AE 109

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. "Ao que vencer, dar-lhe-ei a comer da árvore da vida". Que isto signifique que aquele que recebe de coração é cheio do bem do amor e, assim, do prazer celeste, vê-se pela significação de 'vencer', que é receber de coração (de que se tratará a seguir); pela significação de 'comer', que é apropriar-se e ser conjunto (de que se tratou nos nºs 2187, 2343, 3168, 3813 e 5643); e pela significação de 'árvore da vida', que é o bem do amor e, assim, o prazer celeste, de que também se tratará a seguir. Que 'vencer' seja receber de coração é porque todo aquele que deve receber a vida espiritual luta contra os males e falsos que são de sua vida natural e, quando os vence, então recebe de coração os bens e veros, que são da vida espiritual. Receber de coração é fazê-lo pela vontade e pelo amor, pois o 'coração', na Palavra, significa isso (vide nºs 2930, 3313, 7542, 8910, 9050, 9113 e 10336). Por esse motivo, receber de coração é receber pela vontade ou amor, e praticar. Isto é o que se entende por 'vencer'.
[2] Que a 'árvore da vida' signifique o bem do amor e, assim, o prazer celeste, é porque as árvores significam coisas tais as que estão no homem, em seus interiores que pertencem à mente ou ao espírito; os 'ramos' e as 'folhas' são as coisas que pertencem às cognições do vero e do bem, enquanto os 'frutos' são os bens mesmos da vida. Essa significação da árvore tem sua origem no mundo espiritual, pois ali se vêem árvores de todo gênero, e as árvores que aparecem ali correspondem aos interiores dos anjos e dos espíritos, os quais são de suas mentes. As árvores muito belas e frutíferas correspondem aos interiores daqueles que estão no bem do amor e, assim, na sabedoria; as árvores menos belas e menos frutíferas, aos interiores dos que estão no bem da fé; mas as árvores somente folhosas e sem frutos, aos interiores daqueles que estão somente nas cognições do vero; e as árvores feias com frutos malignos, aos interiores daqueles que estão nas cognições e no mal da vida. Mas, para aqueles que não estão nas cognições e estão no mal da vida não aparecem árvores, mas pedras e areia. Essas aparências no mundo espiritual realmente fluem da correspondência, pois os interiores que pertencem à mente deles são realmente apresentados diante de seus olhos por meio de tais imagens. Todavia, isto se pode ver melhor pelos capítulos, na obra O Céu e o Inferno, onde se trata da correspondência do céu com todas as coisas nas terras, nºs 103-115, e, em outro capítulo, onde se trata dos representativos e das aparências no céu, nºs 170-176, e na seqüência ali, nºs 177-190.
[3] Daí vem, pois, que as árvores sejam nomeadas tantas vezes na Palavra; por elas, ali, são também significadas as coisas nos homens que pertencem à sua mente. E daí vem, também, que nos primeiros capítulos de Gênesis são citadas duas árvores postas no jardim do Éden, uma chamada 'árvore da vida' e a outra 'árvore da ciência'. Ali, pela 'árvore da vida' é significado o bem do amor ao Senhor e, assim, o prazer celeste, que existiam naqueles que eram então da igreja e se entendem pelo 'homem e sua esposa'. E pela 'árvore da ciência' é significado o contentamento das cognições sem uso algum senão o de ouvir os instruídos e obter reputação de erudição somente por causa da honra ou do lucro. Que a 'árvore da vida' também signifique o prazer celeste é porque o bem do amor ao Senhor, que é significado por essa árvore em particular, tem em si o prazer o celeste (vide, na obra O Céu e o Inferno, os nºs 395-414; e, na Doutrina da Nova Jerusalém, os nºs 230-239).
[4] Que as 'árvores', nomeadas tantas vezes na Palavra, signifiquem os interiores do homem que pertencem à sua mente e espírito, e as coisas que estão na árvores, como as folhas e os frutos, signifiquem o que procede da mente e do espírito, pode-se ver pelas seguintes passagens:
"Porei no deserto o cedro de schitta, e a murta, e a árvore da oliva; porei na solidão a faia, o olmeiro e o buxo" (Is. 41:19),
tratando-se aí da instauração da igreja.
"A glória do Líbano virá a ti, a faia, o olmeiro e o buxo juntamente, para ornarem o lugar do Meu santuário" (Is. 60:13).
"Conheçam todas as árvores do campo que Eu, JEHOVAH, humilho a árvore alta, exalto a árvore humilde, seco a árvore verde e faço germinar a árvore seca" (Ez. 17:24).
"Eis que em ti Eu acenderei um fogo que comerá em ti a árvore verde e toda árvore seca" (Ez. 20:47).
"A vide ressecou, a figueira murchou, a romãzeira também, e a palmeira e a macieira; todas as árvores do campo se secaram; a alegria se desvaneceu dentre os filhos dos homens" (Jl. 1:12).
"Quando o anjo ressoou [a trombeta], houve saraiva e fogo (...) que caiu sobre a terra, e a terça parte das árvores foi queimada" (Ap. 8:7).
Nabucodonosor viu em sonho uma "árvore no meio da terra cuja altura era grande (...) as folhas belas, as flores muitas, e nela havia comida para todos" (Dn. 4:10-12).
