- 3.10. A fé da igreja cristã primitiva
Que os discípulos e apóstolos tenham chegado à concepção de que Jesus Cristo era o próprio Deus vindo ao mundo, isto se vê pelo que foi escrito por João, Judas, Paulo e outros, conforme aludido acima. Por estas e outras passagens que serão ainda citadas na sequência, conclui-se que não havia dúvida alguma, para eles, quanto à Divindade de Jesus Cristo. E quando eles saíram para ensinar a nova fé cristã, eles anunciaram a fé em Jesus Cristo como Filho de Deus, porque este era o indispensável ponto de partida. Com efeito, quando Pedro confessou que Jesus era o Filho do Deus vivo, Jesus lhe disse:
“Sobre esta pedra (a fé, e não Pedro) edificarei a minha Igreja” (Mateus 16:18).
A Igreja Cristã teve início desse ponto, e para isso os evangelhos foram escritos, como se lê:
“Jesus, pois, operou também em presença de seus discípulos muitos outros sinais, que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (João 20:31).
Mas esta fé é somente a pedra angular, que é fundamento e esquadro para toda a construção que tem de ser erguida. E essa pedra, a fé inicial que Jesus é o Filho de Deus, foi rejeitada pelos judeus e feita pedra de tropeço (Mateus 21:42-44).
Pelas cartas apostólicas e pelo livro do Apocalipse, vemos o desenvolvimento dessa fé na Igreja, porque então Jesus é apresentado como o Único Deus, ainda que com outros nomes:
“Eu fui arrebatado no Espírito no dia do Senhor, e ouvi detrás de mim uma grande voz, como de trombeta, Que dizia: Eu sou o Alfa e o Ômega, o primeiro e o derradeiro... E, virando-me, vi sete castiçais de ouro; E no meio dos sete castiçais um semelhante ao Filho do homem, vestido até aos pés de uma roupa comprida, e cingido pelos peitos com um cinto de ouro. E a sua cabeça e cabelos eram brancos como lã branca, como a neve, e os seus olhos como chama de fogo; e os seus pés, semelhantes a latão reluzente, como se tivessem sido refinados numa fornalha, e a sua voz como a voz de muitas águas. E ele tinha na sua destra sete estrelas; e da sua boca saía uma aguda espada de dois fios; e o seu rosto era como o sol, quando na sua força resplandece. E eu, quando vi, caí a seus pés como morto; e ele pôs sobre mim a sua destra, dizendo-me: Não temas; Eu sou o primeiro e o último; e o que vivo e fui morto, mas eis aqui estou vivo para todo o sempre. Amém. E tenho as chaves da morte e do inferno. (Apoc. 1:10-18).
Aquele que João tinha diante de si, Que lhe disse duas vezes que era o “Primeiro e o Último” era o Humano agora glorificado do Senhor, Jesus Cristo, cuja Alma era o Divino Ser, JEHOVAH, o mesmo que havia dito, na antiguidade, que era o Primeiro e o Último, a primeira e única pessoa de Deus. E Ele mandou que João desse essa mensagem a todas as Igrejas, representadas pelas sete igrejas nomeadas da Ásia, para que se atestasse Sua Divindade e Unidade.
Os apóstolos falavam, evidentemente, no Filho, no Pai e no Espírito Santo, mas não com referência a pessoas separadas. De fato, eles nunca mencionaram uma trindade de pessoas, porque sabiam que a Trindade era de atributos específicos de um mesmo Deus. É nesses atributos Divinos de uma Única Pessoa, que se deve pensar, quando se fala em Pai, Filho e Espírito Santo, para que a crença em Deus seja íntegra. A imagem de “Pai”, “Filho” e “Espírito Santo” são alegorias, formas pelas quais se podia entender o aspecto Criador, Redentor e Regenerador de Deus, ou, Sua Alma, Seu Humano e Sua Operação nos nossos corações e mentes.
Os judeus, a quem a carta aos Hebreus foi escrita, criam no atributo Divino chamado Pai, mas não aceitavam que o Ser Divino tinha vindo num revestimento natural, chamado Filho, para efetuar a redenção. A manifestação de Deus em carne é a concepção “Filho”, que eles não quiseram aceitar.
Em suma, a Igreja primitiva adorava o Senhor Jesus Cristo assim: a manifestação do Deus eterno, Deus que se fizera Homem, numa única pessoa, na fé simples e clara da Palavra. E foi exatamente essa crença pura que Arius começou a atacar, pregando que Jesus não podia ser Deus, pois, segundo ele, se O fosse, o mundo teria sido destruído quando Ele morreu na cruz.
Arius estava negando a Divindade de Jesus e Sua Unidade pessoal com o Pai. Mas não foi ele quem começou esses ataques. A oposição à Divindade do Senhor já havia começado no tempo mesmo dos apóstolos, pelo que foi necessário que o outro Judas escrevesse a seguinte admoestação:
“Amados, procurando eu escrever-vos com toda a diligência acerca da salvação comum, tive por necessidade escrever-vos e exortar-vos a batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos. Porque se introduziram alguns, que já antes estavam escritos para este mesmo juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de Deus, e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo. (Judas 3,4).
E também de Paulo:
“Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo; porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade (Colossenses 2:8,9).
Essas “filosofias e vãs sutilezas” contra o Evangelho prosperaram desde então, e Arius, dois séculos e meio mais tarde, seria seu mais obstinado divulgador.
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