SW 16

A Doutrina Cristã Revelada através de Emanuel Swedenborg
Cristóvão R. Nobre
"E JEHOVAH será Rei sobre toda a terra: Nesse Dia JEHOVAH será Um e o Nome d'Ele Um." (Zc. 14:9)

- 2.1. A ideia de Deus
Swedenborg ensina que a ideia mais importante na mente humana é a noção que se tem a respeito do Ser Divino. Essa ideia não só é o ponto lógico para origem de um estudo religioso, mas, também, é a mais importante, a central e a superior em todo o pensamento humano. O autor sueco parte do princípio de que a instrução prevalecente naigreja perdeu ofoco da visão clara de Deus, e essa ideia agora precisa ser restaurada para uma nova dispensação da igreja do Senhor no mundo, a esperada Jerusalém espiritual.
O fato é que a Igreja Cristã, desde o tempo da vinda do Senhor, percorreu suas idades, desde a infância até a extrema velhice. Sua infância foi a época em que os apóstolos viviam e pregavam em todo o mundo o arrependimento para remissão dos pecados e a fé genuína no Senhor Deus Salvador. 24Gradativamente, porém, esses fundamentos foram substituídos por outros enfoques e deixaram de ser o tema maior da igreja. Interpretações meramente humanas, falsas doutrinas e tradições assumiram o lugar da doutrina genuína dos cristãos primitivos. A igreja que o Senhor instaurou por meio dos apóstolos ficou tão mudada, que dela agora só restaram alguns remanescentes.
O motivo principal desse declínio e dessa devastação foi a divisão da Trindade Divina em pessoas distintas, das quais cada uma é Deus e Senhor por si. Essa ideia de Deus em três pessoas foi instituída no Concílio de Nicéia, no ano de 325 AD. Em decorrência disso, ocorreu como que um delírio em todos os demais pontos da teologia; as mentes humanas começaram a ficar entorpecidas nas coisas da religião, e desde então não se sabe mais se há um único Deus ou se há três.
Quando Swedenborg fala que a Igreja Cristã dividiua Trindade em Pessoas, ele está falando da crença efetiva e não da confissão de boca. Porque, afinal de contas,todos concordam com a crença num só Deus. No mundo cristão, ninguém, em sã consciência, é capaz de dizer que crê em três Deuses.
Mas, se se levar em conta o desdobramento da confissão niceana, veremos que, por trás da confissão oral de Um só Deus, há, sim, o conceito de três deuses, pois se há três Pessoas e cada uma delas é Deus por si, então há, de fato, três deuses. Isto se confirma quando se reflete no que se chama de “plano de salvação”, segundo o qual uma pessoa Divina se sacrificou para aplacar a ira da outra. Ou se confirma,também, quando o crente ora a uma Pessoa para que ela interceda junto à outra, ou ora a Deus Pai e menciona, no final, o nome de Jesus, para que o Pai se faça propício. A mente, então, está claramente visualizando ao menos duas pessoas bem distintas, dois deuses, já que a ideia da expiação pelo mérito do Filho, por seu sacrifício na cruz, a ideia da salvação e a ideia da intercessão diante do Pai, são, todas elas,ideias que requerem absolutamente a existência de pessoas separadas na Trindade. É, então, que se nota indubitavelmente a contradição entre a linguagem da confissão e a crença da mente. Na boca se confessa um só Deus, mas no pensamentohá três. Há uma oposição entre o que se professa e o que se pensa, e dessa oposição resulta que não se reconhece nenhum Deus.
Desse paradoxo ou dessa confusão na crença do cristianismo resulta o naturalismo e o ateísmo que reinam hoje no mundo, pois, se nem o cristão é capaz de entender o “mistério” do Deus a Quem adora, ainda menos entenderão os que estão fora do cristianismo.
Swedenborg mostra a tremenda responsabilidade da Igreja Cristã para com o mundo. No momento em que a Igreja deixou de ser um espelho da luz Divina, a escuridão invadiu as mentes. Ele diz que a Igreja está para o mundo assim como o coração está para o corpo. A Igreja sã e ativa é como o coração sadio e vigoroso que faz espalhar o sangue (verdades espirituais) e o oxigênio (liberdade) a toda a raça humana. A Igreja é animada por dentro, pelo influxo Divino no espírito de cada um de seus membros e, daí, para os que estão fora dela. A Igreja deveria sera luz do mundo, a candeia no aparador, o sal da terra (Mateus 5:13-16).
