0 Pensamento a ninguém é imputado, mas a Vontade è imputada.
658 - Todo homem Erudito sabe que há duas faculdades ou duas partes da Mente, a Vontade e o Entendimento, mas há poucos que saibam com justeza discerni-los, examinando-lhes separadamente as propriedades, e em seguida conjuntando-as; os que não o podem, não podem também adquirir sobre a mente senão uma noção muito obscura; se portanto as propriedades que cada uma destas faculdades têm por si mesmas não são descritas primeiro, esta proposição, de que o pensamento não é imputado a pessoa alguma, mas que a vontade é imputada, não será apreendida. As propriedades de uma e de outra são, em resumo, estas: 1) 0 Amor mesmo, e as cousas que pertencem ao amor, residem na vontade; a ciência, a inteligência e a sabedoria residem no entendimento, e a vontade lhes inspira seu amor, e produz o favor e o assentimento; resulta daí que tal é o amor e por conseguinte a inteligência, tal é o homem. 2) Daí resulta ainda que todo bem, e também todo mal, pertencem à vontade; com efeito, tudo o que procede do amor é chamado bem, quando mesmo seja o mal, pois o prazer que faz a vida do amor produz isso; a vontade por este prazer entra no entendimento e produz o consentimento. 3) A Vontade é portanto o ser ou a essência da vida do homem, e o Entendimento é o seu existir ou a existência; e como a essência nada é se não está em uma forma, do mesmo modo a vontade nada é se não está no entendimento; por isso a vontade se forma no entendimento, e assim se produz na luz. 4) 0 Amor na vontade é o fim, e no entendimento procura e encontra as causas pelas quais avança para o efeito; e como o fim é o que a gente se propõe e o que se tem em intenção, êle é também o que se propõe a vontade, e pela intenção entra no entendimento, e o leva a torcer e retorcer os meios, e a concluir coisas que tendam aos efeitos. 5) Todo próprio do homem está na vontade, e êste próprio é o mal pelo primeiro nascimento, e se toma o bem pelo segundo; o primeiro nascimento vem dos pais, mas o segundo vem do Senhor. Por esta exposição sumária pode-se ver que, uma é a propriedade da Vontade, e outra a do Entendimento, e que por criação elas foram conjuntas como o ser e o existir; que por conseqüência o homem é homem em primeiro lugar pela vontade, e em segundo lugar pelo entendimento; daí vem que ao homem é imputada a vontade, mas não o pensamento, por conseqüência o mal e o bem, porque, como foi dito, o mal e o bem residem na vontade, e em conseqüência no pensamento do entendimento.
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