- A este Capítulo serão acrescentados os Memoráveis seguintes: Primeiro Memorável (N. 56). Fui tomado subitamente por uma moléstia quase, mortal; toda minha cabeça estava pesada; uma fumaça pestilêncial, foi enviada da Jerusalém que é chamada Sodoma e Egito (Apoc. 11, 8); eu estava meio morto, sofrendo cruelmente, esperava minha última hora; fiquei assim estendido em meu leito durante três dias e meio; tal tinha se tornado meu espírito e em conseqüência o meu corpo; e então ouvi em torno de mim vozes de pessoas que diziam: "Ei-lo aqui estendido morto na praça de nossa Cidade, aquele que pregava a Penitência para a remissão dos pecados, e o Christo homem único". E perguntaram a alguns eclesiásticos, se esse era digno de sepultura. Eles responderam: "Não; que fique estendido e seja um espetáculo". E iam, voltavam e troçavam. Eis, segundo a Verdade, o que me aconteceu, quando explicava o Cap. 11 do Apocalipse. Ouviu-se então êstes motejadores pronunciar palavras sobre as quais se apoiavam fortemente, sobretudo estas: "Como se pode fazer Penitência sem a fé? Como o Christo-homem pode ser adorado como Deus? Pois que somos salvos gratuitamente sem nenhum mérito de nossa parte, que necessidade há de outra cousa senão desta fé só, que Deus Pai enviou seu Filho, para tirar a danação da Lei, imputar-nos seu mérito, e assim diante d'Êle nos justificar, e nos absolver dos pecados pela declaração de um Sacerdote, e então nos dar o Espírito Santo, que opera todo bem em nós? Estas cousas não são conformes com a razão?" A multidão de assistentes aplaudia estas palavras. Eu as ouvia e não podia responder, porque estava estendido quase morto; mas depois de três dias e meio, meu espírito retomou suas forças, e eu saí, quanto a meu espírito, da praça e fui à Cidade, e disse de novo: "Fazei Penitência e crede no Christo, e vossos pecados serão remidos, e vós sereis salvos; senão perecereis; o Senhor mesmo não pregou a penitência para a remissão dos pecados, e que se cresse n'Ele? Não ordenou aos discípulos que pregassem a mesma cousa? Uma completa segurança de vida não é a conseqüência do dogma de vossa fé?" Eles disseram, porém: "0 que significa esta verbiagem? 0 filho não satisfez? 0 Pai não imputou esta satisfação do homem, e não nos justificou, a nós que cremos nisso? Não somos assim conduzidos pelo Espírito da graça? Desde então o que é o pecado em nós? Desde então o que é que a morte tem de comum conosco? Compreendes êste Evangelho, tu, pregador do pecado e da penitência?" Mas então saiu uma voz do Céu que disse: "0 que é a fé do impenitente, senão uma fé morta? 0 fim vem, o fim vem sobre vós, que estais em segurança, irrepreensíveis aos vossos olhos, justificados na vossa fé, satanases!" E no mesmo instante um abismo se abriu no meio da cidade, e aumentou, e as casas caíram umas sobre as outras e foram engolidas; e em breve saiu dêste vasto abismo uma água borbulhante e inundou esta devastação. Quando foram assim submergidos e que os vi inundados, desejei saber qual era a sua sorte no abismo; e me foi dito do Céu: "Tu vais ver e ouvir". E então as águas com que os vimos inundados desapareceram de diante dos meus olhos, pois as águas no Mundo Espiritual são Correspondências, e aparecem por isso em torno daqueles que estão nos falsos; e então os vi no fundo arenoso onde havia montões de pedras, entre as quais eles corriam; e se lamentavam por terem sido precipitados e sua grande Cidade; e diziam, vociferando e gritando: "Por que nos aconteceu isso? Por nossa fé não somos nós limpos, puros, justos, santos? Por nossa fé não fomos nós limpos, purificados, justificados e santificados?" E outras diziam: "Por nossa fé não nos tomamos tais, que seremos diante de Deus Pai reputados e considerados, e, diante dos Anjos declarados como limpos, puros, justos e santos? Não obtivemos a reconciliação, a propiciação, a expiação, e por isso não fomos absolvidos, lavados e limpos dos pecados? A danação da Lei não foi retirada pelo Christo? Por que então fomos lançados aqui como danados? Ouvimos gritar em nossa grande Cidade por um audacioso pregador do pecado: Crede no Christo e fazei penitência; será que não cremos no Christo crendo em seu mérito? e não fizemos penitência, quando confessamos que éramos pecadores? Por que nos aconteceu esta desgraça?" Mas então ouviu-se sobre o lado uma voz que lhes dizia: "Conheceis um só dos pecados em que estais? Examinastes-vos jamais? Fugistes por conseqüência de algum mal como pecado contra Deus? Ora, aquele que não foge de um mal como pecado, está nesse mal. 0 pecado não é o diabo? Sois portanto do número daqueles de quem o Senhor disse: "Então começareis a dizer: Comemos diante de Ti, e bebemos, e em nossas praças Tu ensinaste. Mas Êle dirá: Eu vos digo, que não sei de onde sois, retira!