Uma vez que a ideia de Deuspara o cristianismo se tornou embaçada desde Niceia25, a ponto de espalhar dúvida nas mentes e escuridão no mundo, é preciso que essa ideia seja restaurada a partir de ensinamentos isentos da Palavra do Antigo e Novo Testamentos em seu sentido genuíno, tal como os entendiam os apóstolos e os primeiros cristãos.
A restauração da ideia justa de Deus se dará quando a razão humana se convencer de que há uma Divina Trindade e que esta Trindade reside naPessoa única do Senhor Deus Salvador Jesus Cristo, e ela pode ser compreendia com clareza quando se pensar nela como a alma, o corpo e aação resultante, em cada homem, pois essa trindade do homem é imagem da Trindade Divina em Jesus Cristo.
17 - &2.2. Da Unidade de Deus
Indo mais adiante na ideia de Deus, os Escritos de Swedenborg nos dizem que toda a Escritura Santa e, por conseguinte, todas as doutrinas das igrejas no mundo cristão ensinam que há um Deus e que Ele é um.Alguns exemplos das passagens que atestam a unidade de Deus:
“Ouve, Israel, JEHOVAH nosso Deus,JEHOVAH é um” (Deuteronômio 6:4);
“Assim diz o Senhor, Rei de Israel, e seu Redentor, o Senhor dos exércitos: Eu sou o primeiro, e Eu sou o último, e fora de Mim não há Deus”(Isaías 44:6);
“Eu sou o Senhor, e não há outro; fora de mim não há Deus” (Isaías 45:5);
“Anunciai, e chegai-vos, e tomai conselho todos juntos; quem fez ouvir isto desde a antiguidade? quem desde então o anunciou? Porventura não sou Eu, o Senhor? e não há outro Deus senão eu; Deus justo e Salvador não há fora de Mim” (Isaías 45:21)
Toda a Escritura Santa ensina assim, mas, além disso, existe um influxo universal procedendo de Deus nas almas dos homens ensinando a mesma coisa, a saber, que há um Deus e que Ele é um. Esse influxo foi a forma provida por Deus para que esse conhecimento tão essencial não faltasse a ser humano algum, em qualquer época e em qualquer parte do mundo que nascesse e vivesse. Isto é lógico, já que a ideia justa de Deus é tão essencial para a vida humana.
Esse influxo é definido como um ditame interno, uma instrução tácita que direciona a fé para o culto da Divindade única. Por essa razão é que o culto que os povos em todos os tempos têm dedicado à divindade é predominantemente um culto monoteísta, pelo menos enquanto o homem não apaga a intuição primitiva (influxo) sobre Deus. Mesmo quando a criatura humana adorou várias divindades, sempre admitiu uma que era superior e soberana, acima de todas.
Agora, se os povos tiveram e têm conceitos diferentes sobre a qualidade dessa única Divindade, isto se deve a vários motivos. O primeiro é que o influxo Divino esclarece conforme a recepção. O influxo se faz na alma, mas em seguida desce e vivifica as coisas que estão no entendimento, segundo a recepção. É por isso que, embora exista o influxo dizendo que há um Deus e que Ele é um, a recepção desse influxo é condicionada à informação, mais clara ou mais obscura, que o indivíduo recebe de sua religiosidade.
O influxo dá a intuição, mas a fé vem pelo ouvir.Assim, se existe uma variedade de formas de culto, uma diversidade de ideias a respeito de Deus e mesmo o politeísmo e o ateísmo, é porque esse influxo caiu em formas não correspondentes, e a forma mesma o modifica ou diversifica. Por isso, o influxo por si só não é bastante, se não houver a audição da fé. A intuição sem a fé é que deu origem à adoração de imagens ou da natureza em lugar de Deus. Por isso o Senhor deu uma Palavra escrita, a Revelação, ensinando claramente que Ele existe e que Ele é um, e por esse meio podemos adquirir em liberdade a fé n’Ele
Swedenborg ensina que não pode haver conhecimento de Deus, nem por conseguinte reconhecimento de Deus, sem revelação. Em outras palavras, dependemos de uma instrução formal e final revelada do Alto; dependemos de ser ensinados por Deus, pois o conhecimento e o reconhecimento d`Ele transcendem os conhecimentos a que poderíamos chegar pela indagação científica unicamente,ou apenas pela experiência humana.
