- 5.1.2. Três características do amor
“Mas a mulher, cujo filho era o vivo, falou ao rei (porque as suas entranhas se lhe enterneceram por seu filho), e disse: Ah! senhor meu, dai-lhe o menino vivo, e de modo nenhum o mateis. Porém a outra dizia: Nem teu nem meu seja; dividi-o” (1 Re. 3:26).
O versículo acima nos convida a refletir sobre as três características de um verdadeiro amor, que é uma imagem do amor de Deus.
A obra Verdadeira Religião Cristã nos ensina que o amor Divino tem três essenciais, conforme já tivemos oportunidade de examinar aqui, a saber, amar os outros fora de si, querer ser um com eles e fazê-los felizes por si. Esses três essenciais formam uma unidade indissolúvel, como os três lados de um triângulo, e todo relacionamento de afeto humano, para ser verdadeiro, tem de necessariamente ter essas mesmas características. Assim deve ser com o amor conjugal, o amor aos filhos, o amor mútuo entre amigos e companheiros de trabalho, a amizade e todo relacionamento são, em geral. No ser humano, essas três faculdades do amor se manifestam como altruísmo, comunhão, e benefício.
No amor Divino o primeiro essencial, amar os outros fora de si, se realiza e se mostra pelo amor que Deus tem para com todo o gênero humano, que está fora d’Ele; Deus criou o homem a fim de ser receptáculo do Divino amor. O segundo essencial, querer ser um com eles, se realiza e se mostra pelo fato de Deus ter criado um céu e para lá ter destinado toda criatura humana que o aceita, porque nesse céu o homem pode estar em conjunção ou comunhão com Ele, o Criador. E o terceiro, torná-los felizes por si, se mostra e se realiza pela vida eterna, a felicidade, que Deus concede ao homem experimentar (vide VRC 43). Assim, a existência feliz do ser humano nos céus é a realização do amor de Deus.
Como acontece com toda a criação, que leva uma marca de seu Autor Divino, uma imagem ou um simulacro desses essenciais do amor de Deus está presente em todo amor instintivo do ser humano e do animal irracional, que ama a sua prole, que está fora dela, defendendo-a; mantém-na junto de si, amparando-a, enquanto ela precisa de proteção; e faz-lhe benefícios, alimentando-a.
No ser humano, porém, essa imagem natural do amor é corrompida pela preponderância do egoísmo, porque, de fato, mesmo num relacionamento egoísta e possessivo também podem existir, em aparência, dois desses essenciais do verdadeiro amor: amor a outrem fora de si e desejar estar junto à pessoa amada. Se esse amor parece verdadeiro é porque os dois primeiros essenciais estão ali. No entanto, quem observar mais detidamente esse relacionamento verá que falta o terceiro essencial: o ‘fazê-los felizes por si’. Porque, se há egoísmo, o fim que se tem em vista é a autossatisfação, o benefício próprio. E, se se leva em conta a felicidade do outro, será condicional à obtenção, ao mesmo tempo, da própria felicidade.
Todavia, para tornar mais claro esse assunto, vejamos o texto que lemos da Palavra, sobre o julgamento de Salomão, porque ali essas três características do amor estão bem evidentes.
