VRC &694

A Verdadeira Religião Cristã
Emanuel Swedenborg
Contendo toda a teologia da Nova Igreja

- Terceiro Memorável (N. 72). Algum tempo depois, dirigi o olhar para a cidade de Atenas, de que se disse alguma cousa no primeiro Memorável, e ouvi, vindo de lá, um clamor extraordinário; e havia nele alguma cousa do riso, no riso alguma coisa de indignação, e na indignação alguma cousa de tristeza; entretanto êste clamor não era por isso dissonante, mas havia consonância, porque não era iam som com uni outro, mas era um som dentro do outro; no Mundo espiritual percebe-se distintamente no som a variedade e a mistura das afeições. Perguntei de longe o que eras isso; e me disseram: "Chegou um mensageiro do lugar onde aparecem primeiro os recém-vindos do Mundo Cristão, dizendo que lá tinha sabido de Três recém-vindos, que no Mundo de onde chegaram, acreditavam, como todos os outros,, que os que gozassem da ventura e da felicidade estariam em um repouso completo sem trabalho algum, e haveria repouso em relação a estes Encargos; e como êstes três Noviços acabavam de ser trazidos por nosso Emissário, e estão à porta e esperam, um. clamor se elevou, e depois de ter deliberado, decidiu-se que eles seriam Introduzidos, não no Palladium sobre o Parnaso, como os precedentes, mas no grande Auditório, para ai fazer conhecer suas Novidades do Mundo Cristão; e alguns de nós foram designados para os introduzir com solenidade". Como eu estava em espírito, e como para os espíritos as distâncias são segundo o estado de suas afeições; e como então eu tinha a afeição de os ouvir, vi-me lá presente, e os vi serem introduzidos e os ouvi falar. Os mais Antigos ou os mais Sábios sentaram-se no Auditório sobre os lados, e todos os outros estavam no meio; e diante dêstes havia um estrado; foi para ai que os três recém-vindos com o mensageiro, acompanhados solenemente pelos mais jovens, foram conduzidos através do meio do Auditório; e quando se fêz silêncio, foram saudados por um dos mais Antigos, e êste lhes, perguntou: "Que há de novo na Tema? E eles disseram: "Há muitas novidades, peço-te pois que digas sobre que assunto". E o Antigo respondeu: "0 que há de novo na terra a respeito de nosso Mundo e do Céu?" Responderam: "Chegando muito recentemente a este Mundo, soubemos que aqui e no Céu há Administrações, Cargos, Funções, Comércios, Estudos de ciências, e Ocupações admiráveis; e entretanto tínhamos acreditado que depois de nossa emigração ou translação do Mundo natural para o Mundo espiritual, entraríamos em um repouso eterno sem trabalho algum; ora, o que são as funções senão trabalho?" Então o Antigo lhes disse: "Será que pelo repouso eterno sem trabalho algum entendeis uma eterna ociosidade, na qual estareis continuamente sentados e deitados, aspirando as delícias pelo peito, e sorvendo as alegrias pela boca?'' A estas palavras os três recém-vindos sorriram ligeiramente dizendo que tinham figurado alguma coisa semelhante; e então lhes fizeram esta pergunta: "0 que as alegrias e as delícias, e por conseguinte a felicidade, tem de comum com a ociosidade? Pela ociosidade a mente se abate e não se estende, ou então o homem cai em um estado de morte e não é vivificado; suponha-se alguém em uma ociosidade completa, com os braços cruzados, com os olhos abaixados ou levantados, e suponha-se que esteja ao mesmo tempo cercado por uma atmosfera de alegria, não se apoderaria dêle um torpor profundo, assim como de sua cabeça e de seu corpo, não se extinguiria a expansão vital da face, e por fim as fibras se relaxando não vacilariam cada vez mais até que êle caísse por terra? o que é que mantém em expansão e em tensão o sistema de todo corpo, senão a contenção do espírito (anima)? E de onde vem a contenção do espírito, senão das cousas a administrar e das ocupações, quando nos entregamos a elas com prazer? Por isso eu vos comunico uma Novidade do Céu, é que lá, há administrações, ministérios, tribunais grandes e pequeno, e também ofícios e ocupações". Quando os três recém-vindos ouviram dizer que no Céu havia Tribunais grandes e pequenos, disseram: "Por que esses Tribunais? Será que todos no Céu não são inspirados e conduzidos por Deus, e por conseguinte sabem o que é o justo e o direito? Que necessidade há então de juízes?" E o Sábio Antigo respondeu: "Neste Mundo nos ensinam e nós aprendemos o que é o bem e o vero, e também o que é o justo e o eqüitativo, como no Mundo natural, e nós o aprendemos não imediatamente de Deus, mas mediatamente pelos