VRC &111

A Verdadeira Religião Cristã
Emanuel Swedenborg
Contendo toda a teologia da Nova Igreja

- Segundo Memorável. No Mundo natural o homem tem uma dupla linguagem porque tem um duplo pensamento, o pensamento Externo e o pensamento Interno; pois o homem pode falar segundo o pensamento interno e ao mesmo segundo o externo, e pode falar segundo o pensamento externo e não segundo o interno, e mesmo contra o interno, dai as dissimulações, as à bajulações, e as hipocrisias; mas no Mundo Espiritual o homem não tem uma dupla linguagem, a sua linguagem é simples; lá êle fala com-c, pensa, de outro modo o som é estridente e fere os ouvidos, mas entretanto êle pode se, calar e assim não divulgar o que a sua mente pensa; quando portanto um hipócrita chega entre os sábios ou se retira ou se coloca em um ângulo do apartamento, não se faz notar e se assenta sem dizer uma palavra. Um dia, no Mundo dos Espíritos, vários estavam reunidos e falavam entre si sobre este assunto, dizendo, que não poder-se falar senão como se pensa, isso é duro, na companhia dos bons, para aquêles que não pensaram justo sobre Deus e sobre o Senhor. No meio dos espíritos reunidos se achavam Reformados e vários dentre o Clero; e perto dêles, Católicos-Romanos com monges; e uns e outros disseram a principio que isso não é duro; que necessidade há de falar diferentemente do que se pensa? e se por ventura não se pensa justo, não se pode cerrar os lábios e guardar silêncio? E um Eclesiástico disse: Quem é que não pensa justo sobre Deus e sobre o Senhor? Mas alguns dos que formavam a assembléia disseram: Façamos sobre êles um ensaio; e disseram aos que se tinham confirmado sobre Deus na Trindade de Pessoas, para pronunciar segundo o pensamento Um Só Deus; mas não o puderam, imprimiram a seus lábios vários movimentos violentos e os curvaram de várias maneiras, sem poder articular um som em outras palavras que não fossem conformes com as idéias de seu pensamento, as quais eram por três Pessoas e por conseguinte por três Deuses. Em seguida, foi dito aos que haviam confirmado a Fé separada da Caridade, para pronunciar Jesus, mas não puderam, entretanto puderam dizer Christo, e também Deus Pai; admiraram-se disso, procuraram a sua causa e acharam que era porque, orando, se tinham dirigido a Deus Pai para que tivesse consideração por êles por causa do Filho; e não se tinham dirigido ao Salvador mesmo; e Jesus significa Salvador. Depois lhes foi dito para pronunciar DIVINO HUMANO, segundo o pensamento que tinham do Humano do Senhor; mas nenhum dentre os Eclesiásticos que estavam presentes o pôde; todavia alguns dos Leigos o puderam; por isto êste assunto foi submetido a um exame sério; e ;então, I. Leu-se diante dêles estas passagens dos Evangelistas: "0 Pai deu tôdas as coisas na mão do Filho" (João II, 35); "0 Pai deu ao Filho poder sobre toda carne" (João XVII, 2). "Tôdas as cousas Me foram entregues pelo Pai" (Mateus XI, 27). "Todo poder me foi dado no Céu e sobre a Terra" (Mateus XXVIII, 18); e lhes disseram: De acordo com estas passagens fixai em vosso pensamento que o Christo, não somente quanto a Seu Divino, mas ainda quanto ao Seu Humano, é o Deus do Céu e da Terra, e assim pronunciai DIVINO HUMANO; mas jamais o puderam; e disseram que, na verdade, sobre isso retinham alguma cousa do pensamento segundo o entendimento, mas entretanto nada do reconhecimento e que, por conseqüência, não o podiam. II. Em seguida leu-se diante dêles, segundo Lucas 1, 32, 34, 35 que o Senhor quanto ao Humano era Filho de Jehovah Deus