- 4.10. Do juízo final
“E vi os mortos, grandes e pequenos, que estavam diante do trono, e abriram-se livros; e abriu-se outro livro, que é o da vida; e osmortos foram julgados pelas coisas que estavam escritas nos livros, segundo as suas obras”(Apocalipse 20:12).
O Apocalipse e os Evangelhos, especialmente o de Mateus, são os livros em que lemos as profecias mais evidentes sobre a consumação do século. A partir daí, e de passagens como a do texto de em Lucas, além de algumas instruções dadas pelo apóstolo Paulo, é que o mundo cristão formulou a crença comum a respeito dos fins do tempo, a saber, que todo o céu visível e a terra habitável haverão de perecer no dia do Juízo Final, os mortos ressurgirão de suas sepulturas, os luminares do céu se apagarão e o Senhor aparecerá sobre as nuvens do céu. Então, todos serão julgados e receberão a recompensa ou o castigo eterno.
Há os que acreditam que, uma vez que foram salvos pela fé e pela apropriação do merecimento do Filho, estarão livres de qualquer julgamento e, assim, não passarão pelo escrutínio diante do trono de Deus, mas serão elevados aos céus.
Essa interpretação popular a respeito do Juízo Finalse deve a uma compreensão meramente literal da Palavra de Deus. Mas já vimos que no sentido literal existem muitas afirmações que não podem ser compreendidas assim, pois são afirmações escritas simbolicamente, em correspondências, de modo a servirem de base e continente para as verdades genuínas e interiores, que se acham ali encerradas.
Porém, para que todos possam saber como as coisas são e o que se deve esperar a respeito do Juízo Final, foi revelado pelo Senhor que “nem o céu visível, nem a terra habitável perecerão, mas que ambos permanecerão; e que pelo novo céu e uma nova terra se entendeuma nova igreja nos céus e na terra”88. E, também, a vinda do Senhor para fazer o Juízo não será uma vinda física, isto é, no mundo material, de forma visível ao homem, mas seráuma vinda e um julgamento espirituais, pois lemos:
“O reino de Deus não vem com aparência exterior. Nem dirão: Ei-lo aqui, ou, Ei-lo ali; porque eis que o reino de Deus está entre vós” (Lucas 17:20, 21).
Esta é, possivelmente, a revelação mais surpreendente de todos os arcanos da Palavra expostos nas obras de Swedenborg, razão pela qual nos deteremos por mais tempo a considerar o assunto.
Um dos livros de Swedenborg foi publicado em Londres, em 1758, com o seguinte título: O Juízo Final e a Babilônia Destruída, e começa com as seguintes palavras:
“O dia do juízo final não deve ser entendido como sendo o dia da destruição do mundo.”
“Isso é dito no sentido da letra da Palavra porque esse sentido é natural e está no último da ordem Divina, onde todas as coisas, em geral e em particular, têm dentro de si um sentido espiritual. Quem compreender a Palavra somente segundo o sentido da sua letra pode ser levado a várias opiniões, como ocorre no mundo cristão, onde por esse motivo há tantas heresias, cada uma delas confirmada na Palavra.
“Como, porém, ninguém tinha ainda sabido que em todas e em cada uma das coisas da Palavra há um sentido espiritual – nem mesmo o que é o sentido espiritual – os que adotam essa opinião sobre o juízo final são, por isso mesmo, desculpáveis. Contudo, saibam eles agora que o céu visível aos nossos olhos não perecerá, nem mesmo a terra habitável, mas permanecerão; e que pelo novo céu e pela nova terra é entendida uma nova igreja, tanto nos céus como nas terras.”89
Em termos gerais, um juízo ocorre sempre no fim de cada Igreja ou dispensação na terra. E o juízo é, em poucas palavras, uma separação entre os bons e os maus, entre as coisas boas e as más, entre as verdadeiras e as falsas. Assim foi no fim da Igreja adâmica,assim foi no fim da IgrejaAntiga, no dilúvio,e assim no fim da Igreja Judaica. Ao fim de cada Igreja, o Senhor instaura uma nova igreja, inaugurando uma nova dispensaçãona terra erefazendoa aliança com o homem. Assim também acontece no fim da Igreja Cristã, quando o Senhor começa a instaurar uma igreja nova e espiritual, chamada a Esposa do Cordeiro.
Quanto ao Juízo Final no plano geral, as Doutrinas Celestes nos relatam, num resumo, o seguinte:
“Como foi mostrado em um artigo especial, o juízo final não se faz nas terras, mas no mundo espiritual, onde todos estão reunidos desde o começo da criação. E, por ser assim, é impossível a qualquer homem saber quando o juízo final será feito, porque cada um espera que ele ocorra na terra, acompanhado pela mudança de todas as coisas no céu visível, na terra e no gênero humano sobre ela. “
“Para que o homem da igreja não viva, por ignorância, em tal fé, e para que aqueles que pensam sobre o Juízo final não o esperem perpetuamente (espera que resultaria enfim na perda da fé nas coisas que foram ditas no sentido da letra da Palavra); e para que assim muitos não se afastem da fé na Palavra, a mim foi facultado ver com meus olhos que o juízo final está agora cumprido; que os maus foram lançados nos infernos e os bons elevados ao céu; que, assim, todas as coisas foram repostas na ordem; e que o equilíbrio espiritual existente entre o bem e o mal – ou entre o céu e o inferno – foi restabelecido.
