- Em nossos dias aqueles que ocupam o primeiro plano na Igreja descrevem de modo inteiramente diferente a Justiça do Senhor; e além disso, por sua inscrição no homem fazem sua fé salvífica, quando entretanto a verdade é que a Justiça do Senhor, sendo tal, vindo dai e sendo, em si mesma, puramente Divina, não pode ser conjunta a homem algum, nem por conseqüência, produzir salvação alguma, mais do que a Vida Divina, que é o Divino Amor e a Divina Sabedoria; o Senhor entra em cada homem com êste Amor e esta Sabedoria, todavia se o homem não vive segundo a Ordem, esta Vida aí está, na verdade, mas nada serve absolutamente para a salvação. Dá somente a faculdade de compreender o vero e de fazer o bem. Viver segundo a Ordem é viver segundo os preceitos de Deus; e quando um homem vive e age assim, adquire a justiça; não a justiça da redenção do Senhor, mas o Senhor mesmo como Justiça; são esses que são entendidos por estas palavras: "Se vossa justiça não ultrapassa a dos Escribas e Fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus" (Mateus V, 20). "Bem-aventurados aqueles que são perseguidos por causa da Justiça, porque dêles é o Reino dos Céus" (Mateus V, 10). "Na consumação dos séculos sairão os Anjos e separarão os maus do meio dos Justos" (Mateus XIII, 49); e em outros lugares: pelos Justos na Palavra são entendidos aqueles que viveram segundo a Ordem Divina, pois que a Ordem Divina é a Justiça. A Justiça mesma em que se tornou o Senhor pelos atos da Redenção, não pode ser atribuída, inscrita, adaptada nem conjunta ao homem, senão como a luz ao olho, o som ao ouvido, a vontade aos músculos daquele que age, o pensamento aos lábios daquele! que fala, o ar ao pulmão que respira, o calor ao sangue, e assim de resto; que estas cousas influem e se adjuntam em vez de se conjuntarem, cada um pode perceber por si mesmo. Mas a justiça é adquirida tanto quanto o homem exerce a Justiça e esta, tanto quanto age em relação ao próximo segundo o amor do justo e do vero; no homem mesmo, ou no uso mesmo que ele faz, habita a justiça; com efeito, o Senhor disse que toda árvore é conhecida por seus frutos; qual é o homem que não conhece um outro homem por suas obras, se examina atentamente com que fim e em que desígnio da vontade, por qual intenção e por quais causas elas são feitas? Todos os Anjos e todos os sábios em nosso Mundo se entregam a êste exame; em geral, toda erva e todo germe saindo da terra é conhecido pela sua flor e sua semente; tudo, enfim, é conhecido pela sua espécie ou qualidade, como sejam, a pedra, o campo, o alimento, o animal da terra e todo pássaro do Céu. Por que, então, o homem não o seria nas mesmas condições? Porém, quanto à qualidade das obras do homem, donde vem, isso será desvendado no Capítulo sobre a Fé.
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