- 5.1.1. O Primeiro Dia da Criação
No Princípio criou Deus o céu e a terra. E a terra era um vácuo e vazia, e [havia] escuridão sobre as faces do abismo; e o Espírito de Deus movia-se sobre as faces das águas. E disse Deus: Haja luz; e a luz foi feita. E viu Deus a luz, que [era] boa; e distinguiu Deus entre a luz e entre as trevas. E chamou Deus à luz, dia; e às trevas chamou noite. E houve tarde e houve manhã, o dia primeiro” (Gênesis 1:1-5).
O Senhor está criando de novo, continuamente, todas as coisas, para que elas existam. A criação não se restringe a uma obra grandiosa no passado, mas continua sendo feita hoje e continuará sempre, porque “a existência é a perpétua existência; a conservação é a perpétua criação”.95
Desde a antiguidade alguns filósofos têm observado que a natureza universal é uma imagem simbólica do mundo espiritual. Esta é uma verdade que havia sido do conhecimento dos sábios da antiguidade, por um tempo ficou perdida, mas agora se acha restaurada para o cristianismo, nas palavras de Swedenborg: “A natureza é um teatro representativo do reino do Senhor”. Não só a criatura humana herdou a imagem de seu Criador, mas também os seres inanimados, pois cada ser e objeto criado tem dentro de si essa imagem do Eterno.
Qualquer pessoa que reflita com racionalidade pode concluir que o relato literal da criação deve necessariamente ser apenas alegórico,não podendo servir de base estrita para estudos da ciência natural. Mas poucos sabem que esse relato é, quando visto em seu sentido espiritual, uma descrição precisa e exata da regeneração do homem. Porque, fazendo uso de tipos representativos existentes na natureza, o que de fato esse capítulo de Gênesis está descrevendo é como o homem é criado ou nasce de novo pelo Senhor, pois “Os seis dias ou tempos... são... estados sucessivos da regeneração do homem.”96
Vejamos, portanto, como o livro Arcanos Celestes explicam o relato da Criação:
“No princípio criou Deus o céu e a terra. E a terra era um vácuo e vazia, e [havia] escuridão sobre as faces do abismo; e o Espírito de Deus movia-se sobre as faces das águas”.
O termo “princípio” é o primeiro tempo, quando se inicia a nova criação do homem. O “céu” significa o homem interno e a “terra” o homem externo antes da regeneração. A “terra”, nesse período anterior à regeneração, é chamada “um vácuo” e “vazia”. O período que antecede a regeneração vai desde a época da infância até à idade adulta, quando, ou se, o homem se volta para Deus e deseja a salvação.
Nesse período anterior à regeneração, sua mente externa ou natural é chamada “terra vácua” porque nada tem de bem genuíno; e é chamada de “terra vazia” porque nada tem de verdade real. O que existe, de fato, é “escuridão e demência”, além de “ignorância quanto às coisas que são da fé no Senhor.
É dito que, então, havia “escuridão sobre as faces do abismo; e o Espírito de Deus movia-se sobre as faces das águas”. Nessa “terra vácua e vazia”, que é então a mente do homem, há ausência de bem e vero genuínos, e, em seu lugar, cobiças e falsidades do próprio humano. Antes de renunciar aos males, a mente do homem é, assim, comparada a um abismo, um profundo poço de escuridão de falsidades e uma massa confusa de cobiças.
Mas, acima de tudo está a Misericórdia de Deus. Ela é chamada aqui “Espírito”, o Espírito que se movia sobre as faces das águas. E, segundo a explicação dos Escritos, o verbo usado aqui para expressar esta ação Divina, de “mover-se”, é, na língua original, “chocar”, “como de ordinário a galinha o faz sobre os ovos”. Porque, a despeito dessa massa informe de cobiças que é o coração humano irregenerado e da escuridão densa de falsidades de que se compõe seu intelecto, a Misericórdia Divina está acima, agindo, insinuando algo de vivo e salvífico.Note-se que não é dito que o Espírito de Deus estava sobre as “faces do abismo”, mas sim, que “chocava sobre as faces das águas”; porque a Misericórdia Divina influi não nos males e falsidades do homem, mas em algum bem e verdade que ele tenha, por pouco que seja. Esse bem e essa verdade em que o Senhor influi e os quais aquece como se chocasse para lhes inspirar vida,são as afeições boas e os conhecimentos da verdade que o homem adquiriu em inocência, especialmente na infância. Eles ficam encerrados como tesouros, para que não se percam no abismo de cobiças e falsidades, e guardados por Deus para serem usados no tempo propício. Por isso as Doutrinas os chamaram de “relíquias”. Essas relíquias são representadas, aqui, pelas “faces das águas”.
Conforme a explicação do sentido interno correspondencial, o primeiro e o segundo versículos poderiam, então, ser entendidos assim: “No período que antecede a regeneração, isto é, da infância até à idade de se regenerar, Deus cria o homem interno e o homem externo. E o homem externo é desprovido de bens e verdades genuínos. Nada há senão a escuridão de falsidades sobre uma massa de cobiças. Mas a Misericórdia de Deus está acima, operando nas relíquias de afeições e verdades”.
Dizem o terceiro e o quarto versículos: “E disse Deus: Haja luz; e a luz foi feita. E viu Deus a luz, que [era] boa; e distinguiu Deus entre a luz e entre as trevas”.
