SW 37

A Doutrina Cristã Revelada através de Emanuel Swedenborg
Cristóvão R. Nobre
"E JEHOVAH será Rei sobre toda a terra: Nesse Dia JEHOVAH será Um e o Nome d'Ele Um." (Zc. 14:9)

- 3.9. “Prossigamos em conhecer o Senhor”
No começo do ministério público de Jesus, aqueles que viriam a ser Seus discípulos estavam em completa ignorância quanto ao Seu caráter Divino, assim como também estava todo o povo judeu. Mas, quando Jesus começou a fazer milagres publicamente, curando os enfermos e livrando endemoninhados em Nazareth e outras aldeias da Galileia, o povo ficou admirado e quis identificar Aquele que fazia tais prodígios, e então formaram diversos conceitos. Quando consultamos os relatos dos Evangelhos e analisamos esses conceitos que eles fizeram acerca do Senhor, podemos perceber claramente que houve certa progressão no conhecimento que eles tiveram sobre Deus.
Que exista uma progressão no conhecimento de Deus, a própria Palavra o confirma:
“Conheçamos e prossigamos em conhecer o SENHOR: como a alva, será a sua saída; e ele a nós virá como a chuva, como chuva serôdia que rega a terra” (Oséias 6:3).
Porque a ordem natural de todas ascoisas é que elas se desenvolvam por etapas, gradativamente, inclusive na área espiritual, como também vemos nos Provérbios e na carta aos Hebreus:
“Mas a vereda dos justos é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito” (Provérbios 4:18).
“Pelo que, deixando os rudimentos da doutrina de Cristo, prossigamos até a perfeição, não lançando de novo o fundamento do arrependimento de obras mortas e de fé em Deus” (Hebreus 6:1).
Veremos que essa progressão, partindo da neutralidade do desconhecimento ou ignorância completa de quem era aquele Homem, teve duas direções: ascendente, naqueles que aceitaram sua origem Divina, e descendente, naqueles que o rejeitaram e odiaram até condená-Lo à morte.
Nosso objetivo, com isso, é motivar uma reflexão sobre esse mesmo progresso aplicado ao mundo de hoje, dentro e fora da Igreja: até onde chegamos e onde estamos em relação ao conhecimento de Deus? Pois, quando lemos nos Escritos de Swedenborg a afirmação de que Jesus é o próprio Deus, e que a trindade Divina está n’Ele, isto pode soar estranho, dependendo da situação em que nos encontramos nessa escala da progressão. Soa como absurdo para um ateu, que pensa que Jesus foi, no máximo, um judeu revolucionário, mas soa como verdade da fé para aquele que sabe que Jesus é, de algum modo, Divino e um com o Pai, mas não compreendeu, ainda, o “mistério da santíssima Trindade”.
Então, Lendo o Novo Testamento e fazendo uma compilação dos diversos conceitos que foram formulados sobre o Senhor Jesus Cristo, podemos classificá-los da seguinte maneira:
A princípio, quando Ele era desconhecido pelo povo, foi ignorado. Isto aconteceu antes do começo de Seu ministério público.
Em seguida, temos o primeiro nível de conhecimento, quando Ele foi tido como um homem comum. Foi chamado de:
* “carpinteiro”, pelos da Sua pátria;
* “filho de Maria”;
* “filho de José”;
* “Jesus de Nazaré, filho de José”, por Felipe;
* “homem”, pelos judeus que O queriam apedrejar.
(Vide Marcos 6:3; Lucas 4:22; Marcos 6:3; Lucas 3:23; João 1:45; João 10:33).
Segundo nível de conhecimento, quando Ele foi visto como um Rabi, Mestre. Foi chamado de:
* “Rabi”, por André e Natanael, pelos demais discípulos e por Nicodemos;
* “Rabi, Rabi”, por Judas;
* “Mestre”, pelos escribas e fariseus; doutores da lei, por muitos do povo e pelos discípulos.
(Vide João 1:38; 1:49; 3:2, 26; 4:31, 6:25; 9:2, 11:8; Mateus 26:25, 49, Marcos 14:45; Mateus 8:19; 10:24, 12:38; 17:24; 22:16; 22:24 etc.).
Terceiro nível de conhecimento, quando Ele foi visto como o Filho de Davi, o herdeiro real. Foi chamado de:
* “Filho de Davi”, por vários cegos, pela multidão, pela mulher cananeia e pela multidão à entrada triunfal em Jerusalém.
(Vide Mateus 9:27; 13:23; 15:22; 21:9; Marcos 10:47, Lucas 18:39).
