- A estas explicações serão acrescentados êstes Memoráveis. Primeiro Memorável. Vi de longe cinco Ginásios, que eram cercados, cada um, com uma Luz diferente: o Primeiro, com uma ,Luz inflamada; o Segundo, com uma Luz amarela; o Terceiro, com uma Luz branca, brilhante; o Quarto, com uma Luz média entre o meio-dia e a tarde; o Quinto, aparecendo apenas, pois es tava como na sombra da noite. E nos caminhos vi espíritos, uns sobre cavalos, outros em carros, outros que caminhavam e alguns que corriam e se apressavam; êstes iam para o Primeiro Ginásio que estava cercado com uma Luz inflamada. A esta vista fui tomado e premido pelo desejo de ir e de ouvir o que aí se discutia; preparei-me prontamente, me associei aos que se apressavam em direção ao Primeiro Ginásio e entrei com eles; e eis que havia lá uma grande Assembléia, de que uma parte se dirigia à direita, e a outra à esquerda, para se assentar em bancos que estavam contra as paredes; defronte, vi uma tribuna pouco elevada, na qual se mantinha alguém que desempenhava as funções de Presidente, tendo um bastão na mão, um boné na cabeça e uma roupa colorida pela luz inflamada do Ginásio. Este, depois que todos se reuniram, elevou a voz e disse: "Irmãos, discuti hoje o que é a Caridade; cada um de vós pode saber que a Caridade é espiritual em sua essência e natural em seus exercícios". E imediatamente, um do primeiro banco à esquerda, em que estavam assentados os que tinham sido reputados sábios, se levantou; e começando a falar, disse: "0 meu sentimento é que a Moralidade inspirada pela Fé é a Caridade"; e o confirmou assim: "Quem não sabe que a Caridade segue a Fé, como uma criada à sua senhora, e que o homem que tem a Fé faz a lei, por conseqüência a Caridade, tão espontaneamente, que não sabe que é da Lei e da Caridade que êle vive, porque se o soubesse e agisse assim, e que ao esmo tempo pensasse na salvação por estas obras, êle macularia com o seu próprio, a santa Fé e debilitaria assim a eficácia dela? Isto não está de acordo com o dogma dos nossos?" E voltou seus olhos para os que estavam sentados dos lados, entre os quais havia cônegos; e eles; fizeram um sinal de cabeça para aprovar. "Mas o que é a Caridade espontânea, senão a moralidade, na qual cada um, desde a infância, é iniciado e, por conseqüência, é em si mesma natural, mas se torna espiritual, quando a fé lhe é inspirada? Quem discerne, por sua vida moral, se os homens têm a fé ou não, pois todo homem vive moralmente; mas Deus só, que introduz e sela a fé, conhece e distingue; por isso afirmo que a Caridade é a Moralidade inspirada pela fé e que esta Moralidade pela Fé em seu seio, é salvífica, mas que qualquer outra não dá a salvação, porque é meritória; perdem, portanto seu óleo todos os que misturam a Caridade e a Fé, isto é, que as conjungem por dentro e não as adjuntam por fora; pois misturá-las e conjungi-las, seria como se em uma carruagem com um Primaz se pusesse o criado que fica atrás ou como se admitisse o porteiro na sala para comer na mesa com o magnata" Em seguida, se levantou um dos que estavam no primeiro banco à direita e, tomando a Palavra, disse: "0 meu Sentimento é que a Piedade inspirada pela Comiseração é a Caridade e eu o confirmo assim: Nada pode tomar Deus propicio mais do que a Piedade proveniente de um coração humilde; e a Piedade pede continuamente que Deus dê a Fé e a Caridade, e o Senhor disse: Pedi, e vos será dado (Mateus VII, 7); e pois que os pedidos são atendidos, a Fé e a Caridade estão na Piedade. Digo que a Piedade inspirada pela comiseração é a Caridade; com efeito, toda Piedade devota tem comiseração, pois a Piedade leva o coração do homem a gemer; e que outra cousa é a comiseração? Esta, é verdade, se retira após a prece, mas, entretanto, volta com ela; e quando volta, a Piedade está nela e assim na Caridade. Os nossos Sacerdotes atribuem à Fé tudo o que faz avançar a salvação, e nada dela atribuem à Caridade; que resta então, senão a Piedade orando com comiseração a respeito de uma e de outra? Quando li a Palavra, não pude ver outra cousa, senão que a Fé e a Caridade eram os dois meios de salvação; mas quando consultei os Ministros da Igreja, aprendi que a Fé era o único meio e que a Caridade nada era; então, eu me vi como sobre um mar em um barco flutuando entre dois escolhos; e como tinha medo que ele se espedaçasse, lancei-me em uma canoa e naveguei; a minha canoa é a Piedade; e, além disso, a Piedade é útil para tudo". Depois deste, um dos do segundo banco à direita se levantou, e tomando a palavra, disse: "Meu Sentimento é que a Caridade consiste em fazer bem a cada um, tanto ao mau como ao bom e eu
