. "E não sabes que estás arruinado". Que isto signifique que não sabem que os falsos com eles nenhuma coerência têm com os veros vê-se pela significação de 'ruína', que é a fratura do vero por meio do falso e também a falta de coerência; daí se vê o que se entende por 'arruinado'. Eles estão assim porque a sua doutrina está fundamentada em dois princípios falsos, que são a fé só e a justificação por ela. Por isso, os falsos provenientes daí influem numa série contínua, e os veros que eles tiram do sentido da letra da Palavra para confirmar os falsos são fraturados e falsificados, e os veros falsificados são falsos em si mesmos. Isto está descrito em muitas passagens na Palavra e se entende pelas 'vaidades' que os profetas vêem e pelas 'mentiras' que falam; também é descrito pelas 'brechas dos muros' e das 'casas', até que caiam; é descrito igualmente pelos 'ídolos' e 'imagens de escultura' que o artífice faz e liga por meio de correntes para que sejam coerentes, pois pelos 'ídolos' e pelas 'imagens de escultura' são significados os falsos da doutrina, do mesmo modo que pelas 'brechas dos muros' e das 'casas', assim como pelos 'profetas que vêem vaidades e falam mentiras', porque pelos 'profetas se entendem as doutrinas, pelas 'vaidades', as coisas que nada são, e pelas 'mentiras', os falsos. Como, porém, essas coisas são mencionadas em muitas passagens na Palavra, não podem ser citadas, por sua abundância; serão, por isso, omitidas, e somente algumas serão referidas, onde se falam de 'ruínas' e 'paredes', para que se saiba que por elas são significadas as quebraduras do vero por meio dos falsos e, assim, a falta de coerência.
[2] Em Isaías:
"Tua sabedoria e tua ciência te seduziram, quando disseste em teu coração: Eu, e assim como eu ninguém mais; por isso cairá sobre ti a ruína (...) e virá sobre ti a devastação" (Is. 47:10, 11);
também aqui se descrevem os que crêem saber todas as coisas e se acham inteligentes mais do que todos os outros, quando, todavia, nada sabem nem entendem do vero; por isso lhes será tirado o entendimento do vero. A crença de que são mais inteligentes do que todos os outros se entende por 'tua sabedoria e tua ciência te seduziram, quando disseste em teu coração: Eu, e assim como eu ninguém mais"; e a perda de todo entendimento do vero, por "cairá sobre ti a ruína, e virá sobre ti a devastação'.
[3] Em Ezequiel:
"Ruína virá sobre ruína; (...) por isso buscarão do profeta uma visão; mas a lei perecerá do sacerdote, e dos anciãos o conselho; o rei pranteará, e o príncipe se vestirá de espanto" (Ex. 7:26, 27);
trata-se aqui da devastação da igreja, que é quando não há mais vero senão o que é falsificado; o falso proveniente do falso se entende por 'ruína sobre ruína'; a 'visão do profeta' é a doutrina, aqui, a doutrina do falso; a 'lei pereceu do sacerdote' é que a Palavra não é compreendida (pois 'lei' significa a Palavra, e 'sacerdote' o que ensina); 'pereceu dos anciãos o conselho' é que pereceu a retidão dos inteligentes ('conselho' significa a retidão, e 'anciãos' significa os inteligentes); 'o rei pranteará e o princípio se vestirá de espanto' é que não há mais vero algum ('rei' significa o vero, e 'príncipe' os veros que servem primeiro).
[4] Em David:
"Na sua boca não há retidão, no meio deles há ruína" (Sl. 5:9);
aqui, semelhantemente, a 'ruína' está em lugar dos falsos que não tem coerência com vero algum. Do mesmo modo em Jeremias:
"Pranteai, vagai entre as paredes, porque o rei deles foi para o exílio, e seus sacerdotes e príncipes juntamente" (Jr. 49:3);
'vagar entre as paredes' é entre os veros destruídos pelos falsos; o 'rei' que foi para o exílio significa o vero; 'seus sacerdotes e seus príncipes juntamente' significam os bens e veros da vida e da doutrina, como acima.
[5] Em Ezequiel:
"Quando aqui edificam uma parede, eis que a rebocam com argamassa; dize aos que levantam com argamassa que a parede cairá. Não se dirá a vós: Onde está o reboco com que a rebocaste?" (Ez. 13:11, 12).
as 'paredes que rebocam com argamassa' significa o falso que é posto em lugar do vero, o qual fazem com que apareça como vero ao ser aplicado o sentido da letra da Palavra; ( 'reboco' é a aplicação e, daí, a aparente confirmação; 'argamassa' é o que foi falsificado); e visto que o vero da Palavra é assim destruído, e as confirmações se tornam veros falsificados que, em si mesmos, são falsos, e estes são coerentes com o falso princípio, por isso se diz: 'Eis que a parede cairá. Não se dirá a vós: Onde está o reboco com que a rebocaste?'
