- Quinto Memorável (N. 54). Eu estava em conversação com Anjos; e, por último assunto, falamos sobre a cobiça do mal em que cada homem está por nascimento; um deles disse: "No Mundo em que estamos, os que estão na cobiça nos aparecem, a nós anjos, como loucos, mas eles se vêem como soberanamente sábios; por isso a fim de que sejam tirados de sua loucura, são postos ora nesta loucura ora no racional que, neles, está nos externos; e neste último estado vêem, reconhecem e confessam sua loucura, mas não obstante desejam ardentemente passar de seu estado racional para seu estado de loucura, e por isso se lançam nele como se passassem do constrangimento e do desprazer para a liberdade e o prazer; assim é a cobiça, e não a inteligência, que os deleita interiormente. Há três Amores universais, de que todo homem por criação é composto: o Amor do próximo, que é também o amor de fazer usos, êste amor é espiritual; o Amor do Mundo, que é também o amor de possuir as riquezas, este amor é material; e o Amor de si, que é também o amor de dominar sobre os outros, e êste amor é corporal; o homem é verdadeiramente homem quando o Amor do próximo ou o amor de fazer usos faz sa Cabeça, o Amor do Mundo ou o amor de possuir as riquezas faz o Peito e o Ventre, e o Amor de si ou o amor de dominar faz os Pés e as Plantas dos pés; mas se o Amor do Mundo faz a Cabeça, o homem não é homem senão como um corcunda; e se o Amor de si faz a Cabeça, êle é como um homem que se mantém, não sobre os pés, mas sobre as palmas das mãos, com a cabeça em baixo e as pernas para o alto. Quando o Amor dos usos faz a Cabeça, e os dois outros amores fazem em ordem o corpo e os pés, êste homem visto do Céu aparece com uma face Angélica com um belo arco-íris em torno da cabeça; mas se o Amor do Mundo ou das riquezas faz a cabeça, o homem visto do Céu, aparece com uma face pálida como a de um morto, com um círculo amarelo em torno da cabeça; mas se o Amor de si ou de dominar sobre os outros faz a cabeça, o homem visto do Céu aparece com uma face preta abrasada com um circulo branco em torno da cabeça". Então perguntei o que representavam os círculos em torno das cabeças; responderam-me: "Representam a inteligência; o círculo branco em torno da cabeça da face preta abrasada, representa que a inteligência do homem está nos externos, ou em torno dele, e que a loucura está nos internos ou nele; e mesmo o homem, que é tal, é sábio quando está no corpo, e louco quando está no espírito; e nenhum homem é sábio no espírito, se não o for pelo Senhor, o que acontece quando é engendrado de novo e criado pelo Senhor". Depois que eles assim falaram, a terra se abriu a minha esquerda, e pela abertura vi subir um Diabo com uma face preta abrasada com um círculo branco em torno. da cabeça, e lhe perguntei: "Quem és tu?" Disse: "Sou Lúcifer, filho da aurora; e, como me fiz semelhante no Altíssimo, fui precipitado, como está escrito em Isaías, cap. XIV". Todavia não era Lúcifer, mas acreditava que o era; e lhe disse: "Pois que foste precipitado, como podes te elevar do Inferno?" Respondeu: "Lá eu sou Diabo, mas aqui sou um Anjo de luz; não vês a minha cabeça cercada com um círculo branco? E mesmo, se quiseres, verás que sou moral entre os que são morais, e racional entre os que são racionais, e mesmo espiritual entre os que são espirituais; posso também pregar". Disse-lhe: "Como pregaste?" Respondeu: "Contra os velhacos, contra os adúlteros, e contra todos os amores infernais; e então mesmo, eu Lúcifer, chamei Lúcifer Diabo, e me maldisse, maldizendo-me; e, cumulado de louvores por isso, fui elevado ao Céu; daí vem que eu seja chamado filho da aurora; e, o que me admirou, a mim mesmo, é que, quando estava no púlpito, percebia absolutamente que tudo que dizia era justo e bom; mas a causa disso Me foi descoberta, é que eu estava nos externos, e que então os externos tinham sido separados dos meus internos; e, embora isso me tenha sido descoberto, não pude entretanto mudar-me, porque tinha me elevado acima do Altíssimo, e me sublevado contra Ele". Fiz-lhe em seguida esta pergunta: "Como pudeste falar assim, quando tu mesmo és um velhaco e um adúltero?" Respondeu: "Sou outro quando me acho nos externos ou no corpo, e outro quando estou nos internos ou no espírito; no corpo, sou Anjo; mas no espírito, sou Diabo; pois no corpo estou no entendimento; mas no espírito, estou na vontade; ora, o entendimento me leva para cima, mas a vontade me arrasta para baixo; e quando estou no entendimento, um círculo branco cerca a minha cabeça, mas quando o entendimento se submete inteiramente à vontade e que é todo dela, o que é a nossa sorte afinal, o círculo enegrece e se dissipa; uma vez neste estado, não posso mais subir a esta luz". Mas de repente, tendo visto os Anjos que estavam comigo, a sua face e a sua voz se inflamaram, e êle se tornou preto, mesmo quanto ao círculo que estava em torno de sua cabeça, e caiu no Inferno pela abertura pela qual tinha subido. Os que estavam presentes tiraram do que acabavam de ver e ouvir esta conclusão, que o homem é tal qual é sua vontade, e não tal qual é seu entendimento, pois que a vontade arrasta facilmente para seu lado o Entendimento, e o submete. Então perguntei aos Anjos de onde vinha aos diabos à racionalidade; e eles disseram que vinha da glória do amor de si, pois o amor de si é cercado de glória, porque a glória é o esplendor do fogo desse, amor; e esta glória eleva o entendimento quase à luz do Céu, pois o Entendimento em cada homem é suscetível de ser elevado segundo os conhecimentos, mas a Vontade não pode ser elevada senão pela vida segundo os veros da Igreja e da Razão; daí vem que os próprios Ateus, que estão na glória do renome pelo amor de si, e por conseguinte no fasto da própria inteligência, gozam de uma racionalidade mais sublime que muitos outros; mas é quando estão no pensamento do Entendimento, e não quando estão no amor da Vontade; e o amor da Vontade possui o homem Interno, mas o pensamento do entendimento possui o homem Externo. Por fim o Anjo nos deu o motivo pelo qual o homem foi composto destes três amores, a saber, o amor do Uso, o amor do Mundo e o amor de Si; é a fim de que o homem pense por Deus, ainda que absolutamente como por si mesmo; disse-nos que na mente do homem os supremos foram voltados para cima em direção a Deus, os médios para fora em direção ao Mundo, e os ínfimos para baixo em direção ao corpo; e, como os ínfimos foram voltados para baixo, o homem pensa absolutamente como por si mesmo, embora entretanto seja por Deus.
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