- 4.2.3. Conjunção defé e caridade
Já vimos que a fé é, em suma, o conjunto de verdades que se adquire da Palavra. Mas sabemos, também, que a fé, por si mesma, separada da caridade (agapen, ??????), nada é.
“E ainda quetivesse [o dom] de profecia, e soubesse todos os mistérios, e toda a ciência; e ainda que tivesse toda a fé, de tal maneira que os montes transpusesse, e não tivessecaridade, nada seria”(1 Coríntios 13:2);
“E agora permanece a fé, a esperança, [e] a caridade, estas três. Porém a maior destas é a caridade” (1 Coríntios 13:13);
“Meus irmãos, que aproveita, se alguém disser que tem a fé, e não tiver as obras? Porventura pode a [tal] fé salvar? ... Assim também a fé, se não tiver as obras, em si mesma está morta” (Tiago 2:14, 17).
E, nos seus Escritos, Swedenborg afirma que a fé sem caridade não é a fé, e a caridade sem a fé não é a caridade; e uma e outra não vivem senão pelo Senhor. Ele acrescenta que a separação entre fé e caridade foi introduzida na Igreja Cristã depois que se estabeleceu a crença numa trindade de pessoas Divinas. Semelhante dissociação entre fé e caridade é um dos “filhotes monstruosos”68, como ele diz na obra Exposição Sumária, gerados do credo estabelecido em Niceia. E diz mais, categoricamente, que os apóstolos jamais conheceram nem pregaram tal separação. Isto é o que verificamos quando lemos as cartas de Paulo e os demais, mas especialmente Tiago.
Ocorre que, nas cartas de Paulo, existem algumas passagens que, sendo mal interpretadas ou tiradas de seu contexto, parecem separar da fé a caridade. Tomemos como exemplo apenas a carta de Paulo aos Gálatas, onde ele afirma que a salvação é um dom de Deus, dado pela fé no Senhor Jesus, e não por obras que o judeu pudesse praticar a fim de cumprir, por si próprio, a Lei mosaica. Lemos:
“Sabendo que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo, temos também crido em Jesus Cristo, para sermos justificados pela fé de Cristo e não pelas obras da lei, porquanto pelas obras da lei nenhuma carne será justificada” (Gálatas2:16).
“Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, sem as obras da lei” (Romanos 3:28)
Ao citarem esta passagem, muitos omitem o termo “da lei”, e citam somente“para que fôssemos justificados pela fé... e não por obras”. Ignoram, ainda, o contexto da mensagem, no qual Paulo estava dizendo que era inútil o judeu continuar a praticar os sacrifícios e os rituais representativos (as ditas “obras da lei”), porque Cristo já havia vindo e anunciado a nova Aliança. A partir de então, as obras da lei da velha dispensação, que eram os sacrifícios, as ofertas, a circuncisão, estavam abolidas, e a salvação era por meio da fé em Jesus Cristo.
Quase todos os pregadores cristãos ensinam que a salvação é pela fé e não por obras, baseados em Efésios 2:8, 9.As Doutrinas Celestes anunciadas por Swedenborg concordam com esse ponto, pois, de fato, as obras que o homem pratica e nas quais põe seu mérito só servem para sua própria glória e jactância. Essas são chamadas de “obras mortas” (Hebreus 6:1; Tiago 2:14). Todavia, essas não devem ser confundidas com outras obras, que são citadas no versículo imediatamente seguinte, Efésio 2:10:
“Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos ne-las” (Efésio 2:10).
Essas, que são boas, são associadas à caridade (Hebreus 10:24), obras que são consideradas “boas” (1 Timóteo 5:25; Tito 3:14, 1 Pedro 2:12, Tiago 2:2), que justificaram Abrahão e justifica o homem (Tiago 2:21, 24).E é pela natureza de nossas obras que seremos julgados no nosso juízo (Apocalipse 20:13 etc.).
E para que não restem mais dúvidas, basta que se leiam as cartas apostólicas com o propósito de conhecer sua mensagem principal, e não com o propósito de se confirmar uma doutrina particular, pinçando-se as passagens convenientes e ignorando tantas outras, pois uma leitura atenta das cartas apostólicas nos mostrará que elas, do princípio ao fim, ensinam a caridade ou o amor ao próximo e a santificação da vida (1 Tessalonicenses 4:3) pelo afastamento dos males como pecados contra Deus. E, evidentemente, isto é feito mediante a fé no Senhor Jesus Cristo. Vê-se, então, em toda parte da Bíblia, esse casamento essencial entre fé e caridade, que reflete a união do Amor e da Sabedoria Divinos.
