ac 3869

Emanuel Swedenborg
Obra: Arcanos Celestes – Gênesis Explicado

Texto

. ‘Porque JEHOVAH ouviu’; que signifique, no sentido supremo, a Providência, no sentido interno, a vontade da fé, no sentido interno, a obediência, no sentido externo, a audição, aqui, a fé pela vontade procedente do Senhor somente, é o que se vê pela significação de ‘ouvir’. Que ‘ouvir’ seja a audição, não tem necessidade de explicação; mas que ‘ouvir’, no sentido interior, seja a obediência, e no sentido interno, a fé pela vontade, foi visto por muitas passagens na Palavra de que se tratará, e também pela qualidade do ouvido [ou audição] relativamente à qualidade da vista [ou visão]. Que a ‘vista’, no sentido interior, seja o entendimento, e no sentido interno, a fé pelo entendimento, foi visto (n. 3863), e isto provém disto, que as coisas se apresentam pela vista interna tais quais elas são, assim são apreendidas por alguma fé, mas por uma fé intelectual; ora, as coisas que são ouvidas, quando penetram para os interiores, também se mudam no que é semelhante à vista, por isso que as coisas que se ouvem são vistas interiormente; o ouvido significa também então o que significa a vista, a saber, o que pertence ao entendimento, bem como o que pertence à fé, mas o ouvido ao mesmo tempo persuade que tal coisa é, e afeta não só a parte intelectual do homem, como também a sua parte voluntaria, e faz com que ele queira o que ele vê. Daí vem que ouvir significa o entendimento da coisa e, ao mesmo tempo, a obediência, e no sentido espiritual, a fé pela vontade.
[2] Como no ouvir há isto oculto, a saber, a obediência e a fé pela vontade, eis por que isso é também significado por ouvir, escutar e atender, na linguagem comum, pois ‘estar escutando’ é ser obediente, e ‘escutar alguém’ é também obedecer. Com efeito, os interiores da coisa estão algumas vezes assim nas palavras da linguagem do homem, e isso porque é o espírito do homem que pensa e percebe os sentidos das palavras da linguagem, e ele está em uma sorte de comunhão com os espíritos e os anjos, que estão nos princípios das palavras. Além disso, tal é no homem o círculo das coisas, que tudo que entra pela orelha e pelos olhos, ou pelo ouvido e pela vista, passa para seu entendimento, e pelo entendimento para a vontade, e pela vontade ao ato. O mesmo se passa com o vero da fé, ele se torna primeiro vero da fé pelo conhecimento, depois vero da fé pela vontade, e enfim vero da fé pelo ato, assim, caridade. A fé pelo conhecimento ou pelo entendimento é Rúben, como foi explicado; a fé pela vontade é Simeão; a fé pela vontade, quando ela se torna caridade, é Levi.
[3] Que ‘ouvir’, no sentido supremo, seja a Providência, isso se faz evidente pelo que se disse acima (n. 3863) sobre ‘ver’, que no sentido supremo significa a Previdência; porque, da parte do Senhor, Prever é ver de eternidade a eternidade que assim seja, mas, da parte do Senhor, Prover é governar para que assim seja, e voltar o livre do homem para o bem, o quanto prevê que o homem em seu livre se deixa voltar (ver n. 3854).
[4] Que, no sentido interior, por ‘JEHOVAH ouvir’, de onde Simeão foi nomeado, signifique a obediência, e no sentido interno, a fé pela vontade procedente do Senhor somente, é isso evidente por muitas passagens na Palavra, por exemplo por estas que seguem: Em Mateus:
“Eis uma voz vinda da nuvem dizendo: Este é o Meu Filho dileto, em Quem Me agrado, a Ele ouvi” (Mt. 17:5);
‘ouvi-Lo’ é ter fé n’Ele e obedecer aos Seus preceitos, assim, ter a fé pela vontade. Em João:
“Amém, amém, vos digo que vem a hora ... quando os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que ouvirem, viverão. Não vós admireis disto, pois vem a hora em que todos que [estão] nos túmulos ouvirão a voz d’Ele” (5:25, 28);
‘ouvir a voz do filho do homem’ é ter fé nas palavras do Senhor e querê-las; os que têm a fé da vontade, esses recebem a vida, por isso se diz “os que ouvirem viverão”.
[5] No mesmo:
“Quem entra pela porta, é o pastor das ovelhas; a este o porteiro abre, e as ovelhas ouvem a sua voz. ... E outras ovelhas tenho, que não são desse aprisco, também a elas Me convém trazer, e a Minha voz ouvirão, e haverá um só rebanho, e um só pastor; ... as Minhas ovelhas ouvem a Minha voz, e Eu as conheço e seguir-Me-ão” (João, 10:2, 3, 16, 27);
‘ouvir a voz’ é evidentemente obedecer pela fé da vontade. No mesmo:
“Todo aquele que é da verdade ouve a Minha voz” (João, 18:37);
igualmente. Em Lucas:
“Disse-lhe Abrahão: [Eles] têm Moisés e os Profetas, ouçam-nos; ...se a Moisés e aos Profetas não ouvem, nem mesmo se alguém dos mortos ressuscitasse não se persuadiriam” (16:29, 31);
‘ouvir Moisés e os Profetas’ é saber as coisas que estão na Palavra e ter fé nelas, por conseguinte, também querê-las, pois ter a fé sem o querer é ver e não ouvir; mas ter a fé com o querer é ter a fé e ouvir; tanto uma coisa como a outra pois, isto é, ver e ouvir, são muitas vezes empregadas juntas na Palavra, e por ‘ver’ é significado aquilo que é significado por Rúben, e ‘ouvir’ o que é significado por Simeão, porque as coisas que significam ver e ouvir foram conjuntas assim como um irmão a outro irmão.
[6] Que ‘ver’ e ‘ouvir’ se digam conjuntamente, vê-se por estas passagens: Em Mateus:
“Por isso lhes falo por parábolas, porque vendo não veem, e ouvindo não ouvem, nem entendem; e se cumpre neles a profecia de Isaías, que disse: De ouvido ouvireis, e não entendereis, e vendo vereis, e não discernis. Endurecido está o coração deste povo, e pelos ouvidos duramente ouviram, e os seus olhos fecharam, para que não vejam [com] os olhos e [com] os ouvidos ouçam e de coração entendam. ... Mas bem-aventurados são os vossos olhos porque veem e os vossos ouvidos porque ouvem. Amém vos digo, que muitos profetas e justos desejaram ver as coisas que vedes, mas não viram, e ouvir as coisas que ouvis, e não ouviram” (Mateus 13:13 a 17; João 12:40; Isaías 6:9).
Em Marcos:
“Disse Jesus aos discípulos: Por que disputais que pães não tendes? Não sois inteligentes, não entendeis? Ainda tendes o vosso coração endurecido? Tendo olhos não vedes, e tendo ouvidos não ouvis?” (8:17–18).
[7] Em Lucas:
“A vós é dado conhecer os mistérios do Reino de Deus. Aos outros, porém, em parábolas, para que vendo não vejam, e ouvindo não ouçam” (8:10).
Em Isaias:
“Serão abertos os olhos dos cegos, e serão abertos os ouvidos dos surdos” (35:5).
No mesmo:
“Então nesse dia os surdos ouvirão as palavras do livro, e, [libertos] da escuridão e das trevas, os olhos dos cegos verão” (Is. 29:18).
No mesmo:
“Surdos, escutai; e [vós] cegos, olhai vendo” (Is. 42:18).
No mesmo:
“Faze sair o povo cego que olhos terão, e os surdos que [terão] orelhas” (Is. 43:2).
No mesmo:
“Não pestanejaram os olhos dos que veem, e os ouvidos dos que ouvem escutarão” (Is. 32:3).
No mesmo:
“Sejam os teus olhos os que recebem os teus doutores, e os teus ouvidos ouçam a palavra” (Is. 30:20, 21).
No mesmo:
“Quem tapa a sua orelha para não ouvir a respeito de sangues, e fecha os seus olhos para que não vejam o mal, esse nos altos habitará” (Is. 33:15, 16).
