- Como há pessoas que decidem e confirmaram em si, que o homem podia, sem a
Palavra, conhecer a existência de Deus e também a do Céu e do Inferno e tôdas as outras coisas
que a Palavra ensina, não se pode, portanto, servir-se da P alavra para discutir com êles, mas é
preciso empregar-se a luz natural da razão; pois êles crêem não na Palavra, mas em si mesmos.
Faze pesquisas pela luz da razão e acharás que há no homem duas Faculdades da vida, que
são chamadas Entendimento e Vontade; e que o Entendimento que foi submetido à Vontade e
não a Vontade ao Entendimento, pois o Entendimento ensina e mostra unicamente o que deve
ser feito pela Vontade; daí vem que há muitos que são de um gênio penetrante e compreendem
melhor do que os outros as coisas morais da vida e que, entretanto, não conformam com elas a
sua vida; seria de outro modo, se eles quisessem estas coisas. Faze Faze ainda pesquisas e acharás que a vontade do homem é o seu próprio e que este próprio desde o nascimento é o mal; e que, por isso, o falso está no Entendimento. Quando tiveres feito estas descobertas, verás que o homem não quer compreender outra cousa que não seja o que procede de sua vontade; e que, a menos que tenha alguma outra fonte de conhecimento, o homem pela sua vontade não pode compreender outra cousa que não seja o que concerne a êle mesmo e ao mundo; tudo o que está acima está na obscuridade- por exem plo, quando vê o Sol, a Lua e as Estrêlas, se, por ventura, refletisse sÔbre sua origem, poderia deixar de pensar que estes astros existem por êles mesmos? Teria êle pensamentos mais elevalos que os de muitos Sábios do Mundo, que, ainda que saibam pela Palavra que a Criação de tôdas as cousas é devida a Deus, atribuem-na à Natureza? Que teriam, portanto, pensado estes sábios, se nada tivessem sabido da Palavra Crês tu que os Sábios Antigos, como Aristóteles, Cícero, Sêneca e, tros, que escreveram sobre Deus e sobre a Imortalidade da Alma, tenham tirado de seu próprio entendimento as suas primeiras Idéias sobre estes assuntos? Não, mas as tiraram de outros, quais as tinham recebido por tradição daqueles que primitivamente tinham sabido isso pela Antiga Palavra de que se falou acima. Aqueles que escrevem sobre a Teologia natural am deles mesmos nada de semelhante, mas confirmam ú ente pelos raciocínios, o que sabem pela Igreja em que há alavra; e entre eles pode haver os que confirmam, mas não crêem.
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