VRC &504

A Verdadeira Religião Cristã
Emanuel Swedenborg
Contendo toda a teologia da Nova Igreja

- Segundo Memorável (N. 51). Eu estava na vista interior espiritual em que estão os Anjos do Céu superior, mas ao mesmo tempo no Mundo dos Espíritos; e vi dois espíritos não longe de mim, afastados entretanto um do outro, e percebi que um deles amava o bem e o vero, e estava por isso conjunto ao Céu, e que o outro amava o mal e o falso, e estava por isso conjunto ao Inferno; aproximei-se e os chamei; e, pelo som de suas vozes e suas respostas, concluí que, tanto um como o outro podia perceber as verdades, reconhecer as que tinham sido percebidas, assim pensar pelo entendimento, e também determinar os intelectuais como lhes aprouvesse, e os voluntários segundo o seu gosto, que por conseqüência estavam um e outro em semelhante Livre-Arbítrio quanto aos racionais; e, além disso, ,observei que por esta Liberdade em suas mentes, aparecia uma claridade desde a primeira vista que pertence à percepção até à última vista que pertence ao olho; mas quando o que amava o mal e o falso estava entregue a si mesmo, notava que se elevava do Inferno uma fumaça, e que ela extinguia a claridade que estava acima da memória, donde para êle, aí, uma obscuridade como a do meio da noite; além disso também, que esta fumaça abrasando-se queimava como uma chama, e que esta chama iluminava a região da mente que está abaixo da memória; é por esta fumaça abrasada que êle pensava falsos enormes provenientes dos males do amor de si. Mas no outro que amava o bem e o vero, eu via, quando êle estava entregue a si mesmo, como uma chama suave que descia do Céu, e que iluminava a região de sua mente acima da memória, e também a região abaixo desta memória até ao olho, e que o clarão desta chama resplandescia cada vez mais, conforme, de acordo com o amor do bem, ele percebia e pensava o vero. Por estas observações tomou-se ,evidente para mim que cada homem, tanto mau como bom, tem um Livre-Arbítrio espiritual; mas que o Inferno o extingue por vezes nos maus, e que o Céu o exalta e inflama nos bons. Depois disso conversei com um e com o outro, e a princípio com o que amava o mal e o falso; e depois de alguma pergunta sobre sua sorte, quando pronunciei a expressão Livre-Arbítrio, êle se arrebatou, e disse: "Ah! que loucura acreditar que o homem -tem o Livre-Arbítrio nas cousas espirituais! Que homem pode se atribuir a fé e fazer o bem por si mesmo? 0 Sacerdote hoje não ensina, segundo a Palavra, que pessoa alguma não pode tomar senão aquilo que é dado do Céu, e o Senhor Jesus Christo não disse a seus discípulos: "Sem mim nada podeis fazer"? E a isso acrescentou, que pessoa alguma pode mover o pé ou a mão para fazer algum bem, nem mover a língua para pronunciar algum vero segundo o bem; é por isso que a Igreja por seus sábios concluiu que o homem não pode nem querer nem compreender nem pensar algum espiritual nem mesmo se dispor a querê-lo e a pensá-lo, mais do que uma estátua, um toco e uma pedra; e que é por isso que Deus, que tem, somente Ele, um Poder libérrimo e ilimitado, inspira segundo seu bel-prazer a fé, que, sem nosso trabalho e sem força nossa, pela operação do Espírito Santo, produz tôdas as cousas que os ignorantes atribuem ao homem". Em seguida conversei com o outro, que amava o bem e o vero, e depois de algumas perguntas sobre sua sorte, quando pronunciei a expressão Livre-Arbítrio, disse: "Que loucura negar o Livre-Arbítrio nas cousas espirituais! Quem é que não pode crer e fazer o bem, pensar e pronunciar o vero por si mesmo segundo a Palavra, assim pelo Senhor, que é a Palavra? Pois o Senhor disse: "Produz bons frutos e crê na Luz"; e também: "Amai-vos uns aos outros, e amai a Deus", e mais: "Aquele que ouve e faz os meus preceitos, esse Me ama, e eu o amarei", além de mil passagens semelhantes em toda a Palavra. Para que serviria, pois, a Palavra, se o homem não pudesse querer nem pensar cousa alguma, e por conseguinte, nada fazer e nada pronunciar daquilo que ai é ordenado? Sem êste poder no homem que seria