Lemos que
“vieram duas mulheres prostitutas ao rei [Salomão], e se puseram perante ele. E disse-lhe uma das mulheres: Ah! senhor meu, eu e esta mulher moramos numa casa; e tive um filho, estando com ela naquela casa. E sucedeu que, ao terceiro dia, depois do meu parto, teve um filho também esta mulher; estávamos juntas; nenhum estranho estava conosco na casa; somente nós duas naquela casa. E de noite morreu o filho desta mulher, porquanto se deitara sobre ele. E levantou-se à meia noite, e tirou o meu filho do meu lado, enquanto dormia a tua serva, e o deitou no seu seio; e a seu filho morto deitou no meu seio. E, levantando-me eu pela manhã, para dar de mamar a meu filho, eis que estava morto; mas, atentando pela manhã para ele, eis que não era meu filho, que eu havia tido. Então disse à outra mulher: Não, mas o vivo é meu filho, e teu filho o morto. Porém esta disse: Não, por certo, o morto é teu filho, e meu filho o vivo. Assim falaram perante o rei. Então disse o rei: Esta diz: Este que vive é meu filho, e teu filho o morto; e esta outra diz: Não, por certo, o morto é teu filho e meu filho o vivo. Disse mais o rei: Trazei-me uma espada. E trouxeram uma espada diante do rei. E disse o rei: Dividi em duas partes o menino vivo; e dai metade a uma, e metade a outra. Mas a mulher, cujo filho era o vivo, falou ao rei (porque as suas entranhas se lhe enterneceram por seu filho), e disse: Ah! senhor meu, dai-lhe o menino vivo, e de modo nenhum o mateis. Porém a outra dizia: Nem teu nem meu seja; dividi-o. Então respondeu o rei, e disse: Dai a esta o menino vivo, e de maneira nenhuma o mateis, porque esta é sua mãe. E todo o Israel ouviu o juízo que havia dado o rei, e temeu ao rei; porque viram que havia nele a sabedoria de Deus, para fazer justiça”.
Segundo as aparências externas, as duas mulheres tinham amor pelo filho, que estava fora delas. Mas, como não se pode conhecer o interior das pessoas, não era possível, só pela observação externa, dizer qual delas tinha amor egoístico e qual tinha o altruístico, porquanto ambas demonstravam ter, pelo menos em aparência, uma imagem do primeiro essencial do verdadeiro amor, amar os outros fora de si.
Em segundo lugar, ambas as mulheres queriam ter a criança junto de si e por isso estavam diante do rei. Assim, ambas tinham, também em aparência, uma imagem do segundo essencial, querer ser um com eles, e o desejo de uma poderia ser tão forte quanto o da outra.
Notemos, por conseguinte, que essas duas primeiras características do amor não se mostram nos externos tais quais são nos internos. Tanto uma pessoa boa quanto uma má amam seus filhos e os querem junto de si. Na aparência externa, um indivíduo perverso, avarento e mesquinho pode amar os outros e querer estar junto deles, do mesmo modo que um indivíduo probo e honesto, de sorte que não se pode dizer, apenas pela aparência, qual é bom e qual é mau.
Mas Salomão tinha sabedoria tal como nenhum homem jamais teve. E o que ele fez foi procurar despertar nas mães o terceiro essencial do amor verdadeiro, que é inconfundível, pois se manifesta nos atos tal como é nos internos, e é um essencial que não existe ao amor egoístico: fazê-los felizes por si. Ele sabia que, quem ama verdadeiramente, quer, acima de qualquer interesse pessoal, o bem da pessoa amada, mesmo renunciando ao próprio bem.
Ao tomar da espada, ameaçando dividir a criança, ele fez brotar no coração da mãe verdadeira, o zelo do amor, (“porque as suas entranhas se lhe enterneceram por seu filho”), “e disse: Ah! senhor meu, dai-lhe o menino vivo, e de modo nenhum o mateis”.
A mãe verdadeira preferia antes sacrificar algo que era seu, por direito, privar-se da companhia de seu filho, deixando-o com a outra, a vê-lo morto. Queria-o vivo e feliz, mesmo longe dela, mesmo que sofresse vendo-o com a outra. Essa outra, porém, dizia, “Nem teu nem meu seja; dividi-o”, com o que revelava, cruelmente, toda a maldade que jaz oculta no amor egoístico, no amor que só parece verdadeiro enquanto seu objetivo não é contrariado, pois então, não sendo correspondido ou satisfeito, se manifesta em igual medida em ódio e crueldade.
