Texto
. Que ‘embriagou-se’ signifique que daí caiu em erros, vê-se pela significação de ‘ébrio’ na Palavra. São chamados ‘ébrios’ os que em nada creem senão no que compreendem e, por isso, investigam os mistérios da fé. Visto que fazem isso pelas coisas dos sentidos por meio de conhecimentos ou da filosofia, o homem, sendo como é, não pode deixar de cair em erros. O pensamento do homem é somente terrestre, corpóreo e material, porque vem de coisas terrestres, corpóreas e materiais que continuamente se aderem e nas quais se fundamentam e terminam as ideias de seu pensamento. Por isso, pensar e raciocinar por elas a respeito das coisas Divinas é levar-se a erros e perversões; e é tão impossível adquirir a fé daí como ‘o camelo passar pelo orifício de uma agulha’. O erro e a insanidade que vêm daí são chamados, na Palavra, ‘embriaguez’. De fato, também as almas ou espíritos na outra vida que raciocinam sobre os veros da fé e contra eles se tornam como ébrios e agem de modo semelhante; deles se falará na sequência, pela Divina Misericórdia do Senhor.
[2] Os espíritos são claramente discernidos quanto a estarem ou não na fé da caridade. Os que estão na fé da caridade não raciocinam sobre os veros da fé, mas dizem que assim é, e também o confirmam pelos sentidos, pelos conhecimentos e por razão analítica o quanto podem. Mas assim que intervém algo obscuro que eles não percebem, eles o rejeitam e nunca admitem que isso lhes traga dúvida, dizendo que há pouquíssimas coisas que não podem compreender e, por esse motivo, pensar que não é verdadeiro porque não o compreendem é loucura. Estes são os que estão na caridade. O contrário, porém, são os que não estão na fé da caridade; esses querem somente raciocinar se algo assim é, e saber de que maneira se dá, dizendo que, a menos que possam saber de que maneira se dá, não podem crer que assim é. Por isto, somente, logo se reconhece que eles não estão em fé alguma, e é um indício de que não somente duvidam de tudo, mas, também, o negam em seu coração; e, quando são instruídos de que maneira se dá, ainda assim persistem, e movem contra isso todas as objeções [scrupulos] e nunca se aquietam, ainda que fosse na eternidade. E os que assim persistem acumulam erros sobre erros. São esses, ou os tais, que são chamados na Palavra ‘ébrios de vinho ou bebida forte’, como em Isaías:
“Estes erram pelo vinho, e pela bebida forte se desviam; o sacerdote e o profeta erram pela bebida forte, são absorvidos pelo vinho; erram pela bebida forte, erram na visão; ... todas as mesas estão cheias de vômito e de sujidade. ... A quem [ele] ensinará a ciência e a quem fará entender o ensino? Aos desmamados do leite, aos tirados dos peitos” (28:7–9);
que tais pessoas se entendam aqui é evidente. No mesmo:
“Como dizeis ao faraó: Filho dos sábios eu [sou], filho dos reis da antiguidade? Onde [estão] agora os teus sábios? e que os indiquem, peço. ... JEHOVAH misturou no meio dela um espírito de perversidade, e fizeram errar o Egito em toda a sua obra, como um ébrio erra no vômito seu” (Is. 19:11–12, 14);
o ‘ébrio’ está em lugar daqueles que pelos conhecimentos querem investigar as coisas espirituais e celestes; o ‘Egito’ significa os conhecimentos, pelo que também se chama ‘filho dos sábios’. Em Jeremias:
“Bebei e embriagai-vos; e vomitai, e caí, e não reergais” (25:27);
em lugar dos falsos.
[4] Em Davi:
“Volteiam e cambaleiam como um ébrio, e toda a sabedoria deles é absorvida” (Sl. 107:27);
em Isaías:
“Vinde! Tomarei vinho, e nos embriagaremos com bebida forte; e haverá, amanhã como este dia, grande abundância” (56:12);
dito daqueles que são contra os veros da fé. Em Jeremias:
“Todo odre se encherá de vinho; todos os habitantes de Jerusalém de embriaguez” (13:12–13);
o ‘vinho’ está em lugar da fé, a ‘embriaguez’ em lugar dos erros. Em Joel:
“Despertai-vos, ébrios e chorai! E gemei, todos os que bebeis vinho, por causa do mosto, porque foi cortado da vossa boca. Porque uma nação sobe sobre a Minha terra; ... põe a Minha videira em desolação” (1:5–7);
aí se trata da igreja devastada quanto aos veros da fé. Em João:
“Babilônia, ... do vinho da ira da escortação deu de beber a todas as nações; ficaram embriagados com o vinho da sua escortação todos os que habitam a terra” (Ap. 14:8, 10; 16:19; 17:2; 18:3; 19:15);
o ‘vinho da escortação’ está em lugar dos veros da fé adulterados, aos quais se atribui a ‘embriaguez’. Semelhantemente, em Jeremias:
“Um cálice de ouro [foi] Babel na mão de JEHOVAH, embriagando toda a terra; do vinho dela beberam as nações, por isso as nações enlouqueceram” (51:7).
[5] Como a ‘embriaguez’ significava as insanidades a respeito dos veros da fé, ela se tornou também representativa e foi proibida a Aharão e a seus filhos, assim:
“Aharão e seus filhos não beberão vinho e bebida de embriaguez quando entrarem na tenda, para não morrerem, para discernirem entre o santo e o profano, o imundo e o limpo” (Lv. 10:8, 9).
Aqueles que não creem senão no que compreendem pelas coisas sensuais e pelos conhecimentos são também chamados ‘heróis para beber’, em Isaías:
“Ai dos sábios aos seus próprios olhos e inteligentes diante das suas faces! Ai dos heróis para beberem vinho, e varões fortes para misturarem bebida forte!” (5:21, 22);
são chamados ‘sábios aos seus próprios olhos e inteligentes diante das suas faces’ porque aqueles que raciocinam contra os veros da fé acham que sabem mais do que os outros.
[6] Aqueles, porém, que em nada se importam com a Palavra e os veros da fé, e, assim, nada querem saber a respeito da fé, negando, assim, seus princípios, são chamados ‘ébrios sem vinho’, em Isaías:
“Ébrios estão, mas não de vinho; titubeiam, mas não de bebida forte; pois JEHOVAH derramou sobre vós um espírito de torpor e obstruiu os vossos olhos” (29:9–10).
Que eles sejam assim, vê-se pelo que precede e pelo que segue no Profeta. Esses ébrios se acham mais despertos do que os outros, mas estão num grande torpor. Que a Igreja Antiga tenha sido, no princípio, como se descreve nesse versículo, principalmente os que foram da raça da Antiquíssima Igreja, pode-se ver pelo que foi dito anteriormente, no n. 788.