Como as árvores em geral significam coisas tais as que estão no homem e fazem os interiores de sua mente, e, assim, também as coisas espirituais que pertencem à igreja, e como estas e aquelas são variadas, por isso são nomeadas tantas espécies de árvores, e cada espécie significa algo diferente. O que significam as várias espécies, mostrou-se nos Arcanos Celestes, por exemplo, o que é significado pela árvore da oliva, nºs 9277 e 10261; o que é significado pelo cedro, nºs 9472, 9486, 9528, 9715 e 10178; o que é significado pela vinha, nºs 1069, 5113, 6375, 6378 e 9277; o que é significado pela figueira, nºs 217, 4231, 5113 etc.
[5] Além disso, as coisas que estão nas árvores, como as folhas e os frutos, significam coisas tais as que estão no homem: as 'folhas' são os veros nele, e os 'frutos', os bens, como nas seguintes passagens:
"Será como a árvore plantada junto às águas, e junto ao rio lança raízes (...) sua folhagem será verde (...) não cessará de dar fruto" (Jr. 17:8);
Junto ao rio que sai da casa de Deus "subirá sobre a margem de ambos os lados a árvore de comida, cuja folhagem não cai nem o seu fruto é consumido; nos seus meses renasce, porque as suas águas saem do santuário, donde seu fruto será por comida e sua folhagem para medicamento" (Ez. 47:12);
"No meio da praça e do rio que saem do trono de Deus e do Cordeiro, de ambos os lados, a árvore da vida dá doze frutos, dando seu fruto a cada mês, e as folhas da árvore serão para a cura das nações" (Ap. 22:1-2);
"Bem-aventurado o varão (...) cujo prazer está na lei; (...) será como a árvore plantada junto ao ribeiro de águas, que dá seu fruto a seu tempo e a folhagem não cai" (Sl. 1:1-3);
"Não temais (...) porque a árvore dará fruto, a figueira e a vide darão sua força" (Jl. 2:22);
"Saciam-se as árvores de JEHOVAH, os cedros do Líbano que plantou" (Sl. 104:16);
"Louvai a JEHOVAH, ó árvores de fruto, e todos os cedros" (Sl. 148:7, 9).
[6] Como os 'frutos' significavam os bens da vida no homem, por isso, na Igreja Israelita, que era uma igreja representativa, foi ordenado que fossem circuncidados os frutos das árvores, assim como os homens mesmos, a cujo respeito se lê:
O fruto das árvores que servem de alimento será incircunciso na terra de Canaan, "e serão incircuncisos por três anos (...) e no ano quarto todo fruto será santo, louvores a JEHOVAH, mas no quinto serão comidos" (Lv. 19:23-25).
Como os 'frutos da árvore' significavam os bens da vida, por isso foi também ordenado
Que na festa dos tabernáculos tomassem os frutos da árvore de honra, e os ramos, e se alegrassem diante de JEHOVAH, e assim celebrariam a festa (Lv. 23:40-41),
pois os 'tabernáculos' significam os bens do amor celeste e, assim, o santo do culto (nºs. 414, 1102, 2145, 2152, 3312, 4391 e 10545); e a 'festa do tabernáculo' significava a implantação desse bem ou desse amor (nº 9296). Como os 'frutos' significavam os bens do amor, que são os bens da vida, por isso entre as bênçãos havia esta, que a árvore do campo daria seu fruto, e, entre as maldições, que não o daria (Lv. 26:4, 20). E também por isso foi proibido, quando sitiassem alguma cidade, meter o machado em alguma árvore de fruto bom (Dt. 20:19, 20). Por estas citações agora se pode ver que pelos 'frutos' são significados os bens do amor, ou, o que é o mesmo, os bens da vida, que também se chamam 'obras', como também nestas passagens, nos Evangelhos:
"Está posto o machado na raiz da árvore; toda árvore que não dá bom fruto será cortada e lançada no fogo" (Mt. 3:10; 7:16-21).
"Ou fazei a árvore boa e o fruto bom, ou fazei a árvore podre e o fruto podre, pois pelo fruto se conhece a árvore" (Mt. 12:33; Lc. 6:43, 44).
"Todo ramo que não dá fruto é tirado, mas todo ramo que dá fruto será limpado, para que dê mais fruto" (Jo. 15:2-8).
"Alguém tinha uma figueira plantada em sua vinha; veio procurar fruto nela, mas não achou; disse ao vinhateiro: Eis que por três anos venho procurando fruto da figueira e não acho; corta-a; por que faz a terra infrutífera?" (Lc. 13:6-9).
"Jesus viu uma figueira junto ao caminho; veio a ela e nada achou nela senão folhas somente. Disse: Nunca mais haverá fruto de ti; e a figueira imediatamente se secou" (Mt. 21:19; Mc. 11:13, 14, 20);
a 'figueira' significa o homem natural e seus interiores, e o 'fruto' o seu bem (nºs. 217, 4231 e 5113), mas as 'folhas' significam as cognições (nº 885). Daí é evidente o que é significado pelo fato de a figueira se secar porque o Senhor achou nela somente folhas e não frutos. Todas estas passagens foram citadas para que se saiba o que é significado pela 'árvore da vida no meio do paraíso de Deus', a saber, o bem do amor procedente do Senhor e, assim, o prazer celeste.

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