Quarto nível de conhecimento, quando Ele foi tido como Profeta. Foi chamado de:
* “Profeta”, pelo povo;
* “Profeta de Nazaré”, pela multidão;
* “Elias”,
* “como um dos profetas”,
* “um grande Profeta” e
* “um profeta antigo ressuscitado”, pelo povo;
* “homem profeta”, pelos discípulos de Emaús;
* “o Profeta”, pelos que ouviram a voz dos céus;
* “profeta”, pelo cego curado e pela mulher samaritana, no começo da conversa com Jesus; e
* “Jeremias e João”, pelo povo.
(Vide Mateus 14:5; 21:46; João 6:14; Mateus 21:11; Marcos 6:15; Lucas 7:16; Lucas 9:8; Lucas 24:19; João 7:40; João 9:17; 4:19; Mateus 6:14).
Quinto nível de conhecimento, quando Ele foi visto como Messias, o Cristo e o Salvador. Foi chamado de:
* “Cristo, Filho do Deus vivo”, por Pedro, pelos anjos e pelos demônios;
* “Cristo de Deus”, por Pedro;
* “Messias”, pela mulher samaritana, após ter conversado com Jesus, e por outros samaritanos;
* “Cristo, Salvador do mundo”, pelos samaritanos.
(Vide Mateus 16:16; Marcos 8:29; Lucas 2:11; Lucas 4:41; Lucas 9:20; João 6:69; João 1:41; João 4:29; João 4:42).
Sexto nível de conhecimento, quando Ele foi considerado o Filho de Deus. Foi chamado de:
* “Filho de Deus”, pelos demônios e espíritos imundos, pelos discípulos no barco e pelo centurião romano, pelo anjo Gabriel, por João Batista, por Natanael e por Marta; e
* “Filho do Deus vivo”, por Pedro.
(Vide Mateus 4:3,6; 8:29; Marcos 3:11; Lucas 4:41; Mateus 14:33; 27:54; Marcos 15:39; Lucas 1:35; João 1:34; João 1:49; João 11:27; Mateus 16:16).
Sétimo e último nível de conhecimento, quando Ele foi reconhecido como o próprio Deus, que veio a mundo. Ele foi chamado de:
* “Senhor meu e Deus meu”, por Tomé;
* “o verdadeiro Deus, e a vida eterna”, por João;
* “Nele habita corporalmente toda a plenitude da Divindade”, por Paulo;
* “Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo”, por Judas.
(Vide João 20:28; I João 5:20;Col. 2:9; Judas 3,4).
Vemos que, não havia, praticamente, dificuldade alguma em se aceitar que Jesus era Mestre e Rabi (nível 2). Enquanto era considerado assim, as disputas eram somente quanto às opiniões que Ele tinha sobre as diversas questões que Lhe eram apresentadas. A maioria, se não todas as pessoas, facilmente consideraram-No Mestre e Rabi. Este reconhecimento, diga-se de passagem, podia envolver o nível anterior, ou seja, que Ele continuava sendo um homem normal, um carpinteiro de Nazaré e filho de José. Portanto, os escribas, fariseus e doutores da lei O chamavam de “Mestre” e “Rabi” porque, possivelmente, tinham como certo que Jesus não passava de um homem comum (vide João 10:33) e, depois, um impostor e agitador.
Considerá-lo como “Filho de Davi” (nível 3) não era, também, uma coisa difícil, pois as genealogias registradas provavam que Ele nascera na casa de Davi pela linhagem de Maria e, pela linhagem do suposto pai, José.
Os problemas e as disputas surgem quando se começa a considerar Jesus como Profeta (nível 4) e aumentam quando Ele é visto como o Cristo e Messias (nível 5). Porque um mestre, “rabi” e um profeta poderiam ser meramente humanos, mas o Messias já teria algo de Divino, mesmo que, como se esperava, o Messias ou Cristo fosse um homem comum, descendente de Davi (Mateus 22:42, Marcos 12:35 e Lucas 20:41); assim os escribas ensinavam, pelo que Jesus procurou mostrar que estavam errados, visto que o Messias não poderia ter um homem (Davi) como pai (Mateus 22:43-46).
Mas, como possivelmente os judeus continuaram na expectativa de um Messias terreno, por isso eles aclamaram Jesus como o “filho de Davi”, “que vinha em nome do Senhor” (Mateus 21:9), um rei terreno que fosse sacudir o domínio romano para lhes restaurar a antiga glória da nação judaica. O povo, de um modo geral, seguindo o ensinamento e a concepção dos escribas, chegou somente até esse nível de concepção sobre o Senhor: um Messias humano, filho de Davi, herdeiro legítimo do trono. E foi, muito possivelmente, porque o Senhor lhes frustrou essa expectativa, que eles, cinco dias depois dessa ruidosa aclamação triunfal, bradaram que Pilatos O crucificasse. Além disso, os judeus tinham determinado que, se alguém confessasse ser o Cristo, fosse expulso da sinagoga (João 9:22).
Todos os ataques que Jesus sofreu dos infernos foram dúvidas quanto a Ele ser o Filho de Deus. Para aceitá-lo como tal, era necessário reconhecer Sua concepção Divina, e que Ele não era, de modo algum, o filho de José, mas de Deus, ao Qual deveriam, por conseguinte, se sujeitar.
Desde as primeiras tentações relatadas, no deserto, até à última, já na cruz, Ele foi rudemente agredido por causa de Seu caráter Divino:
“E, chegando-se a Ele o tentador, disse: Se tu és o Filho de Deus, manda que estas pedras se tornem em pães” (Mateus 4:3).
“E disse-lhe: Se tu és o Filho de Deus, lança-te de aqui abaixo” (Mateus 4:6).
“E os que passavam blasfemavam dele, meneando as cabeças, dizendo...”Se és Filho de Deus, desce da cruz” (Mateus 27:39, 40).
Os demônios que Ele expulsou confessavam desde o início que Ele era o Filho de Deus (Mateus 8:29, Marcos 3:11; 5:7; João 6:69), mas faziam isso não porque quisessem exaltar a Divindade do Senhor. Ao contrário, os demônios percebiam que o processo de aceitação da Divindade de Jesus pelos fiéis devia ser gradual, à medida do amadurecimento dessa fé e em conformidade com as conclusões a que cada um chegasse, ouvindo-Lhe as palavras, vendo os Seus milagres e, sobretudo, rejeitando a doutrina dos fariseus. Diante disso, os demônios e espíritos imundos quiseram atropelar esse processo, precipitando a exposição de uma verdade para a qual o povo ainda não estava preparado. Realmente, os espíritos imundos pretendiam lançar o Senhor contra os fariseus e o próprio povo, escandalizando-os por meio de uma verdade dita fora de hora. Os demônios sabiam em que ponto haveria a maior dissensão quanto ao caráter de Jesus, e queriam o quanto antes antecipar os acontecimentos e impedir a obra Divina. Por isso Jesus ordenava sempre que eles se calassem, quando os expulsava.
A despeito de toda adversidade, alguns fiéis prosseguiram em conhecer a Jesus e foram além de O reconhecerem como Profeta, Messias e Cristo, Salvador do mundo. Reconheceram-No como Filho de Deus. Destacam-se, dentre esses, a mulher samaritana e os seus patrícios que, talvez por não estarem sob a influência e a ameaça dos fariseus judaicos, puderam, em pouquíssimo tempo, ter seus olhos abertos para essa verdade, saindo da ignorância total até a aceitação completa de que Jesus era o Cristo, Salvador do mundo.
“Disse-lhe a mulher: Senhor, vejo que és profeta. (..) Eu sei que o Messias (que se chama o Cristo) vem; quando ele vier, nos anunciará tudo. Jesus disse-lhe: Eu o sou, eu que falo contigo. (...) Deixou, pois, a mulher o seu cântaro, e foi à cidade, e disse àqueles homens: Vinde, vede um homem que me disse tudo quanto tenho feito. Porventura não é este o Cristo? E muitos mais creram n’Ele, por causa da Sua palavra. E diziam à mulher: Já não é pelo teu dito que nós cremos; porque nós mesmos o temos ouvido, e sabemos que este é verdadeiramente o Cristo, o Salvador do mundo (João 4: 19-42).
Além dos discípulos e das mulheres que O seguiram, outros, que também chegaram à concepção de que Jesus era filho de Deus foram o centurião romano e os que com ele vigiavam a crucificação, talvez porque, como os samaritanos, não estivessem sob a influência das ideias preconcebidas da doutrina dos fariseus:
“E o centurião e os que com ele guardavam a Jesus, vendo o terremoto, e as coisas que haviam sucedido, tiveram grande temor, e disseram: Verdadeiramente este era Filho de Deus” (Mateus 27:54 cf. Marcos 15:39).
Também foi assim com os discípulos, o que se pode ver especialmente por Felipe e Natanael. No começo, tiveram Jesus como Rabi e Profeta e, mais tarde, Cristo e Filho de Deus (Mateus 14:33, João 1:49, Mateus 16:16).
Nota-se que, em todas as falas registradas nos Evangelhos, eles chamavam Jesus de “Rabi” e “Mestre” mais no começo de Seu ministério e, à certa altura, provavelmente em meados desse período, praticamente deixaram de chamá-Lo assim. Judas, no entanto, sempre o chamou de Rabi e assim O chamou até o fim, na noite em que O traiu. Talvez porque realmente duvidasse do caráter Divino de Jesus e, por causa disso mesmo, não hesitou em entregá-Lo aos sacerdotes (vide Mateus 26:25, 49; Marcos 14:45).
Osoutros discípulos não ficaram estacionados naquele nível, em seu conhecimento de Deus, mas progrediram. Eles ouviram Jesus dizer que, naquele momento, eles ainda não conheciam toda a verdade, mas que, quando viesse o Consolador, este os guiaria a toda verdade, falando-lhes abertamente a respeito de Deus (João 16:13, 25). Isto se cumpriu, para eles, logo após a ressurreição de Jesus, pois naqueles dias alcançaram finalmente à concepção sublime de que Jesus, o “Homem profeta, poderoso em obras” que andara entre eles, era o PRÓPRIO DEUS!
Quando ressurgiu, Ele se apresentou aos discípulos segunda vez, no Corpo glorificado.
“Depois disse a Tomé: Põe aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos; e chega a tua mão, e põe-na no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente. E Tomé respondeu, e disse-lhe: Senhor meu, e Deus meu!” (João 20:27,28).
É muito importante notar que Jesus não repreendeu a Tomé por tê-Lo chamado de Deus! Ele o faria prontamente, se isso não fosse verdade, pois Ele não usurparia o nome e a glória Divina se Ele mesmo não fosse Deus e Pai. Assim, ao invés de corrigir Tomé, Ele o censurou por ter sido tardio em compreender essa verdade irrefutável.
João, o discípulo que na última ceia se reclinara sobre o Seu seio Divino, no seu Evangelho registrou também essa verdade dizendo que Deus, que era a Palavra, tinha-Se feito Carne e habitara no meio deles! Mais tarde, na sua Epístola, reafirmou que Jesus Cristo era o verdadeiro Deus e a vida eterna (I João 5:20).
Judas, em sua breve epístola, fez a seguinte referência:
“Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo” (3,4)
E Paulo (Colossenses, 2:8,9): resumiu essa verdade dizendo que Jesus Cristo “habita corporalmente toda a plenitude da Divindade”.
Após a Sua ressurreição e completa glorificação, a completa união das essências Humana e Divina, o Senhor falou aos discípulos como Um só Deus, o todo poderoso:
“E, chegando-se Jesus, falou-lhes, dizendo: É-me dado todo o poder no céu e na terra” (Mateus 28:18).
Alguém, pensando pela ideia cristã de hoje, poderia ser levado a interpretar essa afirmação dizendo que Deus, o Pai, transferiu à pessoa do Filho todo o poder. Porém, se fosse assim, se uma pessoa desse TODO o poder à outra, aquela que deutodo o poder não ficaria sem poder algum, reduzida a nada? O que Jesus dizia, aqui, era simplesmente que, naquele Humano, de que Ele se revestira no mundo, estava agora todo o poder de salvar, porque ali estava a Alma Divina, como em Seu Templo preparado e purificado.
E após a ascensão do Senhor aos céus, não havia mais dúvida de que Ele era Deus, visível, revelado, perfeitamente compreensível. Por isso, quando Jesus lhes ordenou que batizassem a todos os que cressem em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Mateus 28:19), eles saíram batizando... em nome de Jesus (Atos 2:38). Eles não estavam desobedecendo à sublime ordem. Era somente porque o “Nome” do Pai, do Filho e do Espírito Santo é “Jesus”, pois que Ele mesmo é Pai quanto à função de nos criar, Filho, quanto ao Humano, que nasceu da Alma, e Espírito Santo pela operação atual em nossas mentes e corações.
Quando nomes diferentes são dados a uma mesma pessoa, isto pode trazer alguma confusão a quem não a conhece, mas a pessoa em questão não deixa de ser ela mesma e muito menos se torna duas, por ter sido chamada de outro modo. Temos um exemplo disso no conhecido versículo de Isaías 9:6, que sintetiza os vários nomes de um mesmo Deus:
“Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” (Isaías 9:6).
Só aqui, sete nomes, sete atributos distintos para um só Deus: “Menino”, “Filho”, “Maravilhoso”, “Conselheiro”, “Deus Forte”, “Pai” e “Príncipe”. O “Menino” é o mesmo “Deus forte”, que é também “Pai” e “Filho”, ao mesmo tempo.

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