o confirmo assim: 0 que é a Caridade, senão a bondade de coração? e um Coração bom quer bem a todos, tanto aos maus como aos bons; e o Senhor disse que é preciso fazer bem mesmo a seus inimigos; se, portanto, tu afastas de alguém a Caridade, então a Caridade quanto a esta parte não se toma nula? e assim o homem não é como se marchasse, saltando sobre um pó, tendo perdido o outro? 0 mau é homem do mesmo modo que o bom, e a Caridade encara o homem como homem; se é mau que me importa isso? Dá-se com a Caridade como com a luz do sol; esta vivifica as bestas tanto ferozes como mansa, os lobos como as ovelhas e faz crescer as árvores, tanto más como boas, os espinheiros como as cepas de vinha". Tendo falado assim, tomou na mão uma uva nova, e disse: "Dá,-se com a Caridade como com esta uva; se a dividimos, tudo que está nela se espalha por todo lado". E êle a dividiu, e o suco se espalhou de um lado e de outro. Depois deste discurso, um outro do segundo banco à esquerda se levantou e disse: "0 meu Sentimento é que a Ca-ridade consiste em ser útil de toda maneira a parentes e amigos, o que eu confirmo assim: Quem não sabe que a Caridade começa por si mesmo Cada um, com efeito, é o próximo de si mesmo; a Caridade avança portanto a partir de si para. as proximidades; primeiro, para os irmãos e as irmãs e destes, para os parentes e os conhecidas, e assim a progressão da Caridade a partir de si mesmo, é terminada; os que estão fora são estranhos e os estranhos não são reconhecidos interiormente, assim foram postos de lado pelo homem interno; ora, a natureza conjunta os consangüíneos e os parentes; e o hábito, que é uma segunda natureza, conjunta os amigos e assim, eles se tornam o próximo; a Caridade une outrem a si por dentro, e assim por fora; e os que não foram unidos por dentro, devem ser chamados unicamente companheiros. Todos os pássaros não conhecem, sua parentela, não pelas penas, mas pelo som, e quando estão perto, pela esfera de vida que emana de seus corpos? Esta afeição da parentela, com a conjunção que daí resulta, é chamada instinto nos pássaros; esta mesma afeição no homem, quando é dirigida para os seus e para aqueles que lhe pertencem, é verdadeiramente o instinto de sua natureza humana. 0 que é que faz o gênio, senão o sangue? A mente do homem que é também o espírito do homem, sente e cheira, por assim dizer, este homogêneo; a essência da Caridade consiste neste homogêneo e na simpatia que dele resulta; e vice-versa, o heterogêneo, donde resulta a antipatia, é cama a ausência dos laços de sangue; por conseguinte, a não-caridade; ora, como o hábito é uma segunda natureza e que ela constitui também o homogêneo, segue-se que a Caridade é também fazer bem aos amigos. Aquele que, viajando no mar, chega a um porto e sabe que é uma Terra estranha, habitada por homens de que não conhece nem a língua nem os costumes, não fica então como fora de si, e sentirá êle o menor prazer de amor em relação a seus habitantes? mas se sabe que é uma Terra de sua Pátria, habitada por homens de que êle conhece a língua e os costumes, êle está como em si mesmo e então sente uni prazer de amor, que é também o prazer da Caridade". Em seguida, um das do terceiro banco à direita se levantou e exclamou em altas vozes, dizendo: "0 meu Sentimento, é que a Caridade consiste em fazer esmola aos pobres e em socorrer os indigentes. E isto certamente a Caridade, pois é o que ensina a Divina Palavra, cujo conteúdo não admite contradições; o que é dar aos ricos e aos que estão na opulência, senão uma vanglória, em que não há Caridade, mas visa a remuneração? Não pode haver nisso uma afeição real do amor em relação ao próximo, mas há uma afeição bastarda, que tem valor na Terra, mas não nos Céus; é por isso que a pobreza e a indigência devem ser socorridas, pois nisto não entra a idéia da retribuição. Na cidade que eu habitava, onde conheci bons e maus, eu via todos os bons se deterem à vista de um pobre na rua e lhe dar esmola; mas todos os maus deixavam o pobre de lado e passavam adiante, como cegos ao seu