. (Vers. 6) "E nos fez reis e sacerdotes". Que isto signifique que por Ele estejamos em seu reino espiritual e celeste vê-se pela significação de 'reis', que são aqueles que estão nos veros do bem; e como estes constituem o reino espiritual do Senhor, são aqueles que estão em seu reino espiritual; (que eles sejam significados pelos 'reis' na Palavra, vê-se pelo que se segue); e pela significação de 'sacerdotes', que são os que estão no bem do amor; e como estes constituem o reino celeste do Senhor, são os que estão no seu reino celeste. (Há dois reinos em que os céus em geral foram distintos, como se vê na obra O Céu e o Inferno, nºs 20-28; e o reino espiritual se chama reino da realeza do Senhor, enquanto o reino celeste se chama Seu reino sacerdotal, Ibid., nº 24). Em muitíssimos lugares na Palavra profética se nomeiam reis, e quem não conhece o sentido interno crê que pelos 'reis' ali se entendem reis. Porém não são reis ali entendidos, mas todos os que estão nos veros do bem, ou na fé proveniente da caridade que vem do Senhor. Esta é a razão porque o Senhor somente é Rei, e os que por Ele estão nos veros do bem são chamados seus 'filhos'. Assim é que eles são entendidos pelos 'príncipes', 'filhos do reino', 'filhos do rei' e também pelos 'reis'. E, abstratamente da idéia de pessoas, como ocorre no céu, são entendidos os veros do bem, ou, o que é a mesma coisa, a fé proveniente da caridade, porque o vero pertence à fé e o bem pertence à caridade.
[2] Que não sejam entendidos reis, pode-se ver simplesmente por isso, que Jesus Cristo disse aqui que 'nos fez reis e sacerdotes', e, em seguida,
"Fizeste-nos reis e sacerdotes para nosso Deus, e reinaremos sobre a terra" (Apoc. 5:10);
e em Mateus:
"A semente semeada no campo são os filhos do reino" (Mt. 13:38);
a 'semente do campo' são os veros do bem pelo do Senhor, no homem (vê-se nos nºs 3373, 10248 e 10249). Qualquer um também pode perceber que o Senhor não fará reis todos esses de que aí se trata, mas os chama 'reis' pelo poder e pela gloria que têm aqueles que estão nos veros do bem pelo Senhor. Por aí agora se pode ver que pelos 'reis' na Palavra profética se entende o Senhor quanto ao Divino Vero, e pelos 'reis' e 'príncipes' aqueles que estão nos veros do bem pelo Senhor. E visto que a maioria das coisas na Palavra também tem um sentido oposto, por isso, nesse sentido, pelos 'reis' são significados aqueles que estão nos falsos provenientes do mal.
[3] Que pelo 'rei' na Palavra se entenda o Senhor quanto ao Divino Vero vê-se pelas palavras do Senhor mesmo a Pilatos:
"Disse (...) Pilatos: Logo, Tu és Rei? Respondeu Jesus: Tu o dizes, porque Rei Eu sou; para isso Eu nasci e para isso vim ao mundo, para testificar da verdade. Todo aquele que está na verdade ouve a Minha voz. Disse-lhe Pilatos: Que é a verdade?" (Jo. 18:37, 38).
Pela pergunta de Pilatos, 'Que é a verdade?', é vidente que ele entendeu que a verdade fora chamada 'rei' pelo Senhor. Mas, como era gentio e não conhecia coisa alguma da Palavra, não pôde ser instruído que o Divino Vero vem do Senhor e que Ele é o Divino Vero. Portanto, logo após a pergunta,
Saiu aos judeus, dizendo: "Eu não acho acusação alguma n'Ele", e, depois, fixou sobre a cruz: "Este é o Rei dos judeus". E quando os príncipes dos sacerdotes lhe disseram: "Não escrevas Rei dos judeus, mas o que Ele disse: Sou o Rei dos judeus, respondeu Pilatos: O que escrevi, escrevi" (Jo. 19:4, 19-22).
[4] Quando se compreende essas coisas, pode-se saber o que se entende por 'reis' nas seguintes passagens, no Apocalipse:
"O sexto anjo derramou a sua taça no grande rio Eufrates, e secou-se a sua água, para que fosse preparado o caminho dos reis do oriente" (Apoc. 16:12).
