. "E miserável e pobre". Que isto signifique que nem sabem que não têm conhecimentos do vero nem pensamentos do bem vê-se pela significação de 'mísero' ou 'miserável', que é o que não está nas cognições do vero; e pela significação de 'pobre', que é o que não está nas cognições do bem. Que 'mísero' e 'pobre' signifiquem essas coisas vê-se por muitas passagens na Palavra e, além disso, pelo dado de que a miséria e a pobreza espirituais não são outra coisa senão a falta de cognições do vero e do bem, pois então o espírito é mísero e pobre. Quando, porém, as possui, é rico e opulento; por isso, também, pelas 'riquezas' e 'recursos' na Palavra são significadas as riquezas e os recursos espirituais, que são as cognições do vero e do bem (como se mostrou logo acima, nº 236).
[2] Em muitas passagens na Palavra se nomeiam o 'miserável' e o 'pobre'. Quem não conhece o sentido espiritual da Palavra acredita que por eles não se entendem outros senão os que no mundo são miseráveis e pobres, quando, todavia, não são esses que se entendem, mas os que não estão nos veros e bens nem nas cognições destes. Na realidade, pelos 'miseráveis' se entendem os que não estão nos veros, por não estarem nas cognições dos veros, e pelos 'pobres' se entendem os que não estão nos bens, por não estarem nas cognições dos bens. Como esses dois, a saber, os veros e os bens, são entendidos por esses dois termos [miseráveis e pobres], por isso em muitas passagens se nomeiam um e outro, como nas seguintes. Em David:
"Eu sou miserável e pobre, Senhor, lembra[-Te] de mim" (Sl. 40:17);
no mesmo:
"Inclina Teu ouvido, JEHOVAH, e responde, porque miserável e pobre eu sou" (Sl. 86:1);
é evidente que por 'miserável e pobre', aqui, não se entendem o miserável e o pobre quanto às riquezas mundanas, mas quanto às riquezas espirituais, porque David aqui fala de si mesmo; por isso também disse: 'JEHOVAH, inclina [Teu] ouvido e responde".
[3] No mesmo:
"Os ímpios desembainham a espada, e entesam o seu arco, para abaterem o miserável e o pobre" (Sl. 37:14);
que pelo 'miserável e pobre' também se entendam aqui os que são tais espiritualmente, mas, não obstante, desejam as cognições do vero e do bem, é evidente, pois se diz que 'os ímpios desembainham a espada e entesam o arco'; com efeito, pela 'espada é significado o falso que combate contra o vero e se esforça para destruí-lo, e pelo 'arco' se entende a doutrina do falso contra a doutrina do vero. Assim é que se diz que eles fazem isso para 'abater o miserável e o pobre'. (A 'espada' significa o vero que combate contra o falso e, no sentido oposto, o falso que combate contra o vero, como se vê acima, nº 131; e pelo 'arco' é significada a doutrina em ambos os sentidos, como se vê nos Arcanos Celestes, nºs 2686 e 2709).
[4] Do mesmo modo que em outra passagem, no mesmo livro:
O ímpio "perseguiu o miserável e necessitado, e o quebrantado de coