SW 18

A Doutrina Cristã Revelada através de Emanuel Swedenborg
Cristóvão R. Nobre
"E JEHOVAH será Rei sobre toda a terra: Nesse Dia JEHOVAH será Um e o Nome d'Ele Um." (Zc. 14:9)

- 2.3. Do Divino Ser
“Então disse Moisés a Deus: Eis que quando vier aos filhos de Israel, e lhes disser: O Deus de vossos pais me enviou a vós; e eles me disserem: Qual é o Seu nome? Que lhes direi? E disse Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós” (Êxodo 3:14,15)
Sabendo que existe um Deus, e que Ele é um, cumpre saber, portanto, quem é ou como é esse Deus. Nesse ponto, as exposições teológicas de Swedenborg tratam abundantemente de termos tais como “Ser” e “Essência”, conceitos que, à primeira vista, parecem muito abstratos e de difícil compreensão, quando se aplicam a Deus. Com efeito, ao iniciar a explanação desses termos, Swedenborg diz: “Parece que há entre os dois uma identidade perfeita, mas acontece, contudo, que o Ser é mais universal do que a essência”; e, também: “A Essência supõe o Ser; é segundo o Ser que há a Essência”.
Realmente, esses termos parecem requerer elevadas explicações filosóficas para serem trazidos à nossa compreensão. Mas, como sempre fezem todos os seus Escritos teológicos, Swedenborg, dotado de uma inteligência científica e prática, reduz os termos abstratos em ideias simples, compreensíveis, sem fazer usos de conceitos rebuscados e metafísicos. Sua mente era a de um hábil mecânico, que queria compreender o funcionamento de cada coisa e explicá-la em termos accessíveis ao leigo, e isto ele faz em relação à Teologia. Portanto, essas ideias sobre o Ser e a Essência Divinos (e, consequentemente, sobre os Divinos Existir e a Existência) podem ser bem compreendidas ao fim de alguma explicação. E isto é muito valioso para o estudante, pois pode-se seguramente dizer que este é o cerne da Teologia, ou seja, o Que éa Divindade ou Ente Divino.
Antes, porém, de irmos mais adiante neste exame, é muito necessário assumirmos nossa limitação humana. Com sincera humildade, admitamos que, se somos ignorantes quanto às coisas mais insignificantes do universo criado, que dirá a respeito do Ser Divino? Por isso, não temos, nem neste estudo nem em qualquer outra situação, a presunção de esquadrinhar os atributos da Pessoa do Criador e em seguida dizer que O entendemos perfeitamente. Não, absolutamente. Nossa ideia de Deus é, e sempre será,muito limitada, pois “o Ser de Deus ou o ser Divino não pode ser descrito porque está acima de toda ideia do pensamento humano”30
Parece que o autor nosapresenta, então, um paradoxo: Se o Ser de Deus não pode ser descrito, como se pode conciliar isso com o que foi dito anteriormente, que da ideia de Deus depende todas as outras? E, se isso é algo indescritível, por que é examinado e explicado no seu livro? Podemos responder dizendo que o Senhor, em Sua revelação, quer nos elevar o entendimento a tal ponto que poderemos entender de uma maneira natural aquilo que aparentemente é incompressível, pois Ele prometeu:
“Quando vier aquele Espírito da verdade, ele vos guiará em toda a verdade... Disse-vos isso por parábolas; chega, porém, a hora em que vos não falarei mais por parábolas, mas abertamente vos falarei acerca do Pai (João 16:13, 25).
Todo aquele que buscar de Deus a sabedoria será, de uma forma ou de outra, agraciado com quanta sabedoria for capaz de receber, pois Ele mesmo quer dar a água da vida a quem quiser tomá-la livremente. Além disso, Ele tem infinitas formas pelas quais pode atingir nosso racional e satisfazer nossa sede de saber.
Ainda assim, por mais esclarecidos que sejamos a este respeito, devemos admitir que a nossa compreensão natural será sempre limitada, e o que percebemos são apenas vislumbres, flashes da luz da Divina Verdade. Mal comparando, é como se tentássemos saber a respeito do sol olhando diretamente para ele: nossos olhos não suportariam tanta luz;todavia, podemos vê-lo como que indiretamente, por seus raios e seu calor,refletido objetos fora dele.
Mas as coisas ficam mais claras quando prestamos atenção na maneira pela qual Deus se faz revelar à nossa compreensão:
“Deus nunca foi visto por alguém. O Filho Unigênito, que está no seio do Pai, esse o fez conhecer” (João 1:18).
Isto quer dizer que os atributos Divinos, de aparentemente difícil compreensão,tornam-se bem visíveis e facilmente compreensíveis quando os vemos representados na Pessoa Divina tal como se manifestou ao nosso entendimento: o Senhor Jesus Cristo. É isso também que quer dizer o fato de ninguém poder “ir ao Pai” senão pelo Senhor.
