Texto
. ‘E disse: A voz [é] a voz de Jacó, e as mãos, mãos de Esaú’; que signifique que o intelectual aí pertence ao vero que está por dentro, mas o voluntário aí pertence ao bem que está por fora, assim, em ordem invertida, é o que se vê pela predicação da ‘voz’, que é a respeito do vero, e pela predicação da ‘mão’, que é a respeito do bem; que ‘voz’ seja predicada do vero, é evidente pelas coisas que foram referidas na Primeira Parte (n. 219, 220) e por isso, que se diga “a voz [é] a voz de Jacó”, por quem, que seja representado o vero natural, foi demonstrado aqui e ali; e que a ‘mão’ seja predicada do bem, é porque a ‘mão’ significa o poder e a faculdade (n. 879, 3542), que vêm não de outro lugar senão do bem. Todo poder e toda faculdade pelo vero vêm dali, ainda que apareçam pelo vero. [É evidente] também a partir disso: que se diga “as mãos, mãos de Esaú”, por quem, que seja representado o bem, também foi demonstrado acima. Que esse bem e esse vero estejam em ordem invertida, é evidente por isso, que é segundo a ordem que o bem, que pertence à vontade, esteja por dentro, e o vero, que pertence ao entendimento, esteja por fora; mas essas coisas, como dito acima, são tais que, porque poucos estão em alguma cognição a respeito delas, não podem ser expostas de modo a se compreender, pois ainda que fossem expostas de modo muitíssimo claro, mesmo assim não seriam compreendidas quando falta a cognição; mas ainda assim, cumpre dizer o modo como a coisa acontece, já que se trata deste assunto.
[2] O bem do natural não existe de outro lugar no homem senão do bem interior, isto é, procede do bem do racional; o natural não tem o bem de outra parte, é evidente; mas o influxo faz que aí o bem seja tal qual é o [natural]; e porque o bem do natural não vem de outra parte, o vero do natural também vem daí, visto que onde está o bem, ali está o vero. É necessário que haja um e outro para que alguma coisa exista, mas o influxo faz que ali o vero seja tal qual é [o natural]. Eis qual é o influxo: o bem do racional influi no natural por um duplo caminho, a saber, por um caminho muito curto no bem mesmo do natural, assim, imediatamente, e por meio do bem do natural ali no vero. É esse bem e esse vero que são representados por ‘Esaú’ e por ‘sua caça’. O bem do racional influi também no natural por um caminho menos curto, a saber, por meio do vero do racional, e por esse influxo ele forma alguma coisa semelhante ao bem, mas é um vero.
[3] Segundo a ordem acontece assim: que o bem do racional influi no bem do natural e, ao mesmo tempo, no vero imediatamente, e também pelo vero do racional no bem ali, assim, mediatamente; semelhantemente, no vero do natural imediata e mediatamente. Quando assim acontece, então o influxo é segundo a ordem. Tal influxo existe nos que foram regenerados; porém, antes que tenham sido regenerados, o influxo é outro, como dito acima, a saber, que o bem do racional não influa imediatamente, mas mediatamente por meio do vero racional, e assim apresenta alguma coisa semelhante ao bem no natural; mas não é um bem genuíno, e o vero que daí provém não é um vero genuíno, é entretanto tal que, na realidade tem intimamente o bem por causa do influxo por meio do vero do racional, mas não mais. Por isso também o bem aí existe sob uma outra forma, a saber, por fora como o bem que é representado por ‘Esaú’, mas por dentro como o vero que é representado por ‘Jacó’, que porque não é segundo a ordem, diz-se estar em ordem inversa. Mas, ainda assim, relativamente a isto, que entretanto o homem não possa ser regenerado de outra maneira, é segundo a ordem.
[4] Sei que essas coisas, embora tenham sido ditas claramente, e consequentemente podem ser percebidas claramente por aqueles que estão na cognição de tais coisas, são contudo obscuras diante daqueles que não sabem o que é o influxo, e mais obscuras para os que não sabem que o racional é distinto do natural, e ainda mais obscuras diante daqueles que não têm ideia alguma distinta do bem e do vero. Mas qual seria o bem natural e o vero natural nesse estado antes da regeneração, só pode ser manifesto a partir das afeições então. Quando o homem é afetado pelo vero não por causa dos fins da vida, mas por causa de outros fins, por exemplo, que se torne erudito, e isso a partir de uma certa afeição de fingimento, ou de uma certa afeição de inveja infantil, e também por uma afeição de glória, então o bem do natural e o vero do natural se acham em uma ordem tal qual esta que é aqui representada por ‘Jacó’, por conseguinte, está em uma ordem relativamente invertida, a saber, em que então o voluntário que pertence ao bem está por fora, e que o intelectual, que pertence ao vero está por dentro.
[5] Mas no estado após a regeneração, têm-se essas coisas de maneira diferente; então, não só o homem é afetado do vero por causa dos fins da vida, mas ainda é mais afetado pelo bem da vida, e as afeições anteriores, a saber, de fingimento, inveja infantil e de glória, se separam, e isso ainda que pareça, por assim dizer, que tenham sido dissipadas, visto que então o bem, que pertence à vontade, está por dentro, e o vero, que pertence ao entendimento, está por fora, mas sempre de modo que o vero faça um com o bem, porque ele provém do bem. Esta é a ordem genuína, e a ordem anterior tende a formar essa ordem, pois o voluntário, que então está por fora, admite muitas coisas que servem para a regeneração, é como uma esponja que absorve tanto as águas límpidas como as lamacentas; assim também admite coisas que de outro modo seriam rejeitadas e que, todavia, servem como meios e também para a formação das ideias a respeito dos bens e veros, além disso, para outros usos.