outros; e todo Anjo, do mesmo modo que todo homem, pensa o vero e faz o bem como por si mesmo; e isto, segundo o estado do Anjo, é misturado e não puro; e entre os Anjos há também simples e sábios, e os sábios devem julgar, quando os simples por simplicidade e por ignorância estão na dúvida sobre o justo ou se afastam dêle. Mas vós, pois que sois recentemente chegados a êste Mundo, segui-nos até à nossa cidade, se isso vos agrado e nós vos mostraremos tudo". E saíram do Auditório, e alguns dos antigos Sábios os acompanharam também; e primeiro entraram em uma vasta Biblioteca que era, segundo as ciências, dividida em Bibliotecas menores; os três recém-vindos, vendo tantos livros, ficaram muito admirados, e disseram: "Também há Livros neste Mundo! Onde se arranja o pergaminho e o papel? De onde tirais as penas e a tinta?" Os Antigos lhes responderam: "Percebemos que acreditastes, no Mundo de onde viestes, que êste Mundo aqui era, vazio, porque é espiritual; e se acreditastes nisso, é porque mantivestes a respeito do espiritual uma idéia abstrata do material; e o que é abstrato do material vos parecia como nada, assim como vazio; e entretanto aqui está a plenitude de tôdas as cousas; aqui todas as cousas são substanciais e não materiais, e as coisas materiais tiram sua origem das substanciais; nós que estamos aqui somos homens espirituais, porque somos substanciais e não materiais; daí vem que aqui há em sua perfeição todas as cousas que existem no Mundo natural, mesmo livros e escrituras, e muitas outras cousas ainda". Quando os três recém-vindos ouviram falar de coisas substanciais, pensaram que isso devia ser assim, tanto porque haviam visto os Livros escritos, como porque tinham ouvido esta sentença, que os materiais vêm originariamente dos substanciais. Para que fossem ainda confirmados nestas verdades, foram conduzidos às Residências dos escreventes que copiavam exemplares de obras compostas pelos Sábios da cidade, e examinaram as escrituras, e ficaram admirados de vê-Ias tão nítidas e tão brilhantes. Em seguida foram conduzidos aos Museu, Ginásios e Colégios, e aos lugares onde se realizavam seus Jogos literários, dos quais alguns eram chamados jogos dos Heliconides; outros, jogos dos Parnassides; outros, jogos dos Ateneides; e outros, jogos das Virgens da Fonte; disseram-lhes que êstes são assim chamados, porque as Virgens significam as afeições das ciências, e que cada um tem inteligência segundo a afeição das ciências; os Jogos assim chamados eram exercícios e lutas espirituais. Em seguida foram conduzidos, na cidade, à presença dos Governadores, dos Administradores e de seus Oficiais, e por êstes às obras maravilhosas que são executadas de uma maneira espiritual por artistas. Depois que viram tudo, o Sábio antigo conversou de novo com eles sobre o repouso eterno do trabalho, em que vivem aqueles que gozam da beatitude e da felicidade depois da morte, e lhes disse: "0 Repouso eterno não é a ociosidade, porque da ociosidade resulta para a mente, e por conseguinte para todo o corpo, o langor, o entorpecimento, o estupor e a apatia, e isso é a morte e não a vida, e ainda menos a vida eterna, em que estão os Anjos do Céu; por isso o repouso eterno é um repouso que afasta estes inconvenientes e faz com que o homem viva; e não é outra causa senão o que eleva a. mente; é portanto um estudo e uma obra pelos quais a mente é excitada, vivificada e alegrada; e isso se faz segundo o uso pelo qual e para o qual se opera; daí vem que todo o Céu é encarado pelo Senhor como o continente dos usos; e cada Anjo é Anjo segundo o uso que faz; o prazer do uso o impele como uma corrente favorável arrasta o navio, e faz com que esteja em uma paz eterna, e no repouso da paz; é assim que é entendido o repouso eterno dos trabalhos. Que o Anjo seja vivificado segundo o estudo da mente pelo uso, isso é bem evidente pelo fato de que cada Anjo tem o Amor conjugal com sua força, sua potência e suas delícias, segundo o estudo do uso real em que está''. Depois que estes três recém-vindos foram confirmados em que a repouso eterno é, não a ociosidade, mas o prazer de fazer alguma cousa que seja para o uso, algumas Virgens vieram com bordados e filés, obras de suas mãos, e lhes fizeram presente disso; e quando estes espíritos noviços se retiraram, as Virgens cantaram uma ode, pela qual exprimiam com uma melodia angélica a afeição das obras do uso com seus encantos.

📚 Versão Impressa

Para estudo mais confortável, adquira esta obra em formato impresso.