“Foi-me dado ver o modo como o juízo final foi feito, do início ao fim. Depois, também, como a Babilônia foi destruída; como os que se entendem pelo ‘dragão’ foram precipitados no abismo, e, ainda, como foi formado o novo céu e nele instaurada uma nova igreja, que é entendida pela ‘Nova Jerusalém’. Pude ver com os meus olhos todas essas coisas, para que eu pudesse atestá-las. Esse juízo final foi iniciado nos primeiros dias do ano precedente, 1757, e no fim desse mesmo ano foi plenamente cumprido.”90
Tais coisas foram observadas no mundo espiritual, onde Swedenborg as testemunhou e, por mandato do Senhor, as relatou e as publicou em livros, um ano mais tarde.
É perfeitamente compreensível que muitos fiquem perplexos com essas afirmações, ainda mais porque, sendo já feito um tão grande juízo, não se tenha visto imediatamente os efeitos desse ato assombroso no mundo natural. Contudo, devemos considerar que estas coisas são espirituais, processaram-se espiritualmente e, por conseguinte, seus efeitos não se notam materialmente nem imediatamente. Todavia, para o espírito humano e para o estado da Igreja na terra, houve uma diferença a partir de então e seus efeitos se notariam a médio e longo prazo. Lemos na obra Juízo Final:
“Doravante o homem da Igreja está num estado mais livre para pensar nas matérias da fé e assim nas coisas espirituais referentes ao céu, porque a liberdade espiritual lhe foi restaurada”.91
Ora, isto foi escrito e publicado em 1757. Segundo o relato desse livro, naquele ano, graças ao juízo efetuado no mundo espiritual, foi removida a infestação espiritual que enchia as mentes de escuridão, e sua influência nefasta escurecia e entorpecia também as mentes dos homens no mundo. Quando, porém, essa purgação espiritual se deu naquele mundo, o influxo Divino pôde descer livremente através do mundo espiritual e clarear as mentes dos homens, restaurando-lhes a liberdade de pensar e entender a verdade. Não achamos que é mera coincidência o fato de que, logo depois de Swedenborg dizer que “doravante o homem da Igreja estará mais livre”, floresceu o chamado Iluminismo. Outro reflexo da restauração da liberdade espiritual é que, das mais de 200 nações do mundo de hoje, 190 delas declararam sua independência depois de 1757; antes disso, somente 14 tinham-se declarado independentes do jugo de outras ou lutaram por isso.
Mas é exatamente por causa dessa mesma liberdade que os efeitos espirituais consequentes ao Juízo não se manifestam mais ostensivamente no mundo, porque, se assim fosse, seríamos constrangidos a crer e a aceitar o fato por imposição do mundo espiritual, o que seria contra a liberdade e a Ordem.
Isto, porém se refere ao juízo coletivo, porque cada um tem o seu juízo individual quando chega ao limiar da eternidade. Conforme nossas obras aqui, seremos julgados, ou para a vida, ou para a morte. É assim que entendemosesta passagem do Apocalipse:
“E vi os mortos, grandes e pequenos,que estavam diante do trono, e abriram-se livros;e abriu-se outro livro, que é o da vida; e os mortos foram julgados pelas coisas que estavam escritas nos livros, segundo as suas obras” (Apocalipse 20:12, 13).
Os “livros” abertos são os interiores da mente do homem, que se abrem quando ele entra no mundo espiritual. Ele recebe o influxo da luz e do calor espirituais. Essa luz lhe abre os interiores que são do entendimento e esse calor manifesta as afeições que são de sua vontade. Tais interiores são comparados a livros porque tudo aquilo que o homem viu, ouviu, pensou, falou, quis ou teve por intenção, fica registrado em sua memória interior. Nada, absolutamente, se perde: tudo fica gravado na memória do espírito. E como tudo isso deriva do amor ou vontade, por isso abrir o registro dessas informações é revelar a qualidade mesma do homem92. É, simplesmente, uma manifestação dos seus interiores,com a consequente associação do homem aos que lhe são semelhantes ou separação dos que lhe são dessemelhantes.
Assim, esse entendimento de o que é o juízo final exclui a ideia popular e aterrorizante de Deus como Juizrigoroso que lança as almas em uma fogueira eterna. Ele é Juiz, sim, e julga, mas faz isso pela manifestação da verdade, quando então a própria falsidade se revela e se separa, pois o mal e as falsidades é que repelem a Verdade e se precipitam para longe da ação Divina. O fato é que o Senhor não lança ninguém nos infernos; muito pelo contrário, Ele exerce uma atração amorosa num esforço de a todos atrair a Si, a todos elevar aos céus, mas o pecado do homem é o peso que impede a elevação. A força de gravidade que nos puxa para o centro da Terra é comparável à nossa resistência a nos deixarmos ser alçados aos céus pelo amor de Deus. Porque Ele continuamente nos atrai a Si, nos ergue e eleva, mas respeitando sempre a nossa livre decisão de querermos ou não ser atraídos e elevados por Ele. Por isso, se o homem desce ao inferno, é por sua escolha e vontade, não por castigo Divino.
Enquanto a pessoa estiver no mundo, ela pode e deve se submeter a “juízos” preparatórios, que são todas as oportunidades que ela tem de ouvir a Palavra, conhecer a verdade,e permitir que o Senhor, por meio de Sua Verdade, sonde o seu coração, aponte os maus intentos e conceda força para resistir a eles, banindo o mal da vida. Quando a pessoa faz isso conscientemente, fruto de um autoexame, ela está fazendo, de fato, um juízo parcial no mundo espiritual de sua mente. A luz da Verdade capacita a pessoa a ver o mal que deve ser rejeitado, um de cada vez, e o bem que deve ser aprendido e praticado, no dizer de Isaías 1. Assim vai sendo escrito o livro de sua vida.
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