- 3.1. A Palavra se Fez Carne
Podemos afirmar com segurança que o tema central de toda a teologia de Swedenborg é demonstrar que o Deus de toda eternidade, JEHOVAH,chamado Pai, Ele mesmo veio ao mundo e se revestiu de um Humano natural, chamado Filho. Ele fez isso a fim de redimir e salvar o gênero humano e, por isso, o Humano de que Ele se revestiu para efetuar tal obra foi chamado “JEHOVAH salvou”, ou, Jesus, o Cristo.
A demonstração deste ponto, feita através de dezenas de passagens confirmatórias das Escrituras Santas, tornou-se necessária em face do pensamento religioso corrente, a saber, que Deus Pai teria gerado um Filho muito antes, na eternidade, e que esse Filho convivia com Ele como outra pessoa. E que, quando foi necessário, o Filho gerado de toda eternidade se ofereceu em sacrifício, e, assim, o Pai o enviou ao mundo para resgatar a humanidade. Uma pessoa Divina, o Pai, teria ficadono céu, enquanto a outra suposta pessoa Divina, o Filho, desceu à terra.
Tal pensamento, de duas pessoas Divinas, uma gerando a outra,nunca existiu no começo da Igreja Cristã,nos três primeiros séculos. Tal ideia foi elaborada após a concepção da ideia de uma trindade de pessoas, no Concílio de Nicéia, em 325 AD. E como o sentido literal das Escrituras está repleto de aparências de verdade, por causa das correspondências, achou-se um grande número de passagens que aparentemente confirmariam a crença formulada. Um exemplo dessas passagens é o conhecido versículo 16 (e também o 17) do capítulo 3 de João:
“Porque Deus amou ao mundo de tal maneira, que deu o Seu Filho unigênito, para que todo aquele que n’Ele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus enviou o Seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por Ele”.
A fim de demonstrar que foi JEHOVAH mesmo Quem desceu e tomou o Humano, Swedenborg faz, primeiramente, uma explanação a respeito desse nome, JEHOVAH, mostrando que JEHOVAH do Antigo Testamento é o mesmo Senhor do Novo Testamento. Esta afirmação, embora aparentemente simples e óbvia, é de grande importância para o entendimento correto das Escrituras, porque existe no mundo de hoje uma confusão quanto a isto. Acredita-se hoje que JEHOVAH é o Ser anterior a Jesus, e muitos cristãos pensam em duas pessoas distintas, JEHOVAHe Jesus Cristo, sendo cada uma delas, Deus.
O fato é que o nome JEHOVAH é santíssimo, o mais santo de todos os nomes, tanto que os judeus sequer ousavam pronunciá-lo.
Depois do cativeiro, tinham os judeus tão grande respeito a este nome, que, na verdade, somente era usado, segundo algumas autoridades, pelo sumo-sacerdote, uma vez no ano, no dia da Expiação. Todavia, YHWH (que transliteramos JEHOVAH) ocorre muito frequentemente na Sagrada Escritura; e por isso, outra palavra, ADONAI (Senhor) passou a ser usada em substituição na leitura em voz alta, e foi adotada pelos tradutores em diversas línguas estrangeiras (em grego Kyrios, em latim Dominus, em português Senhor)”.47
A substituição do nome de Deus, JEHOVAH, por ADONAI ou Senhor, que começara muitos séculos antes, foi confirmada e adotada pelo próprio Senhor no Novo Testamento, como também foi empregada pelos evangelistas e apóstolos. Um exemplo disso encontramos em Deuteronômio 6:4,5, onde se lê: “Escuta Israel, JEHOVAH nosso Deus, JEHOVAH é um; amarás JEHOVAH de todo o teu coração e de toda a tua alma”. Mas, ao citar este versículo no Novo Testamento (Marcos 12:29,30), o Senhor diz: “o Senhor nosso Deus, o Senhor é um; amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração e de toda a tua alma”. Outro exemplo encontramos em Isaías 40:3: “Preparai o caminho de JEHOVAH...” Mas Lucas, ao citar este versículo, fala em “preparar o caminho para o Senhor (1:76).”Além de outras passagens. Por isso o Senhor concordou que os discípulos O chamassem de Senhor, em João 13:13:“Vós me chamais Mestre e Senhor e dizeis bem, porque Eu o sou”, ou seja, chamavam-No pelo mesmo nome pelo qual eles se referiam a JEHOVAH. Este foi o costume também depois na Igreja apostólica.