Em Ezequiel:
“Filho do homem, no meio da casa da rebelião tu habitas, com os que [têm] olhos para ver mas não veem, que [têm] ouvidos pra ouvir, e não ouvem” (12:2).
Nessas passagens, ambas são empregadas, porque uma segue a outra, a saber, a fé pelo entendimento que é ver, e a fé pela vontade que é ouvir, de outro modo uma das expressões teria bastado; vê-se ainda claramente por esse modo a razão por que um filho de Jacó recebeu seu nome da palavra ver e outro da palavra ouvir.
[8] Que ‘ver’ signifique a fé pelo conhecimento ou pelo entendimento, e ‘ouvir’ signifique a fé pela obediência ou pela vontade, provém das correspondências na outra vida e, daí, das coisas significativas. Aqueles que são intelectuais e, por isso, estão na fé pertencem à província dos olhos, e os que estão na obediência e, portanto, na fé pertencem à província da orelha [ou ouvido]. Que isso seja assim é o que se verá pelas explicações que serão dadas, pela Divina Misericórdia do Senhor, no fim dos capítulos, sobre o Máximo Homem e sobre a correspondência que existe entre as coisas que estão no corpo humano.
[9] Daí vem, pois, que os ‘olhos’, no sentido interno, é o entendimento (n. 2701), e que ‘o ouvido’ [ou orelha] é a obediência, e no sentido espiritual, a fé que daí provém ou a fé pela vontade. É também o que se vê por estas passagens: Em Isaias:
“Também nem ouviste, também nem conheceste, também desde então não se abriu o teu ouvido” (48:8).
No mesmo:
“O SENHOR JEHOVIH incitará em mim o ouvido para ouvir, como os que são instruídos; ... o SENHOR JEHOVIHabriu-me o ouvido, e eu não me rebelei” (Is. 50:4, 5).
No mesmo:
“Atendei, atendendo-Me, e comei bem, para que se deleite na gordura a vossa alma; inclinai o vosso ouvido, e ide a Mim, ouvi para que viva a vossa alma” (Is. 55:2, 3).
Em Jeremias:
“A quem falarei e atestarei, para que ouçam? eis incircunciso [está] o ouvido deles, e não podem escutar” (6:10).
No mesmo:
“Isto ordenei-lhes, dizendo: Ouvi a minha voz; então ser-vos-ei por Deus, e vós sereis a mim por povo, e não ouviram, nem inclinaram o seu ouvido” (Jr. 7:23, 24, 25).
No mesmo:
“Ouvi, mulheres, a palavra de JEHOVAH, e receba o vosso ouvido a palavra da boca d’Ele” (Jr. 9:19 [Em JFA, 9:20]).
No mesmo:
“Não inclinastes o vosso ouvido, e não obedecestes a Mim” (Jr. 35:15).
Em Ezequiel:
“Filho do homem, todas as minhas palavras que pronunciei para ti, recebe no teu coração, e com os teus ouvidos ouve” (3:10).
No mesmo:
“Porei o meu zelo contra ti, e agirão contigo com inflamação, tirarão o teu nariz e as tuas orelhas” (Ez. 23:25);
‘tirar o nariz e as orelhas’ é tirar a percepção do vero e do bem e a obediência da fé. Em Zacarias:
“Recusaram atender, e deram o ombro refratário, e os seus ouvidos pesaram, para que não ouçam, e tornaram o seu coração duro como diamante, para que não ouçam a lei” (7:11, 12).
