- Quinto Memorável (N. 74). Um dia, supliquei ao Senhor que me fosse permitido falar com Discípulos de Aristóteles, e ao mesmo tempo com Discípulos de Descartes e Discípulos de Leibnitz, com o fim de aurir as opiniões de suas mentes sobre o Comércio da Alma e do Corpo; depois de minha súplica, apresentaram-se nove Homens, três Aristotelianos, três Cartesianos, e três Leibnitzianos, e se puseram em torno de mim, à esquerda os adoradores de Aristóteles, à direita os sectários de Descartes, e atrás, os cooperadores de Leibnitz; ao longe, a uma certa distância, e separados por intervalos, vi três homens que pareciam coroados de louro, e por uma percepção que influía do Céu, reconheci que eram os Chefes ou os Mestres mesmos; por trás de Leibnitz estava alguém que segurava o pano de sua túnica, e me foi dito que era Wolf. Estes nove homens se olharam mutuamente, saudaram-se a princípio com um tom polido, o se puseram a conversar. Mas em breve se elevou dos Infernos um Espírito com uma pequena tocha na mão direita, e a agitou diante de suas faces; desde então eles se tornaram inimigos, três contra três, e se olharam com ar ameaçador; com efeito, o furor de contradizer e de disputar tinha se apoderado dêles; e então os Aristotelianos, que eram também Escolásticos, começaram dizendo: "Quem não vê que os objetos influem pelos sentidos na alma, da mesma maneira que um homem entra pela porta no quarto, e que a Alma pensa segundo o Influxo? Quando um Amante vê sua jovem Amante ou sua Noiva, seus olhos não faíscam, e não levam seu amor à alma? Quando um Avarento vê bolsas cheias de prata, seus Sentidos não o inflamam, e em conseqüência não levam esta chama à alma, e não excitam nela um ardente desejo de possuí-Ias? Quando um Orgulhoso ouve louvores de alguém, não escuta atentamente, e seus ouvidos não levam estes louvores à alma? Os Sentidos do corpo não são como vestíbulos pelos quais unicamente se faz a entrada para a alma? Quem pode, por isto e mil outros exemplos semelhantes deixar de concluir que o influxo vem da natureza ou é físico?" Os Sectários de Descartes, que mantinham os dedos abaixo da testa, e que então os retiraram, responderam ia êstes argumentos, dizendo: "Ai de nós! Falais pelas aparências; não sabeis que não é por si mesmo, mas pela alma, que o olho ama a jovem Amante ou a Noiva? Que não é tampouco por eles mesmos, mas pela Alma, que os Sentidos do corpo desejam ardentemente as bolsas de prata? Que do mesmo modo os ouvidos não apreendem tampouco de outro modo os louvores dos bajuladores? Não é a percepção que faz sentir, e a percepção não pertence à alma e não ao órgão? Dizei, se puderdes, há outra coisa que não seja o pensamento, que faça falar a língua e os lábios? E outra cousa que não seja a vontade que faça agir as mãos? Ora, o, pensamento e a vontade não pertencem à Alma? Por conseqüência, há outra cousa que não seja a Alma, que faça com que o olho veja, os ouvidos ouçam, e todos os outros órgãos sintam, estejam atentos e se voltem para os objetos? Por estes argumentos e mil outros semelhantes, quem se eleva pela sabedoria acima dos sensuais do corpo, conclui que não há um influxo do corpo na alma, mas que há um influxo da Alma no Corpo, influxo que chamamos ocasional, e também espiritual". Os três Homens que estavam atrás das tríades precedentes, e que eram adeptos de Leibnitz, tendo ouvido estas palavras, elevaram a voz, dizendo: "Ouvimos os argumentos apresentados por uma parte e outra, e os comparamos, e percebemos que em vários pontos os segundos prevalecem sobre os primeiros, e que em vários pontos os primeiros prevalecem sobre os segundos; se permitirdes, pois, vamos pôr-vos de acordo". Interrogados como, responderam: "Não há nem influxo do Corpo na Alma, nem influxo da Alma no Corpo, mas há uma operação unânime e instantânea de um e de outro juntos, operação que o nosso célebre Autor assinalou por um belo nome, chamando-a de Harmonia pré-estabelecida". Depois desta discussão (o mesmo Espírito apareceu de novo com uma pequena tocha na mão, mas agora a tinha na mão esquerda, e a agitou por trás de seus occiputes; em conseqüência as idéias de todos se tornaram confusas, e eles exclamaram em conjunto: "Em que partido nos alistaremos? a nossa alma nem o nosso corpo não o sabem; decidamos pois a questão pela sorte, e aderiremos à Sorte que sair primeiro". E tomaram três pequenos bilhetes, e escreveram sobre um Influxo físico, sobre o outro, Influxo espiritual, e sobre o terceiro Harmonia pré-estabelecida; e puseram os três no fundo de um boné; e escolheram um dentre eles para tirar; e êste tendo metido a mão tirou o bilhete sobre o qual estava escrito Influxo espiritual; êste bilhete tendo sido visto e lido, todos disseram, uns entretanto com som claro e corrente, os outros com um som obscuro e contraído: "Adotemos o Influxo espiritual, pois que saiu primeiro". Mas imediatamente um Anjo se apresentou e disse: "Não acrediteis que o bilhete do Influxo :espiritual tenha saído por acaso, mas é porque foi provido assim; vós, com efeito, porque estais com idéias confusas, não vedes a verdade dêste influxo, mas a Verdade se apresentou por si mesma, e isso para aderirdes a ela''.
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