Essa substituição do nome pelo qual Deus é invocado, por não ter sido compreendida depois, fez que surgissem ideias errôneas sobre a identidade Divina, ainda que o estudo cuidadoso da própria letra das Escrituras bastasse para dissipar qualquer dúvida neste sentido. Todavia, a teologia cristã pós-Nicéia já estava impregnada da ideia de três pessoas, e qualquer estudo que se fizesse da Palavra partiria sempre da premissa falsa de três seres ou três deuses de toda eternidade.
Diante disso, uma pergunta que nos ocorre é: se a troca do nome de Deus, com o decorrer do tempo, contribuiu para gerar tal erro, por que o Senhor, não se chamou por Seu nome de sempre, o mesmo que tinha no Antigo Testamento? A resposta é que não foi só uma questão de respeito à santidade do nome. De fato, havia uma razão espiritual para isso. É que, enquanto estava no processo da glorificação, o Humano do Senhor não se tinha feito ainda completamente Divino; ainda não era a Vida em Si, pois havia no Humano elementos ou inclinações imperfeitas da hereditariedade materna que precisavam ser expelidas. A progressão neste processo fez com que o Humano assumido no mundo se tornasse cada vez mais Divino, e o Divino cada vez mais Natural, até à plenária união, após a cruz. Mas, enquanto o processo estava em andamento, não se podia dizer propriamente que aquele Humano era o mesmo que Deus e, por isso, não seria apropriado o Senhor referir-Se, nesse estágio, como Deus ou JEHOVAH. Até porque JEHOVAH significa o Divino Ser, a Essência, e o Humano não é a Essência, mas a Forma da Essência.
Este doutrinal, que JEHOVAH mesmo desceu ao mundo e se manifestou como o Senhor Jesus Cristo, é a pedra de toque que caracteriza a teologia swedenborguiana. Parece um doutrinal ousado, exagerado ou, no mínimo, estranho para muitos teólogos cristãos, porque não se costuma pensar em Jesus como Criador do universo, mas como Filho do Criador.
“Nas igrejas cristãs, hoje, crê-se que Deus Criador do Universo engendrou um filho de toda eternidade e que esse Filho desceu e tomou o Humano para redimir e salvar os homens. Mas isso é errôneo e cai por si mesmo, desde que se pense que Deus é um... quando pela palavra é demonstrado que JEHOVAHDeus mesmo desceu e se fez Homem e também Redentor”. 48
É fato que existe um número imenso de passagens da letra da Palavra que dão a entender que o Filho já existia em uma trindade Divina antes de vir ao mundo. Mas também existem passagens que ensinam que Deus é um só, e que foi Ele, o próprio Deus, que veio ao mundo e se tornou Redentor.
“Eis que a virgem conceberá e dará à luz um Filho, que será chamado Deus conosco” (Isaías 7:14; Mateus 1:22-23);
“Um menino nos nasceu, um Filho se nos deu, sobre o Seu ombro estará o principado, e será chamado Seu Nome Maravilhoso... Deus forte, Pai da eternidade, Príncipe da Paz” (Isaías 9:5 e 6);
“Será dito naquele dia: Eis nosso Deus, Aquele que temos esperado para que nos salve; este é JEHOVAH que esperávamos; saltemos e regozijemos em sua salvação”(Isaías 25:9);
“Uma voz que clama no deserto: Preparai o caminho de JEHOVAH; aplainai no ermo uma vereda para vosso Deus; e eles verão toda carne juntamente”(Isaías 40:3 e 5);
“Eis que o Senhor JEHOVAHvem como forte e Seu braço dominará por Ele; eis Sua recompensa com Ele; como Pastor apascentará Seu rebanho” (Isaías 40:10 e 11);
No princípio, era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (João 1:1, 14);
O Divino mesmo, Infinito e Eterno, entrou no espaço e no tempo, isto é, enviou-se ao mundo como Homem. Para esse propósito, Ele se revestiu de um corpo humano constituído de substâncias naturais e humanas tomadas de Maria. É esse Humano que foi chamado Filho, porque foi gerado pelo Ser mesmo da Vida, a Alma Divina, que foi relativamente o Pai daquele Humano.
