SW 30

A Doutrina Cristã Revelada através de Emanuel Swedenborg
Cristóvão R. Nobre
"E JEHOVAH será Rei sobre toda a terra: Nesse Dia JEHOVAH será Um e o Nome d'Ele Um." (Zc. 14:9)

- 3.2. Da Divina concepção
Então, como tema inerente ao assunto da redenção, vejamos agora as seguintes proposições: a) Deus tomou o Humano segundo a Ordem Divina; b) esse Humano é o que se chama “Filho de Deus”; c) Ele uniu-se ao Pai e se fez homem, e o Homem se fez Deus, em uma única Pessoa.
O fato de o Senhor ter vindo ao mundo segundo a Ordem é motivo de admiração ou dúvida para muitos de nós. E quando se diz “segundo a Ordem” quer-se dizer que Ele entrou no espaço e no tempo da maneira que Ele determinara na Criação para todo ser humano. Assim, quanto ao corpo natural, Ele foi, como qualquer indivíduo, concebido a partir de uma semente paterna. Todavia, a paternidade d’Ele foi Divina, pois que era a Alma mesma. O Humano foi gerado no útero de uma mãe, foi nutrido, nasceu e cresceu como todo homem, segundo a ordem.
“O menino Jesus crescia e se fortificava em espírito, e avançava em sabedoria, em idade e em graça para com Deus e os homens” (Lucas 2:40).
A única diferença nesse processo foi que a progressão com Ele foi mais rápida, mais plena e mais perfeita do que com qualquer homem.
A Ordem Divina inserida na criação determina que o homem, no gozo de sua liberdade, se prepare para aceitar os desígnios do Criador, ou os rejeite, e é da Ordem que Deus acate a escolha do homem. Deus quer ser recebido pelo homem, mas não de forma forçada e constrangida. Ele criou o ser humano para ir aos céus, mas deu ao homem a oportunidade de aceitar ou não Seus desígnios; e o homem o aceita quando se prepara para que n’Ele Deus realize esse propósito. Essa preparação para receber o Criador começa quando a pessoa adquire conhecimentos sobre Deus e, em seguida, submete-se à vontade Divina.
Quando o homem faz isto, Deus entra n’Ele como se em Sua casa ou habitáculo. E quanto mais o homem se aproxima de Deus, mais Deus se aproxima do homem e se conjunge ao homem. E é evidente que essa aproximação do homem em relação a Deus, e a de Deus em relação ao homem, não é uma aproximação física, no espaço, pois, quanto ao espaço, Deus está sempre presente com toda criatura, uma vez que Ele é onipresente. Se Deusse afastasse do homem, nem que fosse por um instante, o homem desaparecia completamente.
A aproximação de que se trata aqui é a aproximação espiritual, do entendimento e da vontade. Ela se faz pela elevação do entendimento para planos mais altos do pensamento, de justiça e retidão, convenientes à vida cristã. E é, ao mesmo tempo, uma aproximação da parte do homem, quando o homem remove o que está posto como empecilho entre ele e Deus. Lemos na Palavra:
“Eis que a mão do Senhor não está encolhida, para que não possa salvar; nem o Seu ouvido agravado, para não poder ouvir. Mas as vossas iniquidades fazem divisão entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o Seu rosto de vós, para que vos não ouça” (Isaías 59:1, 2).
Do mesmo modo, quando esteve no mundo, o Humano do Senhor se sujeitou a essa ordem, de preparar-se a si mesmo para a recepção do Divino. O Humano foi gerado de uma mulher, e por mais bendita e cheia de graça que aquela virgem tenha sido, ela tinha, não obstante, elementos poluídos da natureza humana, e essas fraquezas, que eram tendências para o mal, foram passadas geneticamente para aquele Humano gerado em seu íntimo. Não eram males em si, mas inclinações hereditárias oriundas de toda a raça humana, que se alojaram na mente externa do Humano gerado nela. Esses elementos frágeis da natureza humana viriam a ser como que obstáculos para o Divino se manifestar e habitar no Humano. A mente natural ou exterior do Senhor esteve, por conseguinte, em inteira liberdade de escolha, como se dá com todo homem, podendo franca e livremente determinar se queria ou não sujeitar-Se à Alma Divina e, por esse intermédio, submeter-se ao processo de glorificação.
Aliás, foi por causa da presença no Humano daquelas inclinações hereditárias para o mal que o Senhor foi tentado, como está representado nas tentações do deserto pelodiabo(o qual, de fato, não era um indivíduo em si, mas a personificação simbólica de todo o egoísmo infernal e humano, em oposição ao amor Divino). As inclinações hereditárias e naturais do Senhor, separadas da Essência do amor e sabedoria que estavam em Sua Alma, lhe ofereciam uma alternativa tentadora, de o Humano fazer-Se a si mesmo Deus, sem se submeter ao influxo de Sua alma, JEHOVAH. O Humano do Senhor pôde escolher, e escolheu unir-Se ao Divino. Foi desse modo que o Humano se apropriou do aspecto Divino como parte de Sua natureza, e o Divino se revestiu do Humano como Sua morada.
Ora, como esse processo livre não poderia ser feito a menos que o Senhor estivesse na mesma condição de qualquer homem quando é regenerado e conduzido pelo Espírito de Deus, por isso também Ele quis passar por um processo equivalente de sujeição e transformação, que n’Ele se chamou glorificação. Em suma, “Deus tomou o Humano segundo sua Ordem”. Donde se vê que, se Deus tivesse aparecido subitamente como Homem, já crescido, o Humano não teria se apropriado livremente do Divino e, por isso, jamais poderia ser Divino.
A segunda proposição, a saber, o Humano pelo qual Deus se enviou ao mundo é o Filho de Deus, é uma consequência lógica do que foi exposto acima. Se o Humano, no qual Ele viria ao mundo, teve de ser por Ele gerado, logo esse Humano foi Seu Filho. E que o Filho, isto é, o Humano, não existiu desde a eternidade, mas foi gerado no tempo, vemos no Salmo 2:7:
“JEHOVAHme disse: Tu és meu Filho; eu hoje te gerei”,
Onde o termo “hoje” mostra bem a Divindade entrando no tempo (e no espaço) ao gerar o Humano, pelo qual se manifestava ao mundo.
E se diz “Filho de Deus” para que fique claro que não era filho de um homem criado, o filho de José, mas do Altíssimo, gerado em uma virgem. Este assunto, da geração Divina em Maria e da concepção, é exposto também na obra de Swedenborg chamada “Doutrina do Senhor”, com abundância de confirmações do Velho e Novo Testamentos.Ali vemos com mais detalhes que, no processo da criação do indivíduo, a alma vem do pai e a mente externa e o corpo vêm da mãe, isto é, todo espiritual do homem vem deseu pai e todo material (na mente) vem da mãe.
Mesmo dentro do cristianismohá os que acreditam que o Senhor é filho de Maria e, em consequência, não podem entender como Ele pode ser ao mesmo tempo Divino. De fato, a crença de que Ele é filho de Maria e não de Deus destrói a ideia da divindade e anula tudo o que é ensinado na Palavra sobre Ele ser Um com o Pai. É por esse pensamento falso a respeito do Senhor que o naturalismo invadiu a igreja e o ateísmo invadiu o mundo, porque o Senhor acaba sendo visto como um simples homem e, por conseguinte, sem nenhum poder de iluminar as mentes, ainda menos de regenerar e salvar.
A última proposição,que Ele uniu-se ao Pai e se fez homem, e o Homem se fez Deus, em uma única Pessoa, será agora comentada.
Essa união foi recíproca, tal como a que existe entre a alma e o corpo, quando um está no outro e ambos formam um indivíduo. A reciprocidade deve existir “porque não existe união alguma ou conjunção alguma entre dois a menos que reciprocamente um se aproxime do outro”51, porque, senão houver reciprocidade, a proximidade será apenas a presença de um no outro, mas não vice-versa; há a adjunção de um, mas não do outro. Assim, adjunção ou presença é diferente de união e conjunção. Por isso é que o Senhor está presente (batendo à porta) em todo homem, mas só está conjunto (entrando e habitando) no homem que guarda os mandamentos:
“Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele e faremos n’Ele morada” (João 14:23).
Quer dizer, o Senhor, como o Divino amor (Pai) e a Divina sabedoria (Filho), habitará na vontade e no entendimento do homem que guarda a Palavra de Deus. No caso do Senhor, a união era recíproca, porque o Humano (filho) queria cumprir a vontade do Pai (alma), e o Pai O glorificava. A reciprocidade implica em que haja, de ambas as partes, desejo e esforço continuadopara que haja união. Assim, o Senhor se voltava cada mais interiormente para o Pai, que era Sua Alma, e a Alma cada vez mais se exteriorizava nos atos e nas palavras do Senhor.
Todavia, esse avanço de um aspecto para o outro não foi sempre uniforme ou retilíneo. Houve percalços, houve altos e baixos. Houve momentos em que o Humano se sentia separado e distante do Divino, e daí vinham ao Senhor os estados de tentação; e houve outras ocasiões em que a união era tão plena e efetiva que o Humano se sentia e falava como JEHOVAH. Por esses dois estados distintos o Senhor passou enquanto esteve no mundo, e eles são chamados de exinanição ou esvaziamento e glorificação. Mas esse tópico merece tratamento especial e será tratado mais adiante.
O Senhor disse: “Aquele que Me recebe, recebe aquele que Me enviou” (Mateus 10:40); disse também que, aquele que O conhece e vê, vê e conhece o Pai; que Ele e o Pai eram um, além de várias outras passagens semelhantes, em que nos mostrava que a união entre Ele e o Pai somente é compreendida quando se pensa nela como a que existe entre o corpo e a alma, portanto numa só pessoa. Qualquer outra ideia a respeito de Deus será umaideia de disjunção, separação e, por consequência, contrária àideia da divindade do Humano e da humanidade do Divino.
Ocorre um processo equivalente no homem que está sendo regenerado: seu aspecto natural se une cada vez mais ao seu aspecto espiritual ou sua mente externa à mente interna. E como a vida do Senhor está influindo de dentro, em seu espírito, em forma de caridade e fé, por isso, quanto mais o homem conforma sua vida externa com as verdades da fé e os bens da caridade insinuados em seu espírito, mais ele se torna espiritual e vivo, e assim é regenerado. Mas isto não se faz senão por meio de lutas e de uma determinação sincera de se fazer o que é justo por causa da justiça, de se falar a verdade por causa da verdade. Assim o natural e o espiritual se unem no homem e se conjuntam ao Senhor. A caridade e a fé são os elementos comuns que proporcionam todaconjunção espiritual.

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