-vos de mim todos vós, obreiros da iniqüidade" (Lucas XIII, 26, 27); como também do número daqueles de que se fala em Mateus VII, 22, 23. Ide pois embora, cada um para seu lugar; vereis aberturas nestas cavernas, entrai nelas; e aí será dada a cada um a sua tarefa a cumprir; e então cada um receberá alimento à proporção de seu trabalho; senão a fome vos forçará sempre a entrar". Em seguida uma voz do Céu se fêz ouvir, aí, sobre esta terra, a alguns que tinham estado fora desta grande Cidade, e dos quais também se fala no Apoc. Cap. 11, 13; e ela lhes disse altamente: "Guardai-vos, guardai-vos da consorciação com semelhante gente; não podeis compreender que os males que são chamados pecados e iniqüidade, tornam o homem imundo e impuro? Como o homem pode ser lavado e purificado de outro modo que não seja pela penitência efetiva e pela fé no Senhor Jesus Christo? A penitência efetiva consiste em se examinar, em conhecer e reconhecer seus pecados, em se confessar culpado, em confessá-los perante o Senhor, em implorar socorro e o poder de resistir a eles, e assim em se abster e em levar uma vida nova, e em fazer tudo isso como por vós mesmos; faze! assim uma ou duas vezes por ano, quando v.os aproximais da Santa Comunhão; e depois quando os pecados, de que vos confessastes culpados, voltarem, dizei a vós mesmos: Nós não queremos fazer semelhantes cousas, porque são pecados contra Deus; eis o que é a Penitência efetiva. Quem não pode compreender que aquele que não se examina e não vê seus pecados, permanece nesses pecados? Com efeito, todo mal por nascença é um prazer, pois é um prazer vingar-se, cometer escortação, roubar, blasfemar, e sobretudo dominar pelo amor de si. Não é o prazer que faz com que não se veja o mal nessas ações, e se acontece que se diga que são pecados, o prazer que sentis neles não vos faz desculpá-los? Mais ainda, recorreis aos falsos para vos confirmar que não são pecados; e assim permaneceis nesses pecados, e depois os cometeis mais do que antes; e isso a ponto de não saber o que é pecado, nem mesmo se existe. E' completamente diferente para aquele que faz penitência efetiva; seus males, que êle conhece e reconhece, chama-os de pecados; e por esta razão começa a fugir deles, e a tê-los em aversão, e por fim a achar desagradável o prazer desses inales, e quanto mais isso acontece, mais ama os bens, e por fim sente prazer neles, que é o prazer dos Anjos do Céu; em uma palavra, quanto mais o homem rejeita para trás de si o diabo, tanto mais é adotado pelo Senhor, e é por Ele instruído, conduzido, afastado dos males e mantido nos bens; eis o caminho, e não há outro para ir do Inferno ao Céu". E' uma cousa admirável que os Reformados tenham enxertado em si, pela Penitência efetiva, uma espécie de repugnância, de hesitação e de aversão, que é tão grande, que não podem se resolver nem a se examinar, nem a ver seus pecados, nem a confessá-los diante de Deus; uma espécie de horror se apodera deles quando se propõem a fazê-lo; interroguei vários sobre êste assunto no Atando Espiritual, e todos me disseram que estava acima de suas forças. Quando souberam que entretanto os Católico-Romanos o fazem, isto é, se examinam e confessam abertamente seus locados diante de um Monge, ficaram extremamente admirados, e tanto mais que os Reformados não podem fazê-lo secretamente diante de Deus, ainda que isso lhes seja igualmente ordenado antes de se aproximarem da Santa Ceia; e alguns dos que estavam presentes procuravam a razão disso, e acharam que a Fé só era a causa desse estado de impenitência e desta disposição de coração; e então lhes foi dado ver que aqueles dos Católico-Romanos que adoram o Christo, e não invocam os santos, são salvos. Depois disso, ouviu-se como um trovão, e uma voz que, falando do Céu, dizia: "Estamos admirados; dize à Assembléia dos Reformados: Crede no Christo e fazei penitência, e sereis salvos". E eu o disse, e acrescentei: "0 Batismo não é um Sacramento de Penitência, e por isso a introdução na Igreja? Que prometem os padrinhos por aquele que vai ser batizado, senão renunciar ao diabo e às suas obras? A Santa Ceia não é um Sacramento de Penitência, e por isso a introdução no Céu? Não se diz aos comungastes que façam inteira penitência antes de se aproximarem dela? 0 Catecismo, Doutrina Universal da Igreja Cristã, não ensina a penitência? Não se diz nos seis preceitos da Segunda Tábua: Não farás tal e tal mal? e não se diz: Farás tal e tal bem. Por aí podeis saber que, quanto mais alguém renuncia ao Mal e o detesta, tanto mais se afeiçoa e ama o Bem, e que antes êle não sabia o que é o Bem, nem mesmo o que é o Mal".
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