eles, os estatutos e juízos eram somente como estavam escritos, e o culto consistia somente de práticas representativas cujo conteúdo eles ignoravam completamente.
Mais tarde, quando o Senhor veio ao mundo, o culto judaico tinha-se transformado completamente em rituais externos, mas associados ao mal e a falsidade nos internos, pelo que os fariseus foram comparados a sepulcros caiados. Todavia, com os poucos fiéis remanescentes daquela igreja o Senhor instaurou uma nova dispensação, agora da Igreja Cristã, para começar a reerguer a raça humana e elevá-la ao culto racional e verdadeiro.
Maso conhecimento do sentido espiritual da Palavra não pôdeser dado nos primeiros tempos do cristianismo, porque os cristãos da igreja primitiva, ainda que fossem homens mais internos e espirituais do que os judeus, eram, no entanto, extremamente simples para que pudessem entender verdades mais profundas. Por isso o Senhor lhes disse:
“Ainda tenho muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora” (João 16:12).
Se esse sentido espiritual tivesse sido desvendado naquele tempo ou nos séculos seguintes, durante a Idade Média, não lhes teria sido de utilidade alguma nem seria compreendido.
Por isso é que a Palavra, na visão que João teria mais tarde, foi vista como um livro selado com sete selos, que somente o Cordeiro foi achado digno de abrir. E assim a Palavra esteve, selada, até o século XVIII, quando o Senhor abriu novamente o sentido espiritual através de um homem a quem chamou e preparou para esse fim. A abertura do livro selado com sete selos é, pois, a revelação do sentido espiritual da Palavra e a exposição da doutrina daí.
Na primeira dispensação do cristianismo, durante a Idade Média e até a época chamada do Iluminismo, a mentalidade média cristã era pouco mais ou menos como a de um pré-adolescente dos dias de hoje. Havia uma crença simples e uma visão infantil a respeito das coisas naturais e espirituais. Quando, porém, a raça humana alcançou um grau de maturidade mental capaz de compreender as verdades espirituais, o Senhor fez a abertura do sentido espiritual, no século XVIII, pois foi quando o iluminismo, o naturalismo e o ateísmo começaram a questionar a fé simples dos cristãos e zombar da singeleza do sentido literal da Palavra, pela aparente infantilidade e pela impossibilidade de muitos de seus ensinamentos, do ponto de vista científicos É, portanto, para esse tipo de confrontação que o cristão, agora esclarecido pelo sentido espiritual, pode ter agora justas respostas e cabal explicação da igreja sobre os caminhos e meios Divinos de conduzir o homem.
“Que o sentido espiritual da Palavra tenha sido desvendado hoje pelo Senhor, é porque a doutrina da verdade genuína agora foi revelada. Essa doutrina, e não outra, concorda com o sentido espiritual da Palavra. Esse sentido é também significado pela aparição do Senhor “nas nuvens do céu com glória e poder” (Mateus 24:30, 31), capítulo em que se trata da consumação do século, pelo qual se entende o último tempo da igreja. A abertura da Palavra quanto ao seu sentido espiritual foi também prometida no Apocalipse; é entendida ali pelo “cavalo branco” e pela “grande ceia” à qual todos são convidados (cap. 19:11-18). 23
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