Isto foi determinado assim por causa de nossa liberdade, pois a revelação, seja escrita, seja oral – como nos tempos antiquíssimos – não constrange, não forçaa crença, não se impõe, mas deixa o indivíduo livre para se dirigir a ela, para ir voluntariamente ao encontro daquilo que Deus tem para lhe dizer. Hoje, a forma genuína e excelente pela qual Deus se revela à Igreja nesta Terra é através do Antigo e Novo Testamentos. Sendo assim, a qualidade da ideia de Deus que as pessoas têm varia em conformidade com a proximidade em que estão dessa Revelação genuína; quanto mais distantes estiverem, mais imperfeita será a ideia de Deus. Daí a necessidade da evangelização, incumbência dada à Igreja do Senhor na terra, pois ela é a fiel depositária da Revelação suprema.
Sem a Palavra revelada, a criatura humana permanece imersa nas aparências dos sentidos físicos, e se nessa condição ela pretender formar por si mesmo uma ideia de Deus, suas conclusões serão necessariamente influenciadas por sua cegueira em relação à realidade espiritual. Daí é que muitos povos tomaram imagens como objeto de sua adoração, outros elegeram os astros e outros tomaram a natureza ou outras ideias mais abstratas em lugar de Deus.
“Quem não pode compreender que os conhecimentos sobre Deus são espelhos de Deus, e que aqueles que nada sabem de Deus veem Deus não em um espelho voltado para seus olhos, mas em um espelho virado pelo dorso, que é coberto de mercúrio ou de negro de fumo e que não reflete a imagem, mas a oculta?”
“A fé em Deus entra no homem pelo caminho anterior, que vai da alma aos superiores do entendimento; mas os conhecimentos sobre Deus entram pelo caminho posterior, porque o entendimento os tira pelos sentidos do corpo da Palavra revelada; e o encontro dos influxos se faz no meio do entendimento, e aí a fé natural, que não é senão uma persuasão, se torna fé espiritual, que é o reconhecimento mesmo; o entendimento humano é, portanto, como um entreposto de trocas no qual se faz a permuta”. “E disse o Senhor: A quem, pois, compararei os homens desta geração, e a quem são semelhantes? São semelhantes aos meninos que, assentados na praça do mercado, clamam uns aos outros e dizem: Tocamos-vos flauta, e não dançastes; cantamos-vos lamentações, e não chorastes” (Lucas 7:31 e 32).26
Mas, além do influxo universal e da Palavra escrita, existe ainda a razão, que pode perceber ou concluir, se quiser, que há um Deus e que Ele é um. Swedenborg diz que, se o homem crê na mão Divina operando em cada coisa da natureza, a simples observação racional o levará mais a se confirmar em favor de Deus do que a negá-Lo. Em outras palavras, a razão esclarecida pode concluir, pelo exame da criação, sobre a existência e a unidade de Deus.