É por essa razão que, ao iniciar a explanação do que é o Divino Ser e a Divina Essência, Swedenborg aqui não prossegue fazendo exposições filosóficas quanto aos termos “Ser” e “Existir” propriamente, mas volta-se logo para a Pessoa, dando-lhe logo um Nome e uma existência: JEHOVAH, no Velho Testamento, e “JEHOVAH Salvou”, (isto é, “Jehoshua”= Jesus) quando veio ao mundo.
É essa facilidade que nos anima a prosseguir no exame do assunto, pois podemos até não saber bem definir os tais termos, mas podemos perfeitamente compreender uma Pessoa amorosa de Quem emana uma sabedoria tão vasta e um amor tão puro, que Ele brilha acima dos céus como o Sol Espiritual, e mais ainda quando essa Pessoa Divina é apresentada nas histórias, nos cânticos e nas profecias claras da letra das Escrituras. Ademais, lembremo-nos sempre de que as palavras “Ser” e “Existir” como também “Essência” e “Existência” são meros instrumentos de que o pensamento humano se mune para enquadrar aquelas ideias mais abstratas (e corretas) sobre Deus.
Swedenborg, pois, inicia afirmando que o Deus Uno se chama JEHOVAH, por causa do SER. Ele é o Ser mesmo. Em outras palavras, só JEHOVAH é alguém ou alguma coisa; todas as demais pessoas ou coisas criadasnão são nada por si mesmas, ou, só são alguma coisa porque JEHOVAH é. E isto é o que quer dizer este nome: EU SOU. Quando Moisés, no monte Horebe, perguntou-Lhe como se chamava, Ele respondeu dizendo: “Eu Sou o que (é) Eu Sou” (Êxodo 3:14,15).
“Pois que Deus, só, é EU SOU e o SER, ou JEHOVAH, nada há no universo criado que não tire seu ser d'Ele. Mas como? É o que veremos abaixo. A mesma coisa é também entendida por estas palavras: “Eu sou o Primeiro e o Último, o Princípio e o fim, o Alfa e o Ômega”. (Isaías 44:6; Apocalipse 1:8 e 11; 22:13), o que significa Aquele que desde os primeiros até os últimos é o Mesmo e o Único de quem todas as coisas procedem.”31
Fica, então, estabelecida a ideia de que Deus é o SER porque só Ele é, foi e sempre será; ou, dito de outro modo, só Ele vive por Si mesmo, enquanto todos os demais “seres” só são alguma coisa por terem recebido d’Ele alguma essência ou alguma vida e existência. Como somente Ele tem essa propriedade de “ser” por Si mesmo, por isso Ele é chamado JEHOVAH.
A primeira consequência lógica desta verdade é dada em seguida no mesmo capítulo dolivro: “Pois que Deus é o Ser, é também a Substância” (20), porquanto o Ser nada seria se não tivesse substância; ou antes, seria apenas uma coisa imaginária, apenas uma ideia formulada no pensamento. Então, Deus, “sendo” Alguém ou Alguma coisa (o Divino Amor), Ele temnecessariamente de ter substância e, por conseguinte, uma forma, pois uma substância, sem uma forma definida qualquer, seria ainda uma coisa imaginária. Sendo assim, como Deus, só, É, segue-se que Ele também é a Substância única e primeira e a Forma única e primeira, ou seja, a Substância e a Forma mesmas.
Chegamos, então, a um ponto “concreto”. A Pessoa Infinita de Deus foi descrita como sendo aquele que é a única que é, que tem essência própria; por conseguinte, é a única Pessoa que tem substância e forma, já que a essência implica necessariamente uma substância e uma forma. Assim, Deus JEHOVAHé a única pessoa que tem VIDA e FORMA próprias, por Si mesmo. A “forma” é, portanto, esse ponto mais concreto aonde chegamos, porque agora temos um conceito que nosso entendimento facilmente reconhece: a forma de Deus.
A forma, em todos esses atributos a que nos referimos até aqui (Ser, essência, substância) é a primeira que “entra” realmente na ideia de nosso pensamento. De fato, podemos imaginar a “forma” de alguém ou de alguma coisa, mas temos mais dificuldade em imaginar seu “ser” ou “substância”. A formaé um conceito familiar para nós, pois está ligada ao espaço; e nosso pensamento, enquanto habitarmos neste mundo natural, depende absolutamente de duas dimensões: espaço e tempo, para compreender qualquer coisa.