aspecto, e surdos à sua voz; quem não sabe que a Caridade está. nos bons e que não está nos maus? Aquele que dá aos pobres e socorre os indigentes é semelhante a um pastor que conduz à pastagem e ao bebedouro as ovelhas famintas e sedentas; mas o que só dá aos ricos e aos opulentos é semelhante ao que adora. um ídolo e farta de carne e de vinho os que já estão fartos disso". Depois deste um outro se levantou do terceiro banco à esquerda; e tomando a palavra, disse: "0 meu Sentimento é que a Caridade consiste em construir Hospitais, Casas para os doentes, para os. órfãos e Hospícios e em mantê-los por donativos; e o confirmarei assim: Tais benefícios e tais socorros são públicos e ultrapassam,. de muito, os benefícios e os socorros privados; a Caridade tornasse tanto mais opulenta e mais cheia de bens; e os bens, sendo, mais numerosos, a punição esperada segundo as promessas da Palavra tornam-se mais abundantes; pois conforme alguém. prepara e semeia seu campo, Um êle colhe; não é isso dar com abundância, aos pobres e socorrer os indigentes? Quem é que por isso não recolhe glória e, ao mesmo tempo, os louvores por parte do Mundo, com humildes ações de graças por parte daqueles que êle alimenta? Isso não eleva o coração e, ao mesmo tempo, a afeição, que é chamada Caridade, até ao seu ápice? Os ricos que não caminham pelas rua, mas que as percorrem em viatura, não podem dirigir seus olhos sobre os que estão sentados aos lados perto das paredes e lhes atirar dinheiro, mas empregam suas dádivas no que é vantajoso para muitos ao mesmo, tempo; que os pequenos que andam pelas ruas e que não têm os mesmos meios, dêem esmolas na mão". A estas palavras, um outro sentado no mesmo banco lhe cortou a palavra, tomando-a em tom mais elevado, e disse: "Que os Ricos não ponham jamais a munificência e a excelência de sua Caridade acima do óbulo que o pobre dá ao pobre; pois nós sabemos que quem age, age conformemente à sua pessoa, um Rei como rei, um Pretor como pretor, um Tribuno como tribuno e um soldado como soldado,pois a Caridade, considerada em si mesma, é estimada não segundo a excelência da pessoa e dádiva, mas segundo a plenitude da afeição que a faz; e assim, o mais baixo criado, quando dá um vintém, pode estar mais provido de uma caridade plena .do que um magnata que dá ou lega um tesouro; isto ainda está de acordo com esta passagem: "Jesus viu os ricos que punham. seus presentes na caixa das esmolas, viu também uma certa viúva pobre que aí pôs duas pequenas moedas; e Êle disse: Em verdade vos digo, que esta viúva pobre pôs mais do que todos os outros (Lucas XXI, 1-3)". Depois deste, um do quarto banco, à esquerda se levantou, falou e disse: "0 meu Sentimento é que a Caridade consiste em erigir Templos e fazer bem aos Ministros que fazem o seu serviço; o que eu confirmo assim: o que faz isto agita em seu espírito o que é santo e age pelo santo que ai está e além disso, santifica suas dádivas; é o que a Caridade exige porque em si mesma é santa; todo culto nos Templos não é santo? pois o Senhor disse: "Onde dois ou três estão reunidos em meu Nome, no meio deles Eu estou"; e os Sacerdotes seus servidores, fazem o serviço; concluo dai que os donativos que se fazem a esses, Sacerdotes e para os Templos, são superiores aos donativos que são dispensados aos outros e para outros fins; e, além disso, ao Ministro foi dada a faculdade de abençoar, faculdade pela qual êle santifica também êstes donativos; e, além disso, nada expande mais a mente e não a regozija tanto, como ver suas dádivas como outros tantos santuários". Em seguida, um outro,
do quarto banco à direita se levantou e falou assim: "0 meu Sentimento é que a velha Fraternidade Cristã é a Caridade, e eu o confirmo desta maneira: Toda Igreja que adora o verdadeiro Deus, começa pela Caridade, assim como começou a velha Igreja Cristã; e como a Caridade une as mentes e de várias, faz uma só, eis porque os primeiros Cristãos se chamavam Irmãos, mas em Jesus Christo seu Deus; entretanto, como então estavam cercados de bárbaros dentre as nações, que eles temiam, puseram seus bens em comum; por este meio, eles se alegravam juntos e com unanimidade; cada dia em suas reuniões falavam do Senhor Deus Salvador Jesus Christo e, em seus jantares e em suas ceias, conversavam sobre a Caridade; dai, vinha sua Fraternidade. Mas depois destes