- 2.4. Da Infinidade de Deus
A Infinidade, quando se aplica ao tempo, é chamada “Eternidade”; e, quando se aplica ao espaço, “Imensidade”.
O que até aqui foi resumido em poucas páginas demonstrou claramente a nossa limitada capacidade de sintetizar adequadamente conceitos tão elevados que o autor explana tão bem em vários capítulos e livros. Se houve obscuridade, deve ser atribuída, evidentemente, às nossas limitações e não ao estilo do nobre sueco, que, de forma límpida, simples e tranquila, desmistifica os conceitos tratados como sobrenaturais e misteriosos por outros autores, concernente a Deus. Com isso esperamos fazer justiça ao autor, enquanto sugerimos que o leitor mais interessado examine esses pontos com mais propriedade e proveito, na sua própria fonte.
Assim, após tratar dotema“Divino Ser”, Swedenborg focalizaa questão da eternidade e da infinidade de Deus, e começa afirmando que a imensidade e a eternidade Divinas são atributos que, embora estejam fora e acima do mundo natural, têm, contudo, relação com os dois próprios do mundo: o espaço e o tempo. Com efeito, a imensidade se refere ao espaço ou à transcendentalidade do espaço, e a eternidade se refere ao tempo ou à transcendentalidade do tempo. Portanto, antes de entrarmos no assunto mesmo dainfinidade Divina, vejamos inicialmenteesses dois próprios da natureza: espaço e tempo.
Espaço e tempo são os dois elementos que limitam todas as coisas no mundo natural e, por conseguinte, na mente natural. Nada, absolutamente, no plano natural do mundo e da mente pode fugir desses dois termos.Os reinos mineral, vegetal e animal estão circunscritos por esses próprios e, portanto, nossos pensamentos naturais também estão.
Não podemos conceber qualquer ideia de alguma coisa que não dependa de espaço e tempo, visto que nosso pensamento, enquanto vivemos neste mundo, é o pensamento natural no externo, pensamento este que está ligado às coisas do sentido que, por sua vez, recebe impressões do mundo natural.
Todas as nossas lembranças etodos os nossos sentimentos têm essa característica de se manifestarem por meio de imagens ou ambientes que ocupam determinado lugar no espaço mental e determinada época no tempo. Por mais abstrato que seja o nosso pensamento natural, ele estará sempre envolvido ou encorpado numa imagem espacial ou temporal. Somente quando deixa este plano de existência é que asideias humanas se libertam dessas duas fronteiras e, então, pode-se alcançar a compreensão mais adequada daquilo que está fora do espaço e do tempo.
Agora, uma informação peculiar dada por Swedenborg – uma novidade ou arcano revelado – é que estes dois próprios da natureza, espaço e tempo, tiveram sua origem nos dois atributos do Ser Divino: Imensidade e Eternidade. Os espaços tiram sua origem da Imensidade, e o tempo tira sua origem da Eternidade. Isto porque Deus, sendo Aquele que realmente É, ou o Divino Ser, faz que todas as coisas do universo sejam e existam por Ele. Logo, todas as coisas do universo só “são” alguma coisa porque Ele É.
Como já foi dito, todas as coisas só têm existência porque Ele existiu, existe e existirá antes delas. E como Ele “era” antes de ter criado qualquer coisa, Ele é infinito. Isto é óbvio a partir da definição do Ser, JEHOVAH. Empregamos aqui o verbo ser no passado imperfeito, “era”, mas, na realidade, em relação ao Ser Divino, nenhum tempo do verbo se aplica, porque Ele “É”, independentemente do tempo. Mesmo o emprego dos três tempos simultaneamente, É, Foi e Será, é uma limitação, de certa maneira, da ideia do Ser, já que o tempo “foi” nos dá a ideia de coisa acabada, finda econsumada, enquanto a ideia do “será” envolve o que ainda não é, não existe. Esses três tempos levam consigo uma certa interrupção da existência. Por conseguinte, o melhor que podemos fazer, para definir o Ser, é ficarmos com a expressão “Aquele que É” e nos lembrarmos de que o tempo não se aplica a Deus, mas aos seres criados.
Sendo assim, Ele é Infinito, sem início e sem fim, porque “início” e “fim” são também locuções pertinentes ao tempo e ao espaço. E nossa mente natural não pode conceber a ideia do Infinito, como se falou anteriormente. O máximo que podemos fazer, neste caso, é aceitar que Deus é Infinito e saber que Infinidade é um atributo que escapa à nossa inevitável limitação espacial e temporal.
Nada mais precisamos compreender além disso, porque, simplesmente, não o podemos.