“Quando o homem, cujo racional é elevado, vê estas maravilhas e as examina atentamente, não pode deixar de pensar que elas vêm d’Aquele cuja Sabedoria é infinita, por consequência de Deus...”“Quem quiser pensar no influxo Divino vindo pelo mundo espiritual ao mundo natural pode ver este influxo nessas coisas; pode, também, dizer em seu coração: O sol não pode, por seu calor e por sua luz, dar tais ciências a esses [insetos] voláteis, pois o sol, de que a natureza tira sua origem e sua essência, é um puro fogo e, por conseguinte, os efluxos de seu calor e de sua luz são absolutamente mortos; e assim pode se concluir que tais coisas vêm do influxo Divino pelo mundo espiritual aos últimos da natureza”... “Estas coisas e várias outras são provas existentes de que Deus de Si mesmo pelo mundo espiritual opera o que se faz na natureza. A isso devo ajuntar que, no mundo espiritual, vi aqueles que, pelas coisas visíveis do mundo, se tinham confirmado pela natureza até se tornarem ateus, e que seu entendimento na luz espiritual me apareceu aberto por baixo, mas fechado por cima; e isso porque, pelo pensamento, eles olham para baixo na direção da terra, e não para cima na direção do céu, acima do sensual, que é o ínfimo do entendimento... Que cada um se guarde, portanto, de confirmações pela natureza, mas que se confirme por Deus, pois os meios não faltam”.27
Continuando a exposição do ponto doutrinal sobre a unidade de Deus, na obra Verdadeira Religião Cristã, no parágrafo 13, Swedenborg faz a seguinte proposição: “Se não houvesse um único Deus, o universo não teria podido ser criado nem conservado”. Esta ideia parece óbvia, e é... para quem crê na existência Divina. Mas não é tão óbvia assim para um cético ou ateu.A maioria dos naturalistas e ateus, além de muitos cientistas, acha que o universo foi criado por obra do acaso, efeito de uma grande explosão de energia concentrada, e rejeitam, por conseguinte, a noção de uma Inteligência criadora.
Swedenborg demonstra a veracidade de sua proposição afirmando que o universo é uma obra coerente, como uma só unidade complexa, desde seus princípios até seus últimos, ou seja, nada é destacado da parte, nada é desconexo, inútil ou sem sentido. É um encadeamento de usos em benefício do gênero humano.
Mas, para se chegar a essa conclusão, é necessário que o universo seja considerado como um todo e não os seus objetos isoladamente, econsiderar o universo como um todo é ver “os fins, as causas médias e os efeitos”.
“Este grande sistema que se chama universo é uma obra coerente... porque Deus, ao criá-lo, teve em vista um único Fim, que era o céu angélico formado pelo gênero humano; e os meios para esse fim são todas as coisas de que o mundo se compõe, pois quem quer o fim quer também os meios; aquele, portanto, que contempla o mundo como uma obra que contém os meios para este fim, pode contemplar o universo criado como uma obra coerente como um”.28
Até aqui temos visto que há vários fatores que concorrem para que o indivíduo reconheça que existe um Deus e que esse Deus é Um: o influxo nas almas, a revelação e a observação das coisas criadas a partir de uma razão esclarecida. Mas nenhum desses fatores impõe o reconhecimento ou a crença em Deus, porquanto a liberdade é absolutamente essencial nas matérias espirituais. Deus não obriga a ninguém crer n’Ele, porque a fé que é recebida por constrangimento não é verdadeira, uma vez que o que é constrangido não entra na vontade do indivíduo. Nada do que a pessoa recebe por meio de imposição lhe é apropriado como seu. Por isso, a ideia sobre Deus deve ser recebida livre e racionalmente pelo homem, para que produza algum efeito e se torna o ponto principal de sua fé.
Como a ideia de Deus é a ideia principal na mente humana, segue-se como conclusão lógica que, se essa ideia fundamental e superior não for clara e justa, todas as outras coisas na mente também tenderão à obscuridade e a inexatidão. De fato, as Doutrinas Celestes dizem que nada está em coerência no homem que não temumaideia justa de Deus. Nesse caso e nesse estado, o homem é comparado ao caos que precedeu a criação: a terra (sua mente natural) está vácua (sem os bens do amor) e vazia (sem as verdades da fé); como resultado, há trevas (ignorância antes da fé) sobre as faces do abismo (o ser do homem não nascido de novo); mas a misericórdia de Deus influi constantemente nos conhecimentos da memória do homem (o Espírito de Deus pairando sobre as faces das águas), até surgir a primeira claridade da fé, a luz. Este é o começo do seu nascimento espiritual, simbolizado pelo primeiro dia da criação.
“O homem, antes da regeneração, é chamado “terra vácua e vazia” e também “humo” no qual nada é semeado de bem e vero. O “vácuo” é onde nada há de bem e o “vazio” é onde nada há de verdade. Daí vem a escuridão ou a demência e a ignorância a respeito de todas as coisas que são da fé no Senhor, por conseguinte, de todas as que são da vida espiritual e celeste.”29

LIVRO

Versao Impressa

Para estudo mais confortavel, adquira esta obra em formato impresso.