- 4.4.1. Novo nascimento
O diálogo de Jesus com Nicodemos é um dos mais longos registrados na Bíblia e contém o versículo que é, talvez, o preferido pelos evangelizadores:
“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3:16).
Citado isoladamente, como muitas vezes ocorre, esse versículo é empregado para mostrar que a salvação é uma questão essencialmente de crença: quem crê tem a vida eterna. Se, porém, voltarmos ao começo do diálogo, veremos que a primeira coisa que o Senhor falou a Nicodemos foi:
“Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus” (João 3:3).
Também em outras ocasiões o Senhor chamou a atenção para aimprescindível necessidade de um novo nascimento, mostrando que a salvação não é uma questão meramente de crença, mas implica, de fato, umatransformação de caráter e vida:
“Porque vos digo que, se vossa justiça não sobrepujar a dos escribas e fariseus, de maneira nenhuma entrareis no reino dos céus.”(Mateus 5:20).
“Em verdade vos digo que qualquer que não receber o reino de Deus como uma criança de maneira nenhuma entrará nele”(Marcos10:15).
A entrada no reino de Deus, ou a salvação, é o resultado desse processo indispensável de que o Senhor falou, descrito como o nascer de novo, o renunciar a si mesmo, de a própria justiça exceder a dos fariseus, de se tornar como criança. Não é algo instantâneo, pela graça imediata e pela fé sozinha, separada da vida, pois a fé separada é a fé do pensamento e da boca, e não do viver e da prática diária de amor a Deus e ao próximo.
Tampouco o novo nascimento é um processo misterioso, fruto da operação invisível do Espírito Santo, se entendermos que é uma transformação que envolve aspectos bem claros, ou seja, ouvir e entender a Palavra, refletir sobre o que a Palavra está dizendo e examinar-se à luz de seu ensinamento; reconhecer sua condição pecaminosa diante do escrutínio da Palavra, isto é, ser convencido pelo Espírito de Deus, que nos convence do “pecado, da justiça e do juízo” (João 16:8); suplicar o auxílio Divino para deixar o pecado; tomar a resolução de não mais praticá-lo; lutar com firmeza quando aquele pecado novamente surgir como tentação; vencida a luta, aprender a fazer o bem (Isaías 1:17) oposto àquele pecado; e fazer tudo isso como se fosse por sua própria iniciativa, inteligência e poder, mas sabendo, reconhecendo e confessando que tudo foi obra do Senhor, que nos concede o querer e o poder. Ora, todo esse processo, resumido na figura de “renunciar-se a si mesmo e tomar a sua cruz a cada dia” não pode deixar de ocorrer manifestamente no entendimento e na vontade do cristão. Não há como ser uma operação “misteriosa”, como afirmou R. C. Sproul74, sem que dela o homem participe ativamente, no uso de seu livre-arbítrio.
A fé apenas mostra o que a pessoa deve fazer para cumprir essas condições, mas, sozinha, a fé não as produz, porque ela pertence ao pensamento, enquantoo novo nascimento pertence à vida; e nós seremos julgados pelo que fazemos, e não pelo que cremos; será pelas nossas obras, e não pela nossa crença. 1Samuel 2:3; Salmo 28:4; Isaias 3:10; Isaias29:15; Jeremias 4:4; 7:3; 7:5; 25:14; Dn. 9:14; Oséias 4:9; Zacarias 1:4; 1:6; Mateus 16:27; Romanos 2:6; 2Coríntios 11:15; Apo. 2:2; 2:13; 2:23; 3:2; 18:6; 20:12, 13.
Isto é algo que o fiel precisa levar muito a sério, porque ninguém pode viver sua vida como bem entende, e ao mesmo tempo cumprir as condições explicitas na Palavra para a salvação. De fato, a mudança de atitude e de comportamento que se requer é tão grande, que a pessoa tem de ser formada de novo, gerada outra vez pelo Senhor, receber “um novo coração e um novo espírito”. E, para que um algo novo seja gerado, o que é velho tem de morrer:
“Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz e siga-me” (Mateus 16:24).
Quando Nicodemos ouviu Jesus falar de nascer de novo, ele, a princípio, não entendeu, e pensou que o Senhor falava de um novo nascimento físico, como alguns ainda hoje pensam, a saber, que Jesus estaria falando de reencarnação. Mas o Senhor falava do nascer do Espírito, pois “o que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito” (João 3:6).
O nascer do Espírito é o novo nascimento operado pelo Senhor mesmo através de Sua Palavra. É um processo de gestação espiritual, por assim dizer, da formação de um novo querer e um novo pensar, um coração novo e um espírito novo no homem. Mas, para isso, o que é próprio do homem deve concomitantemente morrer, numa renúncia diária, de mortificação da carnalidade e do egoísmo, pelo poder do Espírito da verdade. É um processo gradual, já que se trata de uma mudança na maneira de pensar e de agir, e, embora operado pelo Senhor, só pode ocorrer com a colaboração do homem, por causa do livre-arbítrio. Daí a instrução imperativa da Palavra, para que o homem se lave e se purifique espiritualmente, como se tudo fosse feito por ele mesmo, mas crendo que é o Senhor quem faz essa obra.
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