primeiros tempos, quando cismas começaram a nascer, e por fim se elevou a abominável Heresia Ariana, que em um grande número suprimiu a idéia da Divindade do Humano do Senhor, a Caridade tornou-se fora de uso e a Fraternidade foi dissipada. É verdade que todos os que adoram, em verdade, o Senhor e fazem seus preceitos são Irmãos (Mateus XXIII, 8); mas irmãos em espírito; e como hoje ninguém é conhecido como é em espírito, não é necessário que se chamem mutuamente irmãos. A Fraternidade da fé só, e menos ainda a de uma fé em um outro Deus diferente do Senhor Deus Salvador, não é a fraternidade porque a Caridade que faz a fraternidade, não está nessa fé; por isso, concluo que a velha Fraternidade Cristã era a Caridade, mas foi e não é mais; entretanto, predigo que ela voltará". Quando ele pronunciou estas palavras, uma luz inflamada apareceu através da janela do lado do oriente e colorium suas faces; a esta, vista, a Assembléia foi tomada de espanto. Em último lugar, um dos do quinto banco à esquerda se levantou e pediu que lhe fosse permitido acrescentar alguma cousa ao que acabava de ser dito; isso lhe tendo sido permitido, êle disse: "0 meu Sentimento é que a Caridade consiste em perdoar a cada um as suas faltas; tirei este sentimento da linguagem ordinária daqueles que se aproximam da Santa Ceia, pois então alguns dizem a seus amigos: Perdoai-me as faltas que cometi entre vós, imaginando assim que cumpriram todos os deveres da Caridade; mas eu pensei em mim mesmo que isto é somente uma figura pintada da Caridade e não a forma real de sua essência, pois isso é dito não somente pelos que não perdoam, mas também pelos que não fazem esforço algum para seguir a Caridade; e êstes não estão compreendidos na Prece que o Senhor mesmo ensinou: Pai nosso, perdoa-nos as nossas faltas, como perdoamos os que cometeram faltas contra nós; com efeito, as faltas são como úlceras, onde se junta, se não abertas e curadas, uma sânie que corrompe as partes vizinhas, sobe em torno como uma serpente, e muda por toda parte o sangue em sânie. Dá-se o mesmo com as faltas contra o próximo, que, se não são afastadas pela penitência e pela vida segundo os preceitos do Senhor, permanecem e são engodos; a aqueles que, sem penitência, pedem somente a Deus para perdoar seus pecados, são semelhantes aos -cidadãos de uma cidade, que, atacados de uma moléstia contagiosa, iriam procurar o Prefeito e lhe diriam: Cura-nos; o Prefeito lhes responderia: 0 que! Curar-vos! Ide procurar um Médico, pedi-lhe uma receita, ide fazê-la aviar por um farmacêutico, tomai-a e ficareis curados. E o Senhor dirá aos que lhe suplicam para perdoar seus pecados sem uma penitência efetiva: "Abri a Palavra e lêde o que Eu disse em Isaías:" Ai da nação pecadora carregada de iniqüidade! Por isso, quando estendeis vossas mãos, eu escondo meus olhos de vós; se mesmo multiplicais a prece, eu não escuto. Lavai-vos, afastai a malícia de vossas obras de diante de meus olhos, cessai de fazer o mal; aprendei a fazer o bem; e então os vossos pecados serão afastados e serão remidos" (I, 4, 15-18). Terminado este discurso, estendi a mão e pedi que me fosse permitido, embora estranho, dar também o meu sentimento; o Presidente fez a proposta; e o consentimento tendo sido dado, falei assim: "0 meu Sentimento é que a Caridade consiste em agirem todas as obras e em todo emprego, pelo amor da justiça com o julgamento, mas por um amor que não procede de outra parte senão do Senhor. Tôdas as cousas que ouvi dizer por aqueles que estão assentados nas bancos, ao lado direito e ao lado esquerdo, são célebres documentos da Caridade; mas, como disse o Presidente desta Assembléia, a Caridade é espiritual em sua origem, e natural em sua derivação; e a Caridade natural, se é interiormente espiritual, aparece diante dos Anjos como o Diamante, mas se, interiormente, não é espiritual e que assim seja puramente natural, aparece diante dos Anjos como uma Pérola semelhante a um olho de peixe cozido. Não me compete dizer se estes célebres documentos da Caridade, que apresentastes em ordem, são ou não inspirados pela Caridade espiritual; mas me compete dizer o que será o espiritual que deve estar neles, para que sejam formas naturais da Caridade espiritual; o seu espiritual mesmo, consiste em serem feitos segundo o amor da justiça com o julgamento, isto é, que o