53 - &4.3.3. Do credo reformado
Poucos sabem que a doutrina das igrejas evangélicas ou reformadas foi ratificada na chamada Fórmula de Concórdia, publicada em Leipzig, no ano de 1576. A respeito da fé, é dito ali que “o homem, com relação às coisas espirituais, é tão inerte como uma pedra ou um toco, podendo apenas se locomover e governar os membros a fim de se dirigir aos cultos e ouvir a Palavra”! Por essa razão – os signatários da Fórmula afirmam – a fé tem de ser insinuada no homem por Deus, e, assim também, a salvação, que vem gratuitamente sem que o homem nada possa ou precise fazer. E mais, se o homem fizer alguma obra como por si mesmo, isto invalida ou anula a fé, pois a obra é do homem e a fé é de Deus. “Esta passagem está no Livro da Igreja dos Evangélicos, chamado Fórmula de Concórdia, Edição de Leipzig, 1756, págs. 656, 658, 661, 662, 663, 671 e 673.”
No entanto, se o homem nada pudesse fazer ou contribuir para sua salvação, nada dos mandamentos e das instruções do Senhor na Palavra teria qualquer finalidade. E, mais, para que serviria a própria religião e os ensinamentos da vida cristã, se o homem pudesse ser salvo independentemente de suas ações, vida e comportamento?
Entende-se erroneamente que, sendo a salvação pela fé e pela graça, unicamente, o que o homem faz de bem não importa, porqueDeus requer somente a fé para salvá-lo. E mais: se o homem tentasse fazer algum bem, isto seria meritório e inútil.Mas vimos na instrução dos apóstolos que a salvação resulta da conjunção entre fé e obras, e não por uma ou outra, separadamente.
A verdadeé que o homem não foi criado assim, como uma pedra ou um toco, mas foi dotado de livre-arbítrio, e por isso escolhe aquilo de que quer suprir e nutrir sua vontade e seu entendimento. Portanto, ele pode, se quiser, receber o amor e a sabedoria que fluem incessantemente de Deus, e os recebe como verdade e bem, fé e a caridade, em seu entendimento e vontade.
Embora pertença ao Senhor o poder de salvar, cabe ao homem aceitare permitir que esse poderoperenele. Embora pertença ao Senhor o agir e o operar essa salvação, cabe ao homem o reagir e o cooperar. Embora pertença ao Senhor o poder de purificar e santificar, cabe ao homem se lavar, se purificar como por si mesmo, caso contrário o Senhor não teria dado uma ordem tão imperativa:
“Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos e cessai de fazer mal. Aprendei a fazer o bem; praticai o que é reto; ajudai o oprimido; fazei justiça ao órfão; tratai da causa das viúvas. Vinde, então, e argui-me, diz o SENHOR; ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a branca lã. Se quiserdes, e ouvirdes, comereis o bem desta terra. Mas, se recusardes e fordes rebeldes, sereis devorados à espada, porque a boca do SENHOR o disse” (Isaías 1:16-20).
Ao conceder o livre arbítrio, oSenhor quer preservar a identidade do homem, para que ele possa apreciar as bem-aventuranças da salvação. Para desenvolver essa identidade, o homem precisa da liberdade para assimilar o que lhe convém ou não, de bem e de verdade, ou mesmo para rejeitá-lo. Pois sem liberdade a criatura humana não tem identidade ou individualidade. Esta é a razão pela qual Deus dá ao homem a faculdade de adquirir a fé e a vida proveniente da fé, que é a caridade. Como foi visto, o homem adquire a fé dirigindo-se ao Senhor e conhecendo as verdades da Palavra.
“Entretanto, nada da fé, nada da caridade, nem coisa alguma da vida de uma e de outra, vem do homem, mas tudo vem do Senhor, só. Com efeito, lê-se que ‘um homem nada pode tomar, a menos que lhe tenha sido dado do céu’ (João 3:27). E Jesus disse: ‘Aquele que habita em Mim e Eu n’Ele, esse dá fruto, pois sem Mim nada podeis fazer’” (João 15:5). 69
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