SW 54

A Doutrina Cristã Revelada através de Emanuel Swedenborg
Cristóvão R. Nobre
"E JEHOVAH será Rei sobre toda a terra: Nesse Dia JEHOVAH será Um e o Nome d'Ele Um." (Zc. 14:9)

- 4.3.4. Caridade ou amor ao próximo
Certo doutor da lei, “querendo justificar-se a si mesmo, disse a Jesus: E quem é meu próximo?” (Lucas 10:19). Em resposta, o Senhor contou a parábola do samaritano que socorreu a vítima dos ladrões, e mostrou que, para a vítima, o próximo era o samaritano, porque “usou de misericórdia para com ele”.
Apesar da explicação esclarecedora da parábola, é comum a noção deque o próximo é qualquer um que esteja perto, pois se pensa “próximo” com relação ao espaço. E, por pensarem assim, as pessoas pensam que se deve fazer bem a qualquer um, seja bom ou mau. O problema disso é que o bem que é feito indiscriminadamente é perigoso, pois quando se faz bem aos maus, faz-se indiretamente mal aos bons. Nesse caso, o benefício deixa de ser benefício e se torna prejudicial. Por exemplo: quando um juiz deixa de punir um criminoso, seu benefício é, de fato, um mal que ele faz à sociedade. O criminoso não é o próximo que deve ser amado, pois não existem nele os sentimentos que o tornam semelhança de Deus.
Devemos nos guiar, portanto, pela resposta do Senhor na parábola, para sabermos quem é o próximo que deve ser amado, e, segundo a lição que nos é dada, o próximo é aquele que “usou de misericórdia”, isto é, que teve amor e compaixão em seu coração. A prudência cristã deve discernir entre o próximo que deve ser amado e o réprobo, que deve ser recriminado, de acordo com o Salmo 15:4, cada um segundo o bem que ele recebe do Senhor, e quanto mais recebe do Senhor, mais é o próximo.70
Segundo os ensinamentos das Doutrinas Celestes, há graus ascendentes de próximo, ou seja, o homem no singular é o próximo segundo o bem que presta, mas o homem no plural, isto é, uma sociedade menor ou maior, é o próximo em um grau acima do homem, e, por conseguinte, o bem que se faz à sociedade tem preferência e é mais importante do que ao indivíduo, porque, beneficiando-se a sociedade, beneficia-se também o indivíduo. A pátria é o próximo em um grau ainda mais alto, acima das sociedades. E o reino do Senhor é o próximo de preferência à pátria, de sorte que o benefício que se faz ao conjunto inclui, também, o benefício aos elementos desse conjunto. E vemos que essa ordem ascendente é importante, porque, se fosse o contrário, isto é, se o indivíduo fosse beneficiado de preferência à sociedade, o resultado seria o prejuízo geral e a desagregação. Finalmente, acima do reino do Senhor, o Senhor mesmo é o Próximo supremo, pois o amor a Ele acima de todas as coisas resulta no máximo benefício para a criatura humana.
“A sociedade é o próximo mais do que o homem singular, porque ela consiste de muitos. A caridade para com ela deve ser exercida do mesmo modo que para com o homem no singular, a saber, segundo a qualidade do bem que há nela, assim, para com uma sociedade de probos de modo inteiramente diferente de uma sociedade de não probos.
“A pátria é o próximo mais do que a sociedade, porque ela está no lugar dos pais, pois aí o homem nasce, é nutrido e protegido de injúrias. Deve-se beneficiar a pátria por amor segundo as suas necessidades, que visam principalmente a sua manutenção, a vida civil e a vida espiritual daqueles que ali estão. Quem ama a pátria e a beneficia de boa vontade ama o reino do Senhor na outra vida, pois ali o reino do Senhor é para ele a pátria; e quem ama o reino do Senhor ama o Senhor, porque o Senhor está em tudo em todas as coisas de Seu reino.
“A igreja é o próximo mais do que a pátria, pois quem considera a igreja considera as almas e a vida eterna dos homens que há na pátria. Por isso, quem considera a igreja pelo amor ama o próximo no grau superior, pois esse deseja e quer para os outros o céu e a felicidade da vida na eternidade.
“O reino do Senhor é o próximo num grau ainda mais superior, pois o reino do Senhor consiste de todos os que estão no bem, tanto os que estão nas terras quanto os que estão nos céus. Assim, o reino do Senhor é o bem com toda a sua qualidade num complexo. Quando este é amado, ama-se cada um que está no bem.”71
Uma vez que assim se define quem é o próximo, é preciso que se examine que tipo de caridade ou amor ao próximo se deve exercer. É uma ideia muito comum que a caridade consiste em dar aos pobres, socorrer os indigentes e outros em suas necessidades. Mas o conceito de caridade ou amor ao próximo que os Escritos ensinam é muito mais amplo que isso, podendo, contudo, se resumir assim: “caridade é fazer o que é reto em toda obra e o dever em todo ofício”.