Assim sendo, o Senhor Jesus é a manifestação visível e compreensível de JEHOVAHDeus. E assim foi porque o Divino é Um, e não pode ser dividido, mas pôde se fazer carne e estar no mundo para trazer a salvação. Como consequência lógica, a ideia comum de que Jesus era um Filho que Deus tinha desde a eternidade, sendo, portanto, uma segunda pessoa desde sempre, é uma ideiaque é dissipada pelos ensinamentos do próprio Senhor JEHOVAH dizendo que Ele é o Salvador e Redentor:
“Eu sou JEHOVAHteu Deus, e Deus além de Mim tu não reconhecerás; e Salvador não há senão Eu”(Oséias 13:4);
“A fim de que saiba toda carne que Eu sou JEHOVAH, teu Salvador e teu Redentor (Isaías 49:26; 40:16);
“Com misericórdia de eternidade terei compaixão de ti, assim disse teu Redentor JEHOVAH” (Isaías 44:8).
Neste ponto, os Escritosde Swedenborg trazem à discussão a necessidade de o Senhor ter de assumir o Humano a fim de operar a redenção. Realmente, esta é uma pergunta que poderíamos ter feito: Não poderia o Senhor fazer a redenção como Ele era, e de onde estava? Por que Ele teve de vir aqui e assumir um Humano através de Maria? Sendo uma obra espiritual, não poderia Ele tê-la feito em espírito, isto é, sem o Humano natural?
Antes de entrarmos no exame destas questões, devemos rever o que entendemos por “redenção”. Como isto vai ser explicado com detalhes mais adiante, aqui vamos citar apenas a seguinte definição:
“Redenção foi a subjugação dos infernos, a ordenação dos céus e, depois disso, a instauração da Igreja; Deus, por Sua Onipotência, não podia executar essas operações senão pelo Humano, do mesmo modo que ninguém pode operar coisa alguma a menos que tenha um braço - por isso o Humano de Deus é chamado na Palavra Braço de JEHOVAH (Isaías 40:10; 53:1). Do mesmo modo que ninguém pode atacar uma cidade edificada e aí destruir os templos dos ídolos senão por forças que servem de meios”. 49
Como é e como está, em Seu Divino, o Senhor não poderia se aproximar do ser humano sem o destruir, assim como o sol destruiria a vida na terra, por seu calor, se dela se aproximasse. Por isso, em Sua misericórdia, o Senhor se revestiu do mesmo elemento - uma mente natural e um corpo físico - em que estava a raça humana, a fim de poder estar presente com o homem e ser-lhe acessível.
Quando veio ao mundo, o Senhor fez, portanto, como que uma acomodação de Si mesmo, de Sua essência, a fim de poder estar presente com os homens. Já foi dito que o Senhor é o Divino Amor e a Divina Sabedoria, mas o Amor é a essência, o interior, e a Sabedoria é a substância e a forma desse amor, ou seja, o exterior. Quando se manifesta, o amor o faz por meio de uma verdade que o qualifique. O Senhor, quando desceu, foi o Divino Amor vindo e se manifestando como a Divina Sabedoria ou Divina Verdade. Por isso é que, enquanto esteve no mundo, Ele era, quanto ao Humano, a Divina Verdade –a manifestação do íntimo que estava n’Ele, o Divino Bem.Deus mesmo desceu como a Divina Verdade, ou Palavra, conforme lemos em João:
“No princípio era o Verbo [ou Palavra], e o Verbo estava com Deus, e Deus era o Verbo... E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (João 1:1 e 14).
O Senhor veio como Divino Vero (sem se separar do Divino Bem, que estava no íntimo) porque a obra de redenção, sendo uma obra de justiça e julgamento, tinha de ser feita, mormente,pela Verdade. Subjugar os infernos, ordenar os céus e instaurar uma igreja nova são atos para serem desempenhados pelaVerdade, mas a partir do Bem, tal como era o Senhor no Seu Humano. De fato, o Divino Bem, em si mesmo, é comparado ao punho arredondado de uma espada e a um arco sem flechas, mas o Divino Vero segundo o Divino Bem é comparado a uma espada aguda, um dardo acerado e um arco com flechas,“armas que são fortes contra os inimigos”. 50
O poder de que o Senhor se revestiu para operar a redenção, quando aqui esteve como a Divina Verdade segundo o Divino Bem, pode ser compreendido melhor se pensarmos num relacionamento correspondente que existe entre a boa intenção e o conhecimento. Quando alguém se propõe a cumprir determinada tarefa e tem a experiência ou o conhecimento técnico que aquela tarefa exige, a possibilidade de alcançar sucesso ou eficácia na sua obra é grande, porque a boa disposição ou intenção (o bem) está aliada à experiência, o conhecimento (a verdade). O conhecimento só, sem a boa vontade de acertar, ou a boa intenção só, sem o conhecimento, não são eficazes.
Download
Versao Impressa
Para estudo mais confortavel, adquira esta obra em formato impresso.