- "I. Os Doutores da Confissão de Augsbourg afirmam que o homem, pela queda de nossos primeiros pais, foi inteiramente corrompido, ao ponto de, nas cousas espirituais que concernem a nossa conversão e a nossa salvação, ser cego por natureza, não compreender e não poder compreender a Palavra de Deus quando é pregada, mas considera-a como uma coisa extravagante, e não se aproximar jamais, por si mesmo, de Deus, mas antes ser e tornar-se inimigo de Deus, até que pela virtude do Espírito Santo, por meio da Palavra pregada e entendida, seja convertido, gratificado com a fé, regenerado e renovado, por pura graça, sem nenhuma cooperação de sua parte (pág. 656). 11. Acreditamos que o entendimento, o coração e a vontade do homem que não renasceu, não pode absolutamente cousa alguma compreender, crer, abraçar, pensar, querer, começar, aperfeiçoar, fazer, operar e cooperar, nas cousas espirituais e Divinas, pelas próprias forças naturais, mas que o homem está inteiramente corrompido e morto para o bem, ao ponto de, na natureza do homem depois da queda, antes da regeneração, não ter ficado nem mesmo uma centelha das forças espirituais, pelas quais pudesse se preparar para a graça de Deus, ou apreendê-la quando lhe é oferecida, ou se tornar próprio e hábil a receber por si mesmo, ou por suas próprias forças contribuir, agir, operar ou cooperar por si mesmo ou como por si mesmo para a sua conversão, seja no todo, seja pela metade, seja na mínima parte; mas que o homem é escravo do pecado e súdito de Satanás, pelo qual é posto em ação, donde resulta que seu Livre-Arbítrio natural, em razão das forças corrompidas e de sua natureza depravada, é ativo e eficaz unicamente para as coisas que desagradam e são contrárias a Deus (pág. 656). 111. 0 homem nas cousas civis e naturais é industrioso e engenhoso; mas nas cousas espirituais e Divinas, que concernem à salvação da alma, é semelhante a um toco, a uma pedra, à estátua de sal da mulher de Loth, que não tem o uso dos olhos nem da boca nem de qualquer outro sentido (pág. 661). IV. 0 homem, entretanto, tem o poder de se mover ou de dirigir seus membros externos, pode ouvir o Evangelho e de alguma sorte meditá-lo, porém em seus pensamentos secretos o despreza como cousa extravagante, e não pode crer nele, e nisto é pior que um toco, a não ser que o Espírito Santo seja eficaz nele, e que inflame e opere a fé, e as outras virtudes aprovadas por Deus, e a obediência (pág. 662). V. Pode-se dizer com alguma razão, que o homem não é uma pedra ou um toco, a pedra ou o toco, não resistem, e não compreendem ou não sentem o que se faz com eles, como o homem por sua vontade resiste a Deus, até que se tenha voltado para Deus; e é verdade que o homem antes da conversão é uma criatura racional, que tem entendimento, mas não nas coisas Divinas, e vontade, mas não para querer alguma cousa salutar; não obstante, não pode contribuir em cousa alguma para sua conversão, e nisto ele é pior que um toco ou que uma pedra (págs, 672-673). VI. Toda conversão é a operação e a obra do Espírito Santo somente, e que a efetua e opera por sua virtude e seu poder, por meio da Palavra, no entendimento, no coração e na vontade, do homem como em um objeto paciente, onde o homem não age em coisa alguma, mas unicamente deixa agir; todavia, isto não se faz como quando uma estátua é formada com uma pedra, ou quando um sinete é impresso na cera, porque a cera, não tem nem conhecimento, nem vontade (pág. 681). VII. Segundo as asserções de alguns Padres e de alguns Doutores, que Deus atrai aquele que quer ser atraído, a vontade do homem servirá para alguma cousa na conversão; mas estas asserções não estão conformes com as palavras sagradas, pois confirmam uma falsa opinião sobre as forças do Arbítrio humano na conversão (pág. 582). VIII. Nas cousas externas do Mundo, que foram submetidas à razão, ainda foi deixado ao homem um pouco de entendimento, de forças e de faculdades, mas êstes miseráveis restos são extremamente fracos, e mesmo por menores que sejam foram Infectados pelo veneno da doença hereditária, e foram corrompidos ao ponto de não terem importância alguma diante de Deus (página 641). IX. 0 homem na conversão, pela qual de filho da cólera se torna filho da graça, não coopera com o Espírito Santo (páginas 219, 519 e segs., 663 e segs. Ap. pág. 143). Entretanto, o homem renascido pela virtude do Espírito Santo pode cooperar, ainda que a sua fraqueza para concorrer seja ainda grande; e êle opera bem conforme e enquanto é conduzido, regido e governado pelo Espírito Santo; todavia, não coopera com o Espírito Santo, do mesmo modo que dois cavalos puxam juntos um carro (pág. 674). X. 0 Pecado de origem não é uma espécie de delito que se comete por um ato, mas é mantido Intimamente ligado à natureza, à substância e à essência do homem; é a fonte de todos os pecados atuais, como são os maus pensamentos, as más palavras, as más ações (pág. 577). Esta moléstia hereditária, pela qual Toda a natureza foi corrompida, é um horrível pecado, e mesmo o princípio e a cabeça de todos os pecados, de onde provêm tôdas as transgressões, como de uma raiz e de uma fonte (pág. 640). Por este pecado, como por uma lepra espiritual totalmente espalhada nas vísceras íntimas e nos refolhos; mais profundos do coração, a natureza é inteiramente infectada e corrompida diante de Deus; e por causa desta corrupção a pessoa do homem é acusada e condenada pela Lei de Deus, de tal modo que, por natureza, nós somos filhos da cólera, escravos da morte e da danação, a menos que pelo benefício do mérito do Christo sejamos libertados destes males e salvos (pág. 639). Daí há uma falta total ou uma privação total da justiça original concriada no Paraíso ou da imagem de Deus, e por conseguinte uma impotência, uma inépcia e uma estupidez, que tornam o homem absolutamente inepto para tôdas as cousas Divinas ou espirituais. Em lugar da imagem de Deus perdida no homem, há uma corrupção íntima, muito má, muito profunda, impenetrável, indizível, de toda sua natureza, e de tôdas as suas forças, sobretudo das faculdades superiores e principais da alma, na mente, no entendimento, no coração e na vontade" (pág. 640).
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