[10] Em Amós:
“Assim disse JEHOVAH: Do mesmo modo que arrancaria um pastor da boca do leão duas pernas, ou uma pequena parte da orelha, assim também serão arrancados os filhos de Israel em Samaría, no ângulo da cama e na extremidade do leito” (3:12);
‘arrancar as duas pernas’ é a vontade do bem; uma ‘pequena parte da orelha’ é a vontade do vero; que a ‘pequena parte da orelha tenha essa significação, pode-se vê-lo somente, como se disse, pelas correspondências na outra vida, e, por conseguinte, pelas coisas significativas segundo as quais existe o sentido interno da Palavra, e também [segundo as quais existiram] os ritos na Igreja Israelita e Judaica; vem daí que pela inauguração de Aharão e de seus filhos no ministério, ordenou-se, entre outras coisas que
“Moisés tomasse do sangue de carneiro, e pusesse sobre a extremidade da orelha de Aharão, e sobre a extremidade da orelha dos filhos dele; e sobre o polegar da sua mão direita, e sobre o polegar do pé direito deles” (Êxodo, 29:20);
por esse rito era representada a vontade da fé, na qual como sacerdote ele seria também iniciado. Que esse rito fosse santo, é o que qualquer um pode ver, pois ser ordenado a Moisés por JEHOVAH, assim, pôr sangue sobre a ponta da orelha, era santo também. Mas que santo era esse, não é possível saber senão pelo sentido interno das coisas na Palavra, e aqui esse sentido é que o [estado] santo da fé proveniente da vontade seria guardado.
[11] Que o ‘ouvido’ [ou ‘orelha’] signifique a obediência, e, no sentido interno, a fé pela obediência, foi visto mais manifestamente ainda pelo rito sobre o servo que não queria sair do serviço; a esse respeito se fala assim em Moisés:
“Se o servo ou a serva não quiser sair do serviço, o seu senhor levá-lo-á a Deus, e levá-lo-á à porta ou ao postigo, e o senhor dele perfurará a orelha com uma sovela, e servi-lo-á perpetuamente” (Êx. 21:6; Dt. 15:17);
‘perfurar a orelha com uma sovela ao postigo’ é servir ou obedecer perpetuamente; no sentido espiritual é não querer compreender o vero, mas querer o vero por obediência, o que é o relativamente não livre.
[12] Como no sentido interno os ‘ouvidos’ [ou ‘orelhas’] significam a obediência da fé, e que ouvir significa obedecer, vê-se o que é significado por estas palavras que o Senhor repetiu tantas vezes:
“Quem tem ouvidos para ouvir, ouça” (Mt. 13:9, 43; Mc. 4:9, 23; 7:16; Lc. 8:8; 14:35; Ap. 2:7, 11; 3:13, 22).
[13] Que, no sentido supremo, ‘ouvir’ seja a Providência, e que ‘ver’ seja a Previdência, é isso evidente por essas passagens da Palavra, nas quais os olhos, e também os ouvidos são predicados de JEHOVAH, ou do Senhor; como em Isaias:
“Inclina, ó JEHOVAH, o Teu ouvido e ouve; abre, JEHOVAH, os Teus olhos e vê” (37:17).
Em Daniel:
“Inclina, meu Deus, o Teu ouvido e ouve; abre, JEHOVAH,os Teus olhos e vê as nossas vastações” (9:18).
Em Davi:
“[...] ó Deus,... inclina o teu ouvido para mim, e ouve o meu discurso” (Salmo 17:6).
No mesmo:
“Inclina para mim o Teu ouvido e guarde-me” (Salmo 71:2).
No mesmo:
“Volta o ouvido para as minhas súplicas por causa da Tua verdade, responde-me por causa da Tua justiça” (Salmo 143:1).
Em Jeremias:
“[...] JEHOVAH; minha voz ouviste; não escondas a Tua orelha ao meu suspiro, ao meu clamor” (Lm. 2:56).
Em Davi:
“JEHOVAH... Não escondas as Tuas faces de mim, no dia em que tenho angústia; inclina para mim o Teu ouvido; no dia clamo, responde-me” (Salmo 102:3 [Em JFA, 102:2]);
que para JEHOVAH ouvidos e olhos não são como do homem, sabe-se; mas, que seja um atributo predicado do Divino, que é significado pelo ouvido e pelos olhos, a saber, o querer infinito e o entender infinito, o querer infinito é a Providência, e o entender infinito é a Previdência; eles são significados, no sentido supremo, pelo ouvido e pelos olhos, quando o ouvido e os olhos são atribuídos a JEHOVAH. Pelo que acaba de ser dito, vê-se agora o que é significado em cada sentido por ‘JEHOVAH ouviu’, de onde Simeão obteve o seu nome.

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