Cada um, seja, juiz, sacerdote, comerciante ou empregado, tem os deveres que cumpre exercer em sua função e tem, sempre, duas maneiras de exercê-los: corretamente ou negligentemente. Ao juiz cabe julgar com equidade, punindo o culpado e absolvendo o inocente. Se ele faz isso, está exercendo a caridade e amando o próximo, seja o inocente que ele absolveu, seja a sociedade, da qual ele livrou da continuada ação do criminoso a quem condenou. Ao sacerdote cabe ensinar as verdades Divinas e conduzir os fiéis a viver uma vida correta, e isto por amor à verdade e não por amor a si mesmo ou às riquezas. Se ele faz isso, está amando o próximo representado em cada indivíduo e no reino do Senhor como um todo. Ao comerciante cabe negociar honestamente por amor ao comércio. Se ele faz isso sem defraudar ou enganarnas suas negociações, visando o lucro honrado e recolhendo os impostos devidos, está exercendo o amor ao próximo ou caridade no seu comércio, pois visa o bem dos concidadãos e da pátria acima de seus próprios interesses. Ao empregado cabe desempenhar os deveres de sua função com eficiência, ou seja, na qualidade e no prazo esperados dele. Se ele faz isso por amor à profissão, está exercendo a caridade.
“Quem... cumpre o dever pelo dever e faz o justo pelo justo, esse exerce a caridade.Que essas coisas pertençam ao amor para com o próximo ou caridade é porque, como foi dito acima, cada homem é o próximo, mas de modo variado. Uma sociedade menor e maior é mais o próximo, a pátria é ainda mais o próximo, o reino do Senhor ainda mais e o Senhor acima de todos. E, num sentido universal, o bem, que procede do Senhor, é o próximo e, consequentemente, também o são a sinceridade e a justiça. Por causa disso, quem faz o bem a cada um por causa do bem, e quem age sincera e justamente por causa da sinceridade e da justiça, esse ama o próximo e exerce a caridade, pois faz isso pelo amor do bem, da sinceridade e da justiça, e, daí, pelo amor dos que estão no bem, na sinceridade e na justiça.
“Aqueles que têm o amor de si e do mundo como fim não podem sequer estar na caridade, pois nem sabem o que a caridade é, e não compreendem absolutamente que querer e fazer bem ao próximo sem o fim de recompensa é o céu no homem, e que nessa afeição haja tanta felicidade quanto a dos anjos do céu, a qual é inefável. Com efeito, acreditam que, se forem privados do deleite advindo das honras e das riquezas, nenhum deleite existe mais, quando, todavia, nasce pela primeira vez o deleite celeste, que o transcende infinitamente.”72
Cumpre observar, ainda, que todas essas ações praticadas pelo homem de nada adiantam para a sua vida espiritual se em seu coração ele cultivar o egoísmo, o desprezo pelo semelhante, o desejo de vingança quando é lesado, e assim por diante, pois, se o mal estiver residindo interiormente, todas as ações externas serão hipócritas e falsas, como os atos dos fariseus aos quais o Senhor comparou a sepulcros caiados.
Sendo assim, a primeira coisa da caridade é não querer e não fazer mal ao próximo, e a segunda coisa é fazer-lhe bem. Quem se abstém de maldizer o semelhante já está lhe fazendo um bem; quem se abstém de lhe prejudicar ou lesar de qualquer modo, já está lhe fazendo a primeira coisa da caridade.
“Querer o mal e fazer o bem são em si mesmo dois opostos, pois o mal pertence ao ódio contra o próximo; e o bem pertence ao amor em relação ao próximo ou o mal é o inimigo do próximo e o bem é o amigo do próximo; estes dois não podem estar em uma única mente, isto é, o mal no homem Interno e o bem no homem Externo; se isso acontece, o bem está no homem Externo como uma chaga que um paliativo curou e cujo interior está cheio de sânie corrompida.
“Crê-se hoje que a caridade consiste unicamente em fazer o bem, que assim a primeira cousa da caridade é fazer o bem e a segunda não fazer o mal; mas é inteiramente o inverso; a primeira coisa da caridade é afastar o mal; e a segunda é fazer o bem, pois a Lei universal no mundo espiritual, por conseguinte, também no mundo natural, é que, quanto mais alguém não quer o mal, mais quer o bem;e quanto mais se afasta do inferno, de onde sobe todo mal, mais se volta para o céu, de onde vem todo bem; por consequência, também, quanto mais alguém rejeita o Diabo, mais é aceito pelo Senhor”.73

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