- 2.9. Da Onipotência
Dentre os muitíssimos conceitos reformulados por Swedenborg nas matérias teológicas, tem lugar de destaque seus ensinamentos sobre a Onipotência Divina,por trazerem uma ideiainteiramente diferente da que prevalece no mundo.
Sabemos que, por causa da ideia invocada pela formação do termo “omni + potens” (todo poderoso), o mundo elaborou uma ideia bem simplista e superficial de que “Deus pode fazer todas as coisas”. E talideia simplista acha aparente confirmação na letra das Escrituras, pois, afinal de contas, lá está escrito que Deus salva, mas, também, condena. Cura, mas, também, envia a peste. Vivifica, mas, também, mata. No entanto, a doutrina genuínada Palavra ensina que não é bem assim, pois existe um limite, por assim dizer, para a operação e o poder Divinos.
Em uma definição simples, a doutrina extraída do sentido espiritual da Palavra é que a Onipotência Divina marcha dentro da esfera e da lei da Ordem. “Deus pode tudo o que for bom”. Consequentemente, Ele não pode fazer o mal, e tampouco pode fazer algum bem que resulte em mal, pois não pode agir contra a leis da Ordem que está n’Ele mesmo, pelo que Ele é chamado de a Ordem Mesma.
Esse novo conceito acerca da Onipotência propicia respostas para questões que muitas pessoas levantam sobre a operação de Deus: “Por que Deus não faz isso? Por que Deus permitiu aquilo?” E assim por diante. Em muitos casos, Ele não fez isso ou aquilo simplesmente porque não o pôde, pois só age dentro das leis da Ordem, isto é, segundo Sua essência, Seu Divino Amor e Sua Divina Sabedoria.
E o que essa Ordem determina e prescreve é o bem, que, em suma é tudo o que resulta em benefício para o ser humano em relação à sua vida na eternidade e não, necessariamente, em relação à sua vida temporal e terrena. Por isso, o poder de Deus é para fazer todoobem e nada que não seja bom para a vida eterna da criatura humana. Por isso é que Ele não pode fazer determinados “bens” que o homem pede, ou que o homem pensa que é um bem, se esses forem, de fato,prejudiciais ou não contribuírem à felicidade eterna dele. Deus sempre age tendo em vista os propósitos e fins e não os efeitos e causas imediatas.
Vejamos, portanto, alguns exemplos do que Deus não pode fazer, ainda que seja Onipotente. Ele não pode mudar a natureza do homem contra a vontade e a deliberação do homem. Ele não pode lançar ninguém no inferno, mas cada um ali mesmo se lança ali, levado por sua própria iniquidade. Ele não pode atender a orações que não visem em primeiro lugar a sanidade espiritual da pessoa. E assim por diante.
Sabemos que o sentido literal da Palavra, em ambos os Testamentos, diz que Deus tenta, castiga, fere e mata. Mas, como veremos adiante, o sentido literal foi escrito por meras correspondências e segundo as aparências do homem simples, de todas as épocas, a forma como ele poderia entender. Por exemplo, nos livros de Moisés há vários capítulos instruindo sobre como seriam os sacrifícios de animais e holocaustos e, não obstante, nos Salmos e nos Profetas se diz que Deus não pediu e não aceita holocaustos. Então, Sua permissão nem sempre é Sua vontade, mas uma necessidade, para que o homem não se afaste ainda mais, se Deus o proibir inteiramente de viver segundo seus caprichos. E, para o malfeitor, é preferível que ele pense que pode ser castigado por Deus e, pensando assim, se aproxime de Deus pela obediência, e seja salvo, do que ele não ter temor algum e se precipitar cada vez mais no inferno.
Todavia, a aplicação mais direta desse ensinamento, em relação à nossa vida espiritual, é que Deus não pode remover um mau hábito em nós se não quisermos realmente isso e se não nos esforçarmos para isso, fazendo uso de nossa liberdade e nossa racionalidade. Remover o mal da vontade do homem sem a licença do homem seria agir contra a liberdade de escolha desse indivíduo e, por conseguinte, agir contra a Ordem.
Para que algum bem espiritual seja insinuado no homem e passe a constituir o seu novo ser é absolutamente necessário que o homem aja reciprocamente com Deus, permitindo que Deus, através da Palavra, instrua seu entendimento e dê-lhe uma nova vontade, pois a vontade do homem é o seu verdadeiro ser, e a vontade nova, que Deus implanta com a cooperação ativa do homem, é o novo homem, o nascido de novo e regenerado.
Muitos oram para que Deus os transforme, mas, em seguida, não fazem esforço algum para se afastar do pecado. Se Deusignorasse a atitude negativa do homem e removesse os males do seu coração sem qualquer ação positiva da parte desse homem, o resultado dessa ação não pertenceria ao homem, mas seria uma coisa impingida pelo Criador. Quando, porém, a pessoa se constrange, se renuncia, se esforça para deixar o mal e servir a Deus e ao próximo, então ela está agindo pela vontade nova que está começando a nascer, vinda de Deus.