O homem meramente natural ou externo nem ao menos sabe o que é o bem e a verdade. Chama de bem tudo aquilo que lhe parece agradável e é bom, isto é, favorável aos amores de seu próprio, que são os amores de si e do mundo. Ou então, como a experiência nos mostra, se é mais instruído, diz que o bem e a verdade são coisas relativas, que não existem bem e mal, nem verdade ou falsidade absolutos. Logo, para que ele seja reformado e regenerado, a primeira coisa deve ser, necessariamente, saber e crer que existe, sim, um bem real que independe de seus conceitos do que seja o bem; que existe uma Verdade absoluta e única, independentemente do que ele acredita ser a verdade ou da interpretação que possa ter dela; e que, assim, o bem e a verdade genuínos são coisas fora dele, além do alcance de sua vontade e entendimento próprio, e que bem e mal são distintos entre si como o são o vero e a falsidade. E que, enfim, só o Senhor é o Bem Mesmo e a Verdade Mesma.
Quando a pessoa admite essa verdade e adquire essa crença, nasce para ela a luz. “E disse Deus: Haja luz; e foi feita a luz”. É a iluminação que vem quando a pessoa começa a “saber que o bem e a verdade são alguma coisa superior, e começa a ver que os seus bens não são realmente bens”. Este é, pois, o primeiro estágio da nova criação do homem. Começa a existir o primeiro dia.
“E viu Deus a luz, que era boa; e distinguiu Deus entre a luz e as trevas. E o chamou Deus à luz dia; e às chamou noite. E houve tarde e houve manhã, o dia primeiro.”
É dito que a luz era boa pelo fato de ela proceder do Senhor. Começa a existir, agora, para o homem, a distinção entre “luz” e “trevas”; entre a Divina Verdade da revelação e as incertezas da ignorância e da falsidade em que se acha imerso o entendimento não reformado pela Palavra.
Na Palavra, ao Senhor são atribuídos a “luz”, o “dia” e a “manhã”, e ao homem as “trevas”, a “noite” e a “tarde”. “As trevas”, ensinam-nos os Arcanos, “são coisas que existem antes que o homem seja concebido e nasça de novo. Elas pareciam luz porque então o mal parecia o bem e a falsidade parecia verdade”.“Tarde” e “noite”, na Palavra, são o afastamento e a ausência da luz, e por isso significam, no espírito do homem, os estados em que ele está distante da verdade da fé. Ao contrário, “manhã” e “dia”, na Palavra,são a aproximação e a presença da luz, significando, portanto, o Advento do Senhor, quando então há para o homem instrução e fé.
Para que exista a primeira luz da reforma, quando o homem confessa o Senhor como única fonte de Vida, Bem e Verdade, é necessário que tenha havido antes um estado de sincera humildade diante de Deus. Como sabemos, o estado de humildade, ou, melhor dizendo, o estado de humilhação do homem, por causa de seu estado falível, é coisa necessária na confissão, não por algum capricho de Deus, nem porque Ele exija rendição do homem diante de Sua glória, mas, sim, porque é só na sincera humilhação que o indivíduo se esvazia de seu próprio, das cobiças e falsidades, e se põe assim em condição de receber as dádivas celestes de um próprio novo, isto é, uma vontade nova para o bem e um entendimento reformado pelasverdades.
“E houve tarde, e houve manhã, o dia primeiro”. Aqui, o termo “tarde' precede a “manhã”. Seria, talvez, de se esperar que fosse dito: “e houve manhã e houve tarde”, mas não: a ordem é esta mesma; pois nada na letra da Palavra é em vão e sem um significado. Se a “tarde” precede é porque “é um tempo de sombra, ou um estado de falsidade e de ausência de fé. “Na regeneração, a sombra da dúvida, quando há afeição de saber, gera a instrução e a luz, a “manhã”. Porque “manhã” é “todo estado seguinte, pois é um tempo de luz, ou um estado da verdade e de conhecimento da fé”. Por isso é dito: “E houve tarde, e houve manhã, o dia primeiro”.
E assim se completa o primeiro estágio da criação do novo homem. O Senhor, pela ação de Sua misericórdia, o fez progredir, de massa confusa e escura de cobiças para um estado de luz, compreensão e fé. É apenas o início do processo, o primeiro dos sete dias da criação, mas já é o primeiro estado; a sua regeneração se inicia. Como lemos em nossa lição, a maioria das pessoas hoje vem somente a este primeiro estado. Mas se a regeneração foi iniciada nesta vida, ela poderá prosseguir e se desenvolver nos céus. Parece pouco e insuficiente este primeiro estágio. Parece que a fé ainda é pouca.Se, todavia, ela tiver sido bastante para abrir a visão da pessoa e fazê-la mudar o rumo de sua vontade, voltando-a para uma vida de acordo com os Mandamentos Divinos, ela será uma fé salvífica, por pequena que seja a luz do primeiro dia. Ela crescerá como a semente de mostarda da Parábola, que, de uma pequena semente, cresce até se tornar uma árvore “e os pássaros do céu vêm abrigar-se em seus galhos”.
Eis aqui, pois, um ligeiro sumário desta primeira parte do capítulo 1 dos “Arcanos Celestes”. Por aí podemos ver como a abertura do sentido espiritual faz a letra da Palavra ser uma carta aberta, uma mensagem que pode ser lida e perfeitamente compreendida, dizendo e mostrando como o universo criado de fato espelha o plano espiritual, o reino do Senhor nos céus e no íntimo de cada pessoa de Sua Igreja.
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