Eis, então, amigos, o terceiro essencial que discerne o amor verdadeiro: “Fazê-los felizes por si”. Significa desejar sempre que a outra pessoa amada seja feliz, e contribuir para que isso aconteça, mesmo a custo da própria felicidade e, até, da própria vida. O terceiro essencial manifesta o fim ou propósito do amor, que é ver o bem do próximo, e não, necessariamente, o seu próprio bem.
Conquanto se possa fingir e simular os dois primeiros essenciais, isto é, o altruísmo e a convivência, é muito difícil, para não dizer impossível, fingir e simular a abnegação e auto renúncia em favor do próximo.
Este terceiro essencial, “fazê-los felizes por si” não pode ser simulado, sobretudo por causa de dois motivos. Primeiro, porque requer atividade externa do uso, do benefício, do servir. Fazer alguém feliz implica em trabalho, em ação, em dedicação a algum uso em prol desse alguém. Segundo, porque, para isso, há que se renunciar ao amor a si mesmo acima de tudo. Num amor que é falso, só de aparência, quando não há retorno ou satisfação, a inimizade e o ódio logo se mostram, porque o amor era, de fato, amor de si, egoísmo. Mas o amor verdadeiro, mesmo que não haja retribuição ou reciprocidade, continua sendo amor. O bem do semelhante continua sendo o fim que se tem em vista.
Ora, como a existência do terceiro essencial implica na renúncia ou superação do egoísmo, e isto só é possível quando há novo nascimento, que é renunciar a si mesmo, tomar a sua cruz e ir após o Senhor, por isso, o terceiro essencial só existe quando o homem está sendo regenerado.
Os Escritos realçam bem nitidamente a diferença entre o amor verdadeiro e o amor egoístico, chamando-o de amor de si, conforme lemos na mesma obra:
“(...) O Amor de si consiste em não querer bem senão a si mesmo, e a não o querer aos outros, mesmo à igreja, à pátria, a uma sociedade humana e ao concidadão, senão em relação a si. (...) O homem está no amor de si quando nas coisas que pensa e que faz não considera o próximo, nem o público, ainda menos o Senhor, mas não vê senão ele mesmo e os seus; por consequência, quando faz todas as coisas para si mesmo e para os seus, e também quando faz alguma coisa para o público unicamente para se fazer ver, e para o próximo unicamente a fim de que este lhe seja favorável”.97
Refletindo sobre essa passagem das duas mulheres julgadas por Salomão e esses ensinamentos sobre os essenciais do verdadeiro amor, convém indagarmos: em que sentido essa instrução se aplica diretamente a nossas vidas? No sentido de que precisamos, frequentemente, nos examinar e meditar sobre os propósitos que temos em vista em todo relacionamento nosso com as pessoas. O que buscamos em nosso amor para com os outros? Buscamos recompensa de nossos atos? Retorno da afeição que a elas dedicamos? Ou visamos vantagens pessoais nas amizades que temos? E quando a reciprocidade faltar, que espécie de sentimento teremos para com aquela pessoa? Nosso amor se transforma e muda em ressentimento se não for reconhecido ou recompensado? O que buscamos, afinal, nas pessoas? Nosso benefício próprio ou a oportunidade de lhes prestarmos usos? Em suma, que fim temos em vista quando fazemos ou deixamos de fazer algo às pessoas?
Estas são perguntas que devemos nos fazer habitualmente a respeito de todos os relacionamentos de nossas vidas, tomando como gabarito de avaliação as três características essenciais do amor verdadeiro: amar os outros fora de si; querer ser um com eles; e fazê-los felizes por si. Com todas as pessoas que amamos, são três coisas que farão nosso amor verdadeiro: altruísmo, comunhão e benefício. Porém o benefício, com a renúncia de si mesmo, é que fará o altruísmo ser verdadeiro e a comunhão prazerosa.
Se quisermos ter amor verdadeiro ao próximo, as Doutrinas Celestes nos ensinam os meios. O amor verdadeiramente cristão tem o bem do próximo como o fim em vista. E quem ama o bem do próximo, ama realmente ao Senhor, o único Autor e origem do Bem em toda criatura humana.
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