[6] Em Oséias:
"Eis que Eu obstruirei teu caminho com espinhos, e com paredes cercarei a parede, para que [ela] não ache as suas veredas' (Os. 2:6);
'obstruir a vereda com espinhos' é obstruir todos os pensamentos pelos falsos do mal, para não vejam os veros (os falsos do mal são os 'espinhos'; 'cercar parede com parede' é acumular falsos sobre falsos; 'para que não ache suas veredas' é para nada possa ver do vero. Isto acontece porque os veros não podem estar juntos aos falsos do mal, assim como o céu não está junto ao inferno. Por isso, quando os falsos do mal reinam, a comunicação com o céu é tirada, e, quando é tirada, não se podem ver os veros; e, se forem ensinados por outros, são rejeitados. Assim é que àqueles que estão no falsos, assim como os que estão nos princípios da fé só e da justificação por ela, não se concede estar em vero algum (vê-se acima, nºs 235 e 236).
[7] Mas, alguns exemplos irão esclarecer este assunto. Aqueles que tomaram a fé só e a justificação por ela como princípio de religião, quando lêem a Palavra e vêem que o Senhor diz que o homem será retribuído segundo seus atos e obras, e que aquele que tiver feito o bem virá ao céu, mas o que tiver feito o mal irá ao inferno, então chamam de bem as coisas que eles fazem frutos da fé, não sabendo ou não querendo saber que os bens que eles chamam frutos são todos da caridade e nenhum da fé separada que se chama fé só; também, todo bem pertence à caridade e o vero pertence à fé daí procedente. Daí se vê que eles pervertem a Palavra, mas fazem isso porque não podem de outro modo aplicar o vero ao seu princípio, crendo, todavia, que são coerentes. Mas assim o vero perece e se muda em falso, e não só se muda em falso, mas também em mal.
[8] Também se vê que daí se seguem falsos numa série continuam, pois ensinam que os bens que o homem faz são meritórios; não querem [saber] que assim como a fé com os seus veros é proveniente do Senhor e, assim, não é meritória, também a caridade com os seus bens. Também ensinam que tão logo o homem recebe a fé, é reconciliado ao Pai pelo Filho, e os males que em seguida faz não lhe são imputados, nem, tampouco, os males que antes fizera; pois dizem que todos são salvos, de qualquer modo que tenham vivido, se tão somente receberem a fé, ainda que seja nas horas antes da morte. Mas, estas e muitas outras coisas, que são derivações do falso princípio, não são coerentes com os veros da Palavra, mas os destroem; e os veros destruídos são falsos, e falsos tais que cheiram mal. O mau cheiro deles é sentido na outra vida e é tal que não pode ser tolerado por qualquer espírito bom; é como o odor de purulência do pulmão. Outros exemplos podem ser citados; há muitos deles; pois tudo o que se conclui por um falso princípio deriva daí o falso, porque nisso é considerado o princípio ao qual se adere, pois daí flui e a esse princípio é aplicado.
[9] Sobre a qualidade da religião da fé só e da justificação pela fé pode-se concluir pelo seguinte fato somente: todos os que a confirmaram em si pela doutrina e pela vida, emitem de si, na outra vida, uma esfera nefanda de adultério tal como entre o de uma mãe ou madrasta com o filho; esse adultério nefando corresponde a eles e também é percebido por eles em toda parte que vão; por essa esfera conheci milhares de vezes a sua presença. A razão pela qual emana essa esfera é porque adulteram os bens da caridade e da Palavra, e os adultérios correspondem às adulterações do bem , e as escortações correspondem às falsificações do vero (vê-se nos nºs 2466, 2729, 3399, 4865, 6348, 8904 e 10648).
[10] O mesmo se entende, também, por Reuben, que se deitou com Bilha, da qual seu pai gerara Dan e Naftali (Gn. 35:22); por causa disso foi também condenado (Gn. 49:4); e visto que contaminou o leito de seu pai, foi-lhe tomada a primogenitura e dada a José (1 Cr. 5:1). Com efeito, por 'Reuben' na Palavra se entende a fé e, ali, a fé só (nºs. 3325, 3861, 3866, 3870, 4601, 4605, 4731, 4734, 4761, 6342 e 6350); e por José, o bem da fé (nºs. 3969, 3971, 4669 e 6417).
[11] Foi predito em Daniel, onde se trata da estátua vista em sonho por Nabucodonosor, que essas coisas existiriam no fim da igreja, nestes termos:
"Quanto ao que viste do ferro misturado com barro de lodo, misturar-se-ão pela semente do homem, mas não se ligarão um ao outro, assim como o ferro não se mistura com o barro" (Dn. 2:43);
pelo 'ferro' se entende o vero sem o bem; pelo 'barro de lodo' o falso que vem da própria inteligência; pela 'semente de homem' a Palavra do Senhor (Mt. 13:24, 37); que entre esses não haja coerência, entende-se por 'não se ligarão um ao outro, assim como o ferro não se mistura com o barro'.
[DOWNLOAD]
[VERSAO IMPRESSA]
Para estudo mais confortavel, adquira esta obra em formato impresso.