Com a grande meretriz que se senta sobre as muitas águas "os reis da terra cometeram escortação" (17:1-2).
"As sete cabeças são os sete montes onde a mulher está assentada, e há sete reis; cinco caíram (...) o outro ainda não veio; (...) e os dez chifres que viste são dez reis que ainda não receberam seu reino, mas recebem poder como reis com a besta por uma hora; (...) eles combaterão o Cordeiro, e o Cordeiro os vencerá, porquanto é Senhor dos senhores e Rei dos reis" (Apoc. 17:9, 10, 12, 14).
"E a mulher que viste é a grande cidade, que tem reino sobre os reis da terra" (Apoc. 17:18).
"Do vinho da ira da escortação" de Babilônia "beberam todas as nações, e os reis da terra cometeram escortação com ela" (Apoc. 18:3).
"E vi a besta e os reis da terra, e o exército deles congregados para darem peleja Àquele que está sentado no cavalo e ao exército d'Ele" (Apoc. 19:19).
"E as nações dos que foram salvos andarão em sua luz, e os reis da terra trarão para ela sua glória e honra" (Apoc. 21:24).
Nas passagens acima, por 'reis' não se entendem reis, mas todos os que estão ou nos veros do bem ou nos falsos provenientes do mal, como anteriormente foi dito. Semelhantemente se entende, em Daniel, pelo 'rei do meio-dia' e pelo 'rei do norte', que fizeram guerra entre si (Dn. 11:1 ao fim). Pelo 'rei do meio-dia' ali se entendem aqueles que estão na luz do vero do bem, e pelo 'rei do norte' aqueles que estão nas trevas provenientes do mal. (O 'meio-dia', na Palavra, significa aqueles que estão na luz do vero do bem; vê-se nos nºs 1458, 3708, 3195, 5672 e 9642). O 'norte' significa os que estão nas trevas do falso provenientes do mal, nº 3708; e, em geral, na obra O Céu e o Inferno, nºs 141-153, onde se trata dos quatro pontos cardeais no céu).
[5] Também nos Profetas do Velho Testamento muitas vezes se nomeiam reis, e por eles se entendem do mesmo modo aqueles que estão nos veros do bem pelo Senhor, e, no sentido oposto, os que estão nos falsos proveniente do mal. Como em Isaías:
"Espalhará muitas nações; sobre Ele os reis fecharão a sua boca, porque viram o que lhes foi narrado, e entenderam o que não ouviram" (Is. 52:15);
no mesmo:
"Sião, do Santo de Israel, (...) sugarás o leite das nações, e os peitos dos reis sugarás" (Is. 60:16);
no mesmo:
"Os reis serão teus aios10, e as principais mulheres as tuas nutrizes11; curvar-se-ão com o rosto em terra diante de ti" (Is. 49:23).
(E, além disso, em outras passagens, tais como Is. 14:9; 24:21; 60:10; Jr. 2:26; 4:9; 49:38; Lm. 2:6, 9; Ez. 7:26, 27; Os. 3:4; Sf. 1:8; Sl. 2:10; 110:5; Gn. 49:20).
[6] Porquanto os 'reis' significam aqueles que estão nos veros do bem pelo Senhor, por isso dos tempos antigos se derivou o costume, na coroação dos reis, de eles receberem sinais que significam os veros do bem. Por exemplo, que o rei fosse ungido com óleo, usasse uma coroa de ouro, portasse um cetro na sua mão direita, se vestisse de um manto de púrpura, se sentasse num trono de prata e com as insígnias cavalgasse um cavalo branco. Porque o 'óleo' significa o bem de que procede o vero, nºs 886, 4638, 9780, 9954, 10011, 10261, 10268 e 10269; a 'coroa de ouro' na cabeça, a mesma coisa, nº 9930; o 'cetro', que é um cajado, o poder do vero do bem, nºs 4581, 4876 e 4966; o 'manto' e o 'pálio', o Divino Vero no reino espiritual, nºs 9825 e 10005; a 'púrpura', o amor espiritual do bem, nº 9467; o 'trono', o reino do vero do bem, nºs 5313, 6397 e 8625; a 'prata', esse vero mesmo, nºs 1551, 1552, 2954 e 5658; o 'cavalo branco', o entendimento iluminado pelo vero, no opúsculo Do Cavalo Branco. (Os rituais seguidos nas coroações dos reis envolvem essas coisas, mas o conhecimento delas hoje pereceu, nºs 4581 e 4966).