e que aí é chamado Filho do Altíssimo e por toda parte Filho de Deus e também o Unigênito; e lhes pediram para manter isso no pensamento; e também que o Filho Unigênito de Deus nascido no Mundo não pode deixar de ser Deus como o Pai é Deus e para pronunciar DIVINO HUMANO; mas êles disseram: Não podemos, porque nosso pensamento espiritual, que é interior, não admite no pensamento mais próximo da linguagem outras idéias senão as que são semelhantes às suas; e ajuntaram que por isso percebiam que agora não lhes era permitido dividir seus pensamentos como no Mundo natural. III. Depois leu-se diante deles as palavras do Senhor a Filipe: Tilipe disse: Senhor, mostranos o Pai. E o Senhor disse: Quem me vê, vê o Pai; não crês que Eu (estou) no Pai, e que o Pai (está) em Mim" (João XIV, 8 a 11); e também estas outras passagens, que o Pai e Êle são um, por exemplo, em João X, 30; e lhes disseram para reter isso no pensamento e assim pronunciar DIVINO HUMANO; mas este pensamento não estava enraizado no reconhecimento de que o Senhor era Deus também quanto ao Humano, torceram com esforço os lábios até se indignarem ;e quiseram constranger a boca a pronunciar, mas seus esforços foram inúteis por que as idéias do pensamento, que decorrem do reconhecimento, fazem um com as palavras da linguagem naqueles que estão no Mundo Espiritual; e. lá onde estas idéias não estão, as palavras faltam, pois as idéias tornam-se palavras na linguagem. IV. Além disso, leuse diante dêles estas expressões tiradas da Doutrina recebida em todo Mundo Christão, "que o Divino e o Humano no Senhor não são dois, mas um; e mesmo em uma única pessoa, unidos como a alma e, o corpo no homem", isto é extraído da Fé simbólica de Atanásio e reconhecida pelos Concílios; e lhes disseram: Por aí podeis, segundo o reconhecimento, ter a idéia de que o Humano do Senhor é Divino porque Sua Alma é Divina, pois isso é tirado da doutrina de vossa Igreja, doutrina que. haveis recenhecido no Mundo; de mais, a Alma é a essência mesma do homem e o corpo é a sua forma; e a essência e a forma fazem um como o ser e o existir; e como a causa eficiente do efeito e a efeito mesmo, êles retiveram esta idéia e quiseram segundo ela, pronunciar DIVINO HUMANO, mas não puderam, pois a idéia interior sobre o Humano do Senhor expulsou e apagou esta nova. idéia emprestada, como a chamavam. V. Leu-se ainda diante deles em João, esta passagem: "A Palavra estava em Deus e Deus era a Palavra; e a Palavra se fêz Carne" (I, 1 e 14); e tam-bém esta: "Jesus Christo é o verdadeiro Deus e a Vida eterna!' (I, Epist. 5, 21); e em Paulo: "Em Jesus Christo habita corporalmente toda a plenitude da Divindade" (Coloss. 2, 9); e lhes disseram para pensar semelhantemente, a saber, que Deus que era a Palavra foi feito Homem; que êle era o verdadeiro Deus; e que toda a plenitude da Divindade habita corporalmente n'Ele; e eles fizeram assim, mas unicamente no pensamento externo, por isso não puderam por causa da resistência do pensamento interno, pronunciar DIVINO HUMANO, dizendo abertamente que não podiam ter a idéia do Divino Humano, pois Deus é Deus e o homem é homem; e acrescentaram: Deus é Espírito e nós não podemos pensar em um espírito senão como um Vento ou um Éter. VI. Enfim, lhes disseram: Sabeis que o Senhor disse: Permanece! em Mim e Eu em vós; aquêle que permanece em Mim e Eu nêle, esse dá muito fruto porque sem Mim nada podeis fazer" (João XV, 4, 5); e como havia lá alguns Eclesiásticos ingleses, leu-se diante dêles êste extrato de uma de suas orações