. (Vers. 17) "Porque dizes: Sou rico e estou enriquecido, e de nada tenho necessidade". Que isto signifique a fé daqueles que se crêem estar nos veros mais do que os outros vê-se pela significação de 'dizer', que envolve o que é crido por eles; e visto que aqui se trata daqueles que estão na fé só, por isso 'dizer' significa a fé deles; além disso, 'dizer', no sentido espiritual, significa pensar, porque o que é dito sai do pensamento, e o pensamento é espiritual, porque é do espírito do homem, mas a dicção e a fala provenientes daí são naturais, porque vêm do corpo; daí é que 'dizer', na Palavra, significa muitas coisas; pela significação de 'ser rico', que é possuir conhecimentos do vero e do bem e, daí, ser inteligente e sábio (de que se tratará a seguir); e pela significação de 'estar enriquecido e de nada ter necessidade', que é saber todas as coisas a ponto de que nada falta.
[2] Que tais sejam, ou assim o crêem, os que estão na doutrina da fé só e da justificação pela fé, não o sabem aqueles que não estão nessa doutrina, ainda que estejam entre aqueles, mas é o que foi concedido saber por muita experiência. Falei com muitos que no mundo creram ser mais inteligentes e sábios do que os outros, pelo fato de terem sabido muitas coisas sobre a fé só e a justificação pela fé, e até coisas tais que os simples não souberam, às quais também chamaram de coisas interiores e arcanos da doutrina, e tinham acreditado que sabiam e entendiam todas as coisas a ponto de não faltar coisa alguma. Entre eles havia muitos que tinham escrito a respeito da fé só e da justificação pela fé. Mas foi-lhes mostrado que nada sabiam do vero, e que mais inteligentes e sábios que os outros são os que viveram a vida da fé, que é a caridade, e não compreenderam a justificação pela fé só. E também se lhes mostrou que as coisas que souberam não eram veros, mas falsos, e que saber e pensar os falsos não é ser inteligente e sábio, porquanto a inteligência pertence ao vero e a sabedoria pertence à vida daí. A causa disso foi também revelada, a saber, que não estiveram em afeição alguma do vero espiritual, mas somente na afeição natural de saber as coisas que os líderes disseram, alguns por causa das funções, outros por causa da reputação de erudição; e os que estão nessa afeição natural e não na espiritual crêem que por ela sabem todas as coisas, e ainda mais é o caso com aqueles que as confirmaram pelo sentido da letra da Palavra e por meio de falácias da razão se esforçaram para conectá-las com as demais.
[3] Também por experiência direi algo a este respeito. Uns espíritos que, quando viveram como homens no mundo, tinham-se achado então mais eruditos do que os outros foram examinados quanto a se sabiam o que é a fé espiritual. Disseram que o sabiam. Foram, por isso, enviados aos que tinham estado nessa fé e, sendo dada a comunicação eles, perceberam que não tiveram fé e que desconheciam o que é a fé. Por isso, foi-lhes perguntado o que agora acreditavam sobre a fé só, sobre a qual está fundada toda a doutrina de sua igreja, mas, envergonhados, emudeceram. Havia também muitos dentre os instruídos da igreja que foram interrogados sobre a regeneração, se sabiam o que é; responderam que sabiam ser o batismo, pois que o Senhor disse: 'Se alguém não for gerado pela água e pelo espírito não pode entrar no reino de Deus". Quando, porém, se lhes mostrou que o batismo não é a regeneração, mas que pela 'água' e pelo 'espírito' se entendem e os veros e a vida segundo eles, e que ninguém pode entrar no céu a menos que seja regenerado pelos veros, então se afastaram, confessando sua ignorância. Além disso, quando foram interrogados a respeito dos anjos, do céu, do inferno, da vida do homem após a morte e de muitas outras coisas, não souberam coisa alguma, e todas essas coisas eram como escuridão em suas mentes. Por isso confessaram que tinham mesmo acreditado que sabiam todas as coisas, mas agora sabiam que mal sabiam alguma coisa. Por saber alguma coisa, no mundo espiritual, se entende saber algo do vero, e saber o falso não é saber, porque isso não é entender e ser sábio. Em seguida, foi-lhes disto que isto é o que se entende pelas palavras do Senhor: 'Porque dizes: Sou rico e estou enriquecido... e tu não sabes que estás arruinado, e miserável, e pobre, e cego e nu".
[4] O 'rico', na Palavra, significa aqueles que estão nos veros, porque as riquezas espirituais não são outra coisa. Assim também, pelas 'riquezas' na Palavra são significadas as cognições do vero e do bem, e pelos 'ricos' aqueles que estão na inteligência pelas cognições do vero e do bem, como se pode ver pelas passagens seguintes. Em Ezequiel:
"Em tua sabedoria e em tua inteligência fizeste para ti riquezas (...) ouro e prata em teus tesouros; pela multidão de tua sabedoria multiplicaste para ti riquezas" (Ez. 28:4, 5);
estas palavras foram ditas ao príncipe de Tiro, pelo qual se entende, no sentido espiritual, aqueles que estão nas cognições do vero; pelas 'riquezas' se entendem essas cognições mesmas em geral; pelo 'ouro nas riquezas do tesouro' as cognições do bem, e pela 'prata no tesouro' as cognições do vero. Vê-se claramente que por essas coisas são significadas as cognições, pois se diz: 'em tua sabedoria e em tua inteligência fizeste para ti riquezas... e pela multidão de tua sabedoria multiplicaste para ti riquezas'. (Pelo 'príncipe de Tiro' se entendem aqueles que estão nas cognições do vero, porque o 'príncipe' significa as primeiras coisas da vida, nºs 1482, 2089, 5044, e 'Tiro', as cognições do vero, nº 1201; pelos 'tesouros' são significadas as posses das cognições, como se vê nos nºs 1694, 4508 e 10227; e pelo 'ouro' é significado o bem, e pela 'prata' o vero, nºs 1551, 1552, 2954 e 5658).