Uma instrução presente em muitos lugares nas obras de Swedenborg é que a salvação do homem não é um processo instantâneo, mas o resultado de uma transformação do modo de pensar e, sobretudo,do modo de agir, um processo lento que é uma nova geração espiritual operada pelo Senhor, mas com a recíproca atuação do homem. Em outras palavras, o homem tem que agir como se fosse por si mesmo, mas sabendo que é por Deus que ele assim age. Por isso é que, em toda parte na Palavra, Deus ordena que o homem deixe o mal, como se tudo fosse feito pelo homem, para que, agindo dentro dessa disposição e desse esforço humano, Deus faça essa obran’Ele. Cooperando com o Criador, o homem poderá sentir que a nova vida, de fato, lhe pertence. Assim, como em outras passagens, lemos em Isaías:
“Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos e cessai de fazer mal. Aprendei a fazer o bem; praticai o que é reto; ajudai o oprimido; fazei justiça ao órfão; tratai da causa das viúvas. Vinde, então, e argui-me, diz o SENHOR; ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a branca lã”(Isaías 1:15-19).
“Cessar de fazer o mal e aprender fazer o bem” é coisa que, realmente, não queremos no começo, mas, pela nossa determinação e prática da obediência, mesmo contrariando a vontade, Deus nos dará gradualmente um novo querer, uma nova vontade. E se tivermos o querer para o bem, Deus nos dará também o poder de fazê-lo. Assim, depois de alguns estágios e lutas na regeneração, poderemos fazer o bem pelo querer (por amor) e pelo poder que Deus nos deu, e sentiremos que o fazemos como se fôssemos nós os agentes.
Em resumo, temos uma resposta bem objetiva para a pergunta: “Se Deus é Onipotente e quer salvar o homem, porque não o salva logo?” Porque o querer d’Ele está dentro da esfera da Ordem (o Bem) e essa Ordem prevê o melhor possível para o homem; e o melhor possível para o homem é que ele seja preservado íntegro quanto à sua individualidade, liberdade, identidade etc.
E também temos a resposta para aquelas questões: “Por que Deus não impediu...?”, especialmente quando vemos notícias de desastres e tragédias; achamos que Deus poderia ter feito alguma coisa para evitá-los e não o fez. Essa espécie de suposição seria difamatória da bondade Divina, se não fosse fruto de ignorância acerca da Onipotência. Pois Ele não evitou porque não pôde. Se pudesse, certamente teria evitado. E se não pôde, foi porque Sua intervenção impedindo aqueles eventos resultaria depois em mal e não em bem. E aqui novamente temos de nos lembrar que, quando falamos em “mal” e “bem” em relação a Deus, estamos falando de “mal” e “bem” eternos. Deus tem em vista o bem eterno, e previne o mal também eterno, pois esses são infinitamente mais sérios e mais importantes; e, por causa desses, governa os acontecimentos bons e ruins terrenos, que são transitórios e relativamente nada em face da eternidade. Se, pois, Deus não pôde fazer determinada coisa foi porque um resultado diferente teria sido pior do que foi, ainda que as aparências externas digam o contrário.
Vejamos, então, o que mais nos diz Swedenborg a respeito da onipotência Divina:
“Onipotência Divina não pode, de modo algum, sair fora de Si para se por em contato com o mal, nem o repelir de Si, pois o mal se afasta por si mesmo; donde acontece que o mal é absolutamente separado de Deus e precipitado no inferno, entre o qual e o Céu, onde está Deus, existe um abismo imenso. Por estes poucos detalhes pode-se ver em que extravagância estão aqueles que pensam e, mais ainda, os que creem e, mais ainda, os que ensinam, que Deus pode danar alguém, maldizer alguém, lançar alguém no inferno, predestinar a alma de alguém à morte eterna, vingar-se de injúrias, pôr-se em cólera, punir. Mais ainda, Ele não pode sequer se afastar do homem, nem encará-lo com uma face severa. Essas coisas e outras semelhantes são contra a Essência de Deus e quem é contra Sua Essência é contra si mesmo”.
“Se a Onipotência Divina tivesse a extensão para fazer o mal como para fazer o bem, que diferença haveria dentre Deus e o diabo? Não haveria outra senão a que existe entre dois monarcas, um dos quais é rei e ao mesmo tempo tirado, e o outro tirano cuja potência foi amarrada, o que faz com que não seja chamado rei; ou entre um pastor a quem foi permitido agir como ovelha e também como leopardo e um pastor a quem isso não foi permitido. Quem não pode saber que o bem e o mal são opostos e que se Deus, pela Sua Onipotência, pudesse querer um e outro e fazer um e outro segundo esse querer, ele nada mais poderia absolutamente e não teria, por consequência, poder algum, nem, com mais forte razão, a Onipotência?...
“Se, segundo a fé de hoje, a Onipotência de Deus fosse absoluta tanto para fazer o bem como para fazer o mal, não seria possível, e mesmo não seria fácil a Deus elevar todo o inferno ao céu, mudar os diabos e satanases em anjos e purificar, em um instante, de seus pecados todo ímpio sobre a Terra, renová-lo, santificá-lo, regenerá-lo e fazer dele de um filho da cólera um filho da graça, isto é, justificá-lo, o que se faria somente pela adjudicação da justiça de Seu Filho? Mas Deus, pela Sua Onipotência, não pode isso porque isso é contra as leis de Sua Ordem no Universo e, ao mesmo tempo, contra as leis da Ordem postas em cada homem, as quais consistem em que de uma parte e de outra haja mutuamente conjunção...”46
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