homem nos exercícios da Caridade examine se age segundo a justiça; e isso êle o examina pelo julgamento; com efeito, o homem pode, por benefícios, fazer o mal e pode também fazer o bem por ações que se apresentam como malfazejas; por exemplo, faz mal por benefícios, se dá a um bandido indigente, socorros que o põem em condições de comprar uma espada, ainda que este, quando pede suplicando, não diga qual é a sua intenção; ou se o livra da prisão e lhe mostra o caminho da floresta, dizendo consigo mesmo: Não é minha culpa se êle cometer banditismo, eu levei socorro a um homem; seja ainda um outro exemplo: se alimenta um preguiçoso e vela para que não seja forçado a trabalhar e lhe diga: Entra em um quarto de minha casa e deita-te em uma cama, por que te fadigarias? Pois favorece a preguiça; do mesmo modo ainda, se eleva parentes e amigos, de mau caráter, a funções honrosas, nas quais podem maquinar vários gêneros de maldades. Quem não vê que tais obras de Caridade não provêm de nenhum amor da justiça com julgamento? E vice-versa, o homem pode fazer bem por cousas que aparecem como fazendo mal; por exemplo, um Juiz que não absolve um malfeitor pelo fato dele chorar, pronunciar palavras piedosas e suplicar que lhe perdoe porque é seu próximo; este juiz faz uma,obra de Caridade aplicando-lhe uma pena segundo a lei, pois assim age de sorte que o culpado não cometa mais malefícios, que não seja mais nocivo à sociedade que é o próximo em um grau superior, e que um julgamento de absolvição não seja um escândalo. Quem não sabe também que é um bem para os criados e para as crianças, quando seus patrões e seus pais os corrigem pelas más ações que praticaram? Acontece o mesmo com os que não estão no Inferno e que estão todos no -amor de fazer o mal; são todos encerrados em prisões e quando fazem o mal, são punidos, o que é permitido pelo Senhor para sua correção; e é assim porque o Senhor é a Justiça mesma e tudo que faz, o faz pelo Julgamento mesmo. Por êstes exemplos, pode-se ver claramente porque a Caridade, como o disse, torna-se espiritual pelo amor da justiça com o julgamento, mas segundo um amor que não procede senão do Senhor Deus Salvador; isso, porque todo bem da Caridade procede do Senhor, pois Êle disse: "Aquele que permanece em Mim e Eu nele, esse dá muito fruto, pois sem Mim nada podeis fazer" (João XV, 5). "Foi-me dado todo poder no Céu e na Terra" (Mateus XXVIII, 18); e todo amor da justiça com julgamento não procede de outra parte que não seja do Deus do Céu, que é a Justiça mesma e de quem o homem recebe todo julgamento (Jeremias XXIII, 5; XXXIII, 15). Daí, eu concluo que tôdas as cousas que foram ditas sobre a Caridade por aqueles que estão sentados nos bancos à direita e à esquerda, a saber: Que a Caridade é a Moralidade inspirada pela Fé; Que é a Piedade inspirada pela Comiseração; Que consiste em fazer bem a cada um, tanto ao mau como ao bom; Que consiste em ser útil de toda maneira a parentes e amigos; Que consiste em dar esmola aos pobres e em socorrer os indigentes; Que consiste em construir Hospitais e em mantê-los por donativos; Que consiste em enriquecer os Templos e em fazer bem aos Ministros que fazem o seu serviço; Que é a velha Fraternidade Cristã; Que consiste em perdoar a cada um as suas faltas; concluo, disse, que tôdas estas cousas são bons documentos da Caridade, quando são feitas pelo amor da justiça com o julgamento; de outro modo, elas não são a Caridade, mas são unicamente como regatos separados de sua fonte ou como galhos destacados de sua árvore, pois que a Caridade real é crer no Senhor e agir com justiça e direitura em toda obra e em todo emprego. Aquele, portanto, que, pelo Senhor, ama a Justiça e a faz com Julgamento, esse é a Caridade em sua imagem e em sua semelhança". Depois que pronunciei estas palavras se fez um. silêncio, como acontece para aquele que, pelo homem Interno, vêem e reconhecem que uma causa é, mas sem ainda a ver nem reconhecer no homem Externo; é o que eu notei pelas suas faces. Mas de repente fui retirado de sua presença, pois de meu espírito reentrei em meu -corpo material; com efeito, o homem estando revestido do corpo material não é visível a homem espiritual algum, isto é, a espírito algum, nem a Anjo algum; e o homem espiritual não é visível ao homem natural.
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