[5] Em Zacarias:
"Tiro (...) amontoou prata como o pó, e ouro como a lama das ruas; eis que o Senhor a empobrecerá, e ferirá a riqueza no mar" (Zc. 9:3, 4);
também aí, 'Tiro' está em lugar daqueles que adquirem para si cognições, que são a 'prata', o 'ouro' e as 'riquezas'. Em David:
"A filha de Tiro te trará presente', a filha do rei; "os ricos do povo suplicarão as tuas faces" (Sl. 45:12, 13);
aí se descreve a igreja quanto à afeição do vero, que se entende pela 'filha do rei', pois 'filha' é a igreja quanto à afeição (nºs. 3262, 3963, 6729 e 9059) e 'rei' é o vero (nºs. 1672, 2015, 2069, 3670, 4575, 4581, 4966 e 6148); por isso se diz que 'a filha de Tiro trará presente' e que 'os ricos do povo suplicarão as faces'. Os 'ricos do povo' são os que têm os veros em abundância.
[6] Em Oséias:
"Disse Efraim: Certamente estou enriquecido, achei para mim riquezas, em todos os meus labores, não acharão em mim iniqüidade que seja pecado; (...) mas ainda falarei aos profetas, e multiplicarei a visão" (Os. 12:8, 10);
por 'estou enriquecido e achei para mim riquezas' não se entende que seja rico pelas riquezas e recursos mundanos, mas celestes, que são as cognições do vero e do bem, pois 'Efraim' significa o entendimento dos que são da igreja, que é iluminado quando lêem a Palavra (nºs. 5354, 6222, 6238 e 6267); daí é que se diz que 'ainda falarei aos profetas e multiplicarei a visão'; pelos 'profetas' são significados os veros da doutrina, do mesmo modo que pela 'visão'.
[7] Em Jeremias:
"Eu, JEHOVAH (...) que dou a cada um Segundo os seus caminhos, conforme o fruto de suas obras; como a perdiz que ajunta mas não pariu, faz riquezas mas não com juízo, no meio de seus dias as deixará, no fim" dos dias "se tornará insensato" (Jr. 17:10, 11);
aí se trata daqueles que adquirem para si cognições sem outro uso como fim senão o de saber, quando, todavia, as cognições devem servir para a vida; isto se entende por 'ajuntar como a perdiz e não parir' e por 'fazer riquezas mas não com juízo' e 'no fim dos dias se tornar insensato'. E como as cognições do vero e do bem devem servir para a vida, por isso se diz que "JEHOVAH dá a cada um segundo os seus caminhos e conforme o fruto de suas obras'.
[8] Em Lucas:
"Qualquer dentre vós que não renuncia todas as suas riquezas não pode ser Meu discípulo" (Lc. 14:33);
quem não sabe que na Palavra as 'riquezas' são riquezas e recursos espirituais, que são as cognições da Palavra, não pode saber outra coisa senão que a pessoa deve-se privar de todas as riquezas para ser salva, quando, porém, não é esse o sentido destas palavras, mas pelas 'riquezas' aí se entendem todas as coisas que vêm da própria inteligência, porque ninguém pode saber por si, mas pelo Senhor. Por causa disso, 'renunciar todas as riquezas' é não atribuir a si coisa alguma da inteligência e da sabedoria, e quem não faz isso não pode ser instruído pelo Senhor, isto é, ser Seu discípulo.
[9] Os que não sabem que pelos 'ricos' se entendem os que possuem as cognições do vero e do bem, por conseguinte, os que têm a Palavra, e que pelos 'pobres' se entendem os que não as possuem, mas as desejam, não podem saber outra coisa senão que pelo 'rico que se vestia de púrpura e linho fino' e pelo 'pobre que estava prostrado em seu vestíbulo' (Lucas 16) se entendem o rico e o pobre no sentido comum, quando, todavia, pelo 'rico' aí se entende a nação judaica, que tinha a Palavra, na qual estão todas as cognições do vero e do bem; pela 'púrpura de que estava vestido" se entende o bem genuíno (nº 9467), e pelo 'linho fino' o vero genuíno (nºs. 5319, 9469, 9596 e 9744); e pelo 'pobre prostrado em seu vestíbulo' se entendem as nações que estavam fora da igreja e não tinham a Palavra, e, todavia desejavam os veros e bens do céu e da igreja. Daí também se vê que pelos 'ricos' se entendem os que têm a Palavra, por conseguinte, as cognições do vero e do bem, porque estes estão na Palavra.
[10] E também na profecia de Elizabeth, em Lucas:
Deus 'encheu de bens os famintos, e despediu vazios os ricos' (Lc. 1:53);
'famintos' são os que desejam as cognições, como eram as nações que aceitavam o Senhor e a doutrina d'Ele, mas os 'ricos' são os que têm as cognições, porque têm a Palavra, como eram os judeus que, todavia, não queriam conhecer os veros dali; por isso não aceitavam o Senhor nem a doutrina d'Ele; estes são os 'ricos' que foram despedidos vazios, mas aqueles são os 'famintos' que foram cheios de bens.
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