[7] Visto que se sabe o que o 'rei' significa na Palavra, quero acrescentar a isso o motivo por que o Senhor, quando entrou em Jerusalém, sentou-se sobre um filho de jumenta e o povo então o proclamou Rei e também estendiam as vestes no caminho (Mt. 21:1-8; Mc. 11:1-11; Lc. 19:28-40; Jo. 12:14-16), o que foi predito em Zacarias:
"Exulta, ó filha de Sião! Ressoa, ó filha de Jerusalém! Eis que o teu Rei virá a ti, justo e salvador, montando num jumento e num filho de jumenta" (Zc. 9:9; Mt. 21:5; Jo. 12:15).
A razão era porque montar num jumento e num filho de jumenta era um sinal característico do juiz supremo e do rei, o que se pode ver pelas seguintes passagens:
"Meu coração é para os legisladores de Israel, vós que montais em jumentos brancos" (Jz. 5:9, 10).
"O cetro não se afastará de Judah, nem o legislador de entre seus pés, até que venha Siló; (...) que amarrará à vide o filho de jumento, e à videira nobre o filho de sua jumenta" (Gên. 49:10, 11).
Porquanto montar num jumento e filho de jumenta era um sinal característico, por isso
Os juízes montavam jumentas brancas (Jz. 5:9, 10).
E os filhos deles em filhos de jumenta (Jz. 10:4 e cap. 12:14).
E o próprio Rei, quando era coroado, em mula (I Re. 1:33)
E os filhos dele em mulos (II Sm. 13:29).
Quem não sabe o que é significado pelo 'cavalo', pelo 'mulo' e pelo 'filho de jumenta' no sentido representativo crê que o fato de o Senhor montar no filho de jumenta significava pobreza e humilhação, mas significava a magnificência real; por causa disso, também, o povo então O proclamava Rei o Senhor, e estendiam suas vestes no caminho. (Isto aconteceu quando Ele ia para Jerusalém porque 'Jerusalém' significa a igreja; vê-se no opúsculo Da Nova Jerusalém e sua Doutrina, nº 6; e as 'vestimentas' significam os veros revestindo e servindo ao bem, nºs 1073, 2576, 5248, 5319, 5954, 9212, 9215, 9216, 9952 e 10536, e na obra O Céu e o Inferno, nºs 177-182).
[8] Por estas explicações fica evidente o que é significado pelo 'rei' e pelos 'reis' na Palavra, como também o que é significado por 'Ungido', 'Messias' e 'Cristo', pois 'Ungido', 'Messias' e 'Cristo', semelhantemente a 'Rei', significam o Senhor quanto ao Divino Vero procedente do Seu Divino Bem. Com efeito, o rei é chamado 'ungido' e 'ungido', na língua hebraica, é 'messias' e, na língua grega, 'cristo'. (Mas só o Senhor quanto ao Divino Humano foi o 'Ungido de JEHOVAH', porque n'Ele somente havia o Divino Bem do Divino Amor desde a concepção, pois foi concebido de JEHOVAH ; todos os demais ungidos somente representaram o Senhor; vê-se nos nºs 9954, 10011 e 10268-10269. Os 'sacerdotes', porém, significam o bem tal qual existe no reino celeste, como se vê nos Arcanos Celestes, a saber: os sacerdotes representaram o Senhor quanto ao Divino Bem, nºs 2015 e 6148. O sacerdócio foi um representativo do Senhor quanto à obra de salvação, pois esta é executada pelo Divino Bem do Seu Divino Amor, nº 9809. O sacerdócio de Aarão, de seus filhos e dos levitas foi um representativo das obras de salvação numa ordem sucessiva, nº 10017. Assim, o 'sacerdócio' e os 'sacerdotes' na Palavra significam o bem do amor que provém do Senhor, nºs 9806 e 9809. Os dois nomes, 'Jesus' e 'Cristo', significam tanto o seu caráter sacerdotal quanto o régio, a saber, por 'Jesus' o Divino Bem e por 'Cristo' o Divino Vero, nºs 3004, 3005 e 3009. Os sacerdotes que não reconhecem o Senhor significam o contrário, do mesmo que os reis, a saber, o mal e o falso proveniente do mal, nº 3670).
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