para a Santa comunhão: "Pois, quando comemos espiritualmente a Carne de Christo e bebemos Seu sangue, habitamos em Christo e Christo em nós". Se agora pensais que isto não é possível, a menos que -o Humano do Senhor seja Divino, pronunciai, pois, DIVINO HUMANO segundo o reconhecimento no pensamento; mas não o puderam jamais, pois nêles estava profundamente impressa a Idéia de que o Divino não podia ser Humano, nem o Humano ser Divino; e que o Divino do Senhor vinha do Divino do Filho de toda a eternidade e que Seu Humano era semelhante ao humano ,de um outro homem; mas lhe disseram: Como podeis pensar assim? será que uma Mente racional pode jamais pensar que haja um Filho de Deus nascido de toda a eternidade? VII. Depois disso, os que faziam as perguntas se voltaram para os Eclesiásticos, dizendo: que a Confissão de Augsbourg e Lutero ensinaram que o Filho de Deus e o Filho do Homem são no Christo uma única Pessoa; que Êle mesmo é também, quanto à Natureza Humana, Onipotente e Onipresente; que Éle está assentado, quanto a esta natureza à direita de Deus Pai e governa tudo nos Céus e sobre a Terra, enche tudo, está conosco, habita e opera em nós; que não há diferença de adoração porque pela Natureza que é vista, a Divindade que não é vista, é adorada; e que no Christo Deus é Homem e o Homem é deus. Tendo ouvido estas citações responderam: Será que isso é assim? Olharam em torno deles e, em seguida, disseram: Jamais anteriormente tivemos conhecimento disso, eis por que não podemos pronunciar DIVINO HUMANO; entretanto, um ou dois disseram: Nós o havemos lido e o havemos escrito, mas não obstante quando pensamos nisso em nós mesmos, isso não era mais que palavras de que não tí-nhamos idéia interior. VIII. Enfim, tendo se voltado para os Católicos-Romanos, disseram: Vós, sem dúvida, podeis pronunciar DIVINO HUMANO porque crêdes que em vossa Eucaristia, -o Christo está inteiro no Pão e no Vinho e em cada parte do Pão e do Vinho e que, por isso, 0 adorais como Deus Santíssimo, quando mostrais as hóstias e as levais em procissão; e além disso, como chamais Maria Mãe de Deus (Deipara, Dei genitrix), vós reconheceis por conseqüência que ela engendrou. Deus, isto é, o Divino Humano; e então, êstes quiseram pronunciá-lo, mas porque sobreveio nesse momento a idéia material do Corpo e do Sangue do Christo; e também a fé de que Seu Humano deve ser separado de Seu Divino e que, na realidade, foi separado no Papa, a quem foi transferido somente Seu poder Humano e não Seu poder Divino, êles não puderam pronunciá-lo; e -então um Monge se levantou e disse que podia pensar no Divino Humano a respeito da Santíssima Virgem Maria e também a respeito do Santo do seu Mosteiro; e um outro Monge se aproximou dizendo: Eu, segundo a idéia do meu pensamento, que abraço agora, posso pronunciar Divino Humano a respeito do Santíssimo Pontífice mais do que a respeito do Christo; mas então alguns dos Católicos-Romanos o retiraram para trás e lhe disseram: Não tens vergonha? Depois disso, viu-se o Céu aberto e Línguas como pequenas chamas que desciam e influíam sobre alguns dos assistentes; e êstes celebravam então o DIVINO HUMANO DO SENHOR, dizendo: Rejeitai a idéia de três Deuses e crêde que no Senhor habita corporalmente toda a plenitude da Divindade; que o Pai e o Filho são um, como a alma e o corpo são um; e que Deus não é um vento nem um éter, mas é Homem e, então, sereis conjuntos ao Céu e pelo Senhor podereis dizer JESUS e pronunciar DIVINO HUMANO.

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