Nada do que pensamos ou imaginamos consegue fugir dessas duas limitações da natureza: espaço e tempo. E como os atributos da Alma Divina, JEHOVAH, nada têm do espaço e do tempo, é por isso que temos tanta dificuldade em pensar nesses atributos. Mas a “forma” é o envoltório, o que dá dimensões reconhecíveis aos seres; a forma encerra as coisas mais abstratas e as reduz a uma dimensão compreensível ao entendimento. É por isso que o SER depende de uma SUBSTÂNCIA e esta, por sua vez, depende de uma FORMA, para terem existência. Olhemos, então, a forma e “veremos” nela o “ser” e a “substância”. Vamos dizer isto de outro modo: olhemos para a FORMA de Deus, que é Jesus Cristo, e n’Ele “veremos” o SER (JEHOVAH) e a SUBSTÂNCIA (o Divino Amor). “Quem vê a Mim, vê o Pai”, disse Ele a Filipe.
Resta-nos apenas saber o seguinte: essa Forma “concreta” de Deus é a Forma Humana, sendo que nessa Forma, n’Ele, todas as coisas são infinitas (VRC 20). Isto quer dizer que Deus é o Homem Mesmo, e todos os outros seres humanos são homens (e mulheres) porque Ele é Humano. Todas as outras coisas do universo criado têm essa forma humana, seja na aparência, seja na função, seja no uso etc., mas “os anjos e homens” têm de especial isto, que “são substâncias e formas criadas e organizadas para receber os Divinos que influem n’Eles desde o céu” (Ibid.)
Finalmente, o objetivo de Swedenborg ao fazer essas exposições filosóficas sobre Deus está demonstrado no final do parágrafo 20 do mesmo livro, a saber: é para que nossas mentes não se percam na noção de Deus como sendo um vazio ou o nada. Deus É, Deus tem Substância e Deus tem Forma, e a Forma Divina é a Forma Humana. E, como nós fomos criados à imagem e semelhança d’Ele, por isso também, somos alguém pela graça d’Ele, somos uma substância criada a partir do amor d’Ele, e somos humanos porque Ele é o Homem mesmo.
“Este Deus um é a substância mesma e a forma mesma; e os anjos e os homens são substâncias e formas por ele; e quanto mais eles estão n’Ele e Ele neles, mais são imagens e semelhanças.
“Pois que Deus é o Ser, é também a Substância; com efeito, o Ser, se não tem substância, é um ser de razão, pois a substância é o ser subsistindo (enssubsistens); e aquele, que é a substância é também a forma, pois a substância se não tiver forma, será um ser de razão; uma e outro podem pois se dizer de Deus, mas neste sentido que Ele é a Substância única, a Substância mesma, a Substância primeira e a forma única, a Forma mesma, a Forma primeira.
“Que esta Forma seja a Forma Humana mesma, isto é, que Deus seja Homem Mesmo, em que tudo é infinito, é o que foi demonstrado na Sabedoria Angélica sobre o Divino Amor e a Divina Sabedoria, publicada em Amsterdam em 1763; foi da mesma forma demonstrado que os Anjos e os Homens são substâncias e formas criadas e organizadas para receber os Divinos que influem n’Eles pelo Céu; é por isso que, no Livro da Criação, eles são chamados Imagens e Semelhanças de Deus (Genesis 1, 26 e 27); e em outra parte se diz que eles são filhos de Deus e nascidos de Deus; mas no curso desta Obra será demonstrado em vários lugares, que quanto mais o homem vive sob o auspício Divino, isto é, se deixa conduzir por Deus, tanto mais se torna mais e mais interiormente a imagem de Deus.
“Se não se tem de Deus a ideia de que Ele é a primeira Substância e a primeira Forma, e que Sua Forma é a Forma Humana, as Mentes Humanas facilmente podem introduzir nelas fantasias como espectros sobre Deus Mesmo, sobre a origem dos homens e sobre a criação do Mundo; sobre Deus, não ter outra noção que não seja como da Natureza do universo em seus primeiros, assim como da Extensão da Natureza ou como do vazio ou do nada; sobre a origem dos homens não ter noção senão como do concurso fortuito dos elementos na forma humana; sobre a Criação do Mundo, imaginar que a origem das substâncias e das formas vem de pontos e em seguida de linhas geométricas que, não tendo atributo algum, nada são por consequência em si mesmas; em tais homens tudo o que pertence à Igreja é como o Estígio, ou como a obscuridade do Tártaro.”32
Prosseguindo nessa exposição, Swedenborg passa a demonstrar que o Divino Ser é, ao mesmo tempo, o Divino Existir. Isto é apresentado como uma decorrência lógica do que foi mostrado anteriormente, ou seja, se Deus é o Ser em Si, deve também ser o Existir em Si, porque o sernão é alguma coisa a menos que exista. E, do mesmo modo, alguma coisa só tem existência porque tem uma essência. Se se excluir a essência [ser] de alguma coisa, ele deixa de ter existência [existir].É por isso que, um sendo dado, o outro também deve ser dado.
Semelhantemente se pode dizer em relação à forma e à substância.A substância requer a forma, e de uma forma sem uma substância que a componha nada se pode dizer. Isto é apresentado como premissa para o que será demonstrado mais adiante, quando se tratar da Forma de Deus (Humana) e da Substância de Deus (o Amor).

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