a Religião e a Igreja, senão como um navio naufragado, que está no fundo do mar, e cujo piloto se mantém no alto do mastro, e exclama: Eu nada posso; enquanto vê os outros marinheiros se escaparem nos barcos depois de terem içado as velas? Não foi dada a Adão a liberdade de comer da Arvore da Vida e a liberdade de comer da Árvore da ciência do Bem e do Mal? e como por sua liberdade êle comeu da Arvore da ciência, uma fumaça saiu da serpente, isto é, do Inferno, entrou em sua mente, é por isso que foi expulso do Paraíso e maldito; e entretanto não perdeu o Livre-Arbítrio, pois lê-se que o caminho que conduzia à Árvore da Vida foi guardado por um Querubim, o que foi feito porque ele podia ainda querer comer do seu fruto". Depois que assim falou, aquele que amava o mal e o falso, respondeu: "Deixo de parte o que ouvi, e guardo em mim o que avancei; quem não sabe que somente Deus é vivo, e por conseguinte ativo, e que o homem por si mesmo é morto, e por conseguinte puramente passivo? Como aquele que em si mesmo é morto e puramente passivo, pode se atribuir alguma coisa de vivo e de ativo?" A isto respondi: "0 homem é um órgão da Vida, e só Deus é a Vida, e Deus espalha Sua vida no órgão e em todas as partes do órgão, como o Sol espalha seu calor na árvore e em todas as partes da árvore; e Deus dá ao homem a faculdade de sentir esta vida em si mesmo como sua, e Deus quer que ele a sinta assim, a fim de que, conforme as leis da Ordem, que são em tão grande número como os preceitos da Palavra, o homem viva como por si mesmo, e se disponha a receber o Amor de Deus; mas não obstante o Senhor Deus mantenha continuamente com o dedo o nível da balança, e modera, mas não viola jamais o Livre-Arbítrio por constrangimento; a Arvore nada pode receber daquilo que o calor do sol introduz pela raiz, a menos que se torne morna e quente quanto a cada um dos seus filamentos; e os elementos não podem subir pela raiz, a menos que cada um de seus filamentos pelo calor recebido exale também o calor, e contribua assim à passagem; do mesmo modo que o homem pelo calor da vida que recebeu de Deus; mas o Homem difere da Arvore em que êle sente êste calor como seu, embora não lhe pertença; todavia, quanto mais ele crê que lhe pertença e não a Deus, tanto mais recebe a luz da vida, mas não o calor do amor procedente de Deus; recebe, ao contrário, o calor do amor proveniente do Inferno; e como êste calor é grosseiro, obstrui e fecha os mais puros ramos do órgão, como um sangue impuro os vasos capilares do corpo; assim de espiritual o homem se torna puramente natural. 0 Livre-Arbítrio no homem vem de que êle sente a vida em si como sua, porque Deus deixa o homem sentir assim, a fim de que se faça a conjunção, que não é possível senão tanto quanto é recíproca; e ela se torna recíproca, quando o homem pela Liberdade age absolutamente como por si mesmo; se Deus. não tivesse deixado ao homem esta liberdade, o homem não seria homem, e não teria a vida eterna, pois a conjunção reciproca com Deus faz com que o homem seja homem e não besta, e faz também que depois da morte viva eternamente; o Livre-Arbítrio nas coisas espirituais produz este efeito". Depois de ter ouvido isto, êste espírito mau se retirou a uma certa distância, e então vi sobre uma árvore uma serpente voadora, que se chama dipsade, que apresentava a alguém o fruto desta árvore; e então aproximei-me em espírito do lugar; e aí, em lugar da serpente, vi um homem monstruoso, cuja barba cobria de tal modo a face, que não aparecia o nariz; e em lugar da árvore, era um tição abrasado perto do qual estava aquele em cuja mente a fumaça tinha entrado precedentemente, e que em seguida tinha rejeitado o Livre-Arbítrio nas coisas espirituais; e de repente uma fumaça semelhante saiu do tição, e os envolveu, a um e a outro; e como foram assim subtraídos à minha vista, fui embora; quanto ao que amava o bem e o vero, e que tinha sustentado que o homem tem o Livre-Arbítrio nas cousas espirituais, acompanhou-me até em casa.

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