“Com efeito, a mente humana, mesmo a mais analítica e a mais elevada, é finita; e o finito nessa mente não pode ser afastado; é, portanto, inteiramente incapaz de ver a Infinidade de Deus, tal como é em si mesma, nem [pode ver] Deus, por consequência. Mas pode ver Deus na sombra, por trás, assim como foi dito a Moisés, quando pediu com insistência para ver Deus, pois foi colocado na fenda de uma rocha e viu as costas de Deus (Êxodo 33:20 a 23). Pelas “costas” de Deus são entendidas as coisas visíveis no mundo e, especialmente, as coisas perceptíveis na Palavra.
“Por aí se vê claramente que é inútil querer conhecer qual é Deus em Seu Ser ou em Sua substância, mas que é suficiente conhecê-Lo segundo os finitos, isto é, segundo as coisas criadas, nas quais Ele está de uma maneira infinita. O homem que se esforça por penetrar além disso pode ser comparado a um peixe atirado no ar ou a um pássaro colocado em uma máquina pneumática e que, à medida que o ar é rarefeito, desfalece e quase expira.”33
Sendo infinito e incriado, Deus,ao criar o mundo pôs termos nos objetos e sujeitos criados, e isso em decorrência da própria existência dessas coisas: elas não existiriam se não fossem limitadas. Se elas não fossem submetidas ao tempo e ao espaço, seriam infinitas e eternas, sendo, por conseguinte, Divinas, o que não seria possível, como é notório, porque o Divino não pode criar outro divino.
“Se os tempos e espaços foram introduzidos no mundo, foi a fim de que houvesse distinção entre uma coisa e outra, entre o grande e o pequeno, entre o muito e o pouco (...) a fim de que, por isso, os sentidos do corpo pudessem distinguir seus objetos e os sentidos da mente os seus e, por conseguinte, ser afetados, pensar e escolher. Os tempos foram introduzidos no mundo natural pelo fato de a terra girar sobre seu eixo e de essas rotações avançarem de uma estação a outra segundo o zodíaco; e de essas rotações periódicas parecerem ser feitas pelo Sol, de que o globo terráqueo tira seu calor e sua luz.Os espaços foram introduzidos no mundo natural pelo fato de a terra ter sido reunida em um globo e cheia de materiais, cujas partes foram distintas entre si e ao mesmo tempo estendidas”34
O homem não pode percebero que é‘Infinito e Incriado’.E visto que os seus sentidos físicos só lhe deixam perceber o que pertence ao tempo e ao espaço, por isso ele tem a ilusão de que o Infinito e Incriado nada é.Por isso, se se deixar levar somente pelos sentidos, negará a Deus, que é Infinito e Incriado, eestá fora do espaço e do tempo. Mas Deus também está presente também no tempo e no espaço, porque é Onipresente no universo. Temos, assim, a afirmação das Doutrinas Celestes: “Depois que o mundo foi criado, Deus está no espaço sem espaço e no tempo sem tempo”. E entendemos que Deus, embora esteja presente em todos os tempos e todos os lugares possíveis, Ele não está, absolutamente, limitado por estes. Na verdade, a ideia de espaço e tempo é pertinente apenas e exclusivamente aos que estão no mundo natural, isto é, encerrados nas limitações físicas da matéria e sujeitos às rotações do globo em torno de si mesmo e em torno do sol, que dá a sensação do tempo.
É por causa desse atributo Divino, de estar no tempo sem tempo, que a Palavra fala d’Ele de um modo especial, tirando-O do tempo, como, por exemplo, na conhecida profecia:
“Porque um Menino nos nasceu, um Filho se nos deu, e o Seu nome será Maravilhoso, Conselheiro, Pai da Eternidade e Príncipe da Paz” (Isaías 9:6).
É, de fato, interessanteo conceito de que o tempo e o espaço são derivações da eternidade e da imensidade de Deus, e, não obstante, a eternidade e a imensidade nada têm de tempo ou de espaço. Para melhor esclarecermos isto, tomemos o exemplo deum escritor e o seu livro. Se analisarmos o enredo do livro, o encadeamento das ideias, a construção do texto etc., poderemos ver ali, pelo estilo, muita coisa do caráter, da inteligência e da experiência do autor. A história será como que uma imagem daquele indivíduo. No entanto, nada realmente, do indivíduo estánas folhas do papel, nem na tinta com que otexto foi impresso. Do mesmo modo, o tempo e espaço são os próprios da criação natural em que podemos ver muitas coisas da Eternidadee da Imensidade do Criador, mas nem o tempo nem o espaço estão realmente n’Ele.
“...O homem não pode pensar senão de acordo com as ideias tiradas das coisas que pertencem ao espaço e ao tempo, [por isso] ele nada pode perceber da Imensidade de Deus antes dos espaços, nem da Eternidade de Deus antes dos tempos; e mesmo quando quer perceber alguma coisa, é como se a sua mente caísse em desfalecimento”.35
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