Texto
. Vi um pilão e, muito perto dele, um certo varão com um instrumento de ferro, que, por uma fantasia, imaginava moer homens nesse pilão, trucidando-os por meios horrendos. Este varão fazia aquilo com grande prazer; o prazer mesmo me foi comunicado, para que eu conhecesse em que consistia e quanto ele era grande para os que são tais; era um prazer infernal.Disseram-me os anjos que um tal prazer reinou entre os descendentes de Jacó, e que não experimentavam maior prazer do que o de tratar as nações com crueldade, de expor às feras e às aves de rapina os que eles matavam, de serrar e fender com machados os que viviam, de arremessá-los em fornos de tijolos (2Sm. 12:31), de esmagar as crianças e arremessá-las para longe. Tais ações nunca foram ordenadas, e nunca foram permitidas, senão a tais homens cujo nervo da coxa tinha sido luxado (n. 5051); esses habitam debaixo do calcanhar direito, onde estão os adúlteros que também foram cruéis.
[2] Causa, pois, espanto que alguém possa crer que tal nação tenha sido escolhida de preferência a outras. Daí também vem que muitos se confirmam na crença de que a vida nada faz, mas que há eleição e, portanto, recepção no céu oriunda unicamente da misericórdia, seja qual for a vida, quando, entretanto, qualquer um, a partir de uma razão sã, pode ver que uma tal crença é contra o Divino, pois o Divino é a Misericórdia mesma. Se por essa razão o céu fosse outorgado somente pela Misericórdia, fosse qual fosse a vida, todos sem distinção lá seriam recebidos. Precipitar alguém no inferno para lá ser atormentado, quando, entretanto, ele poderia ser recebido no céu, seria crueldade e não misericórdia, e escolher um de preferência a outro seria injustiça e não justiça.
[3] É por isso que, aos que creram e se confirmaram nessa crença, de que alguns são eleitos e que há admissão no céu somente por misericórdia, seja qual for a vida, se diz — coisa que eu também algumas vezes ouvi e vi — que nunca o céu é recusadoa ninguém pelo Senhor, e que, se o desejam, podem sabê-lo por experiência. Aqueles que o desejam são, pois, elevados a uma sociedade do céu em que estão os que passaram a vida na afeição do bem ou da caridade. Mas desde que lá chegam, então, porque são maus, começam a ser angustiados e a sentir interiormente torturas, porque a vida deles é contrária; e, quando a luz celeste aparece, eles nela aparecem como diabos, quase sem forma humana, alguns com uma face em contorção, alguns como dentaduras, alguns outros como monstros em uma outra forma, assim eles causam horror a si próprios, e se lançam precipitadamente no inferno, e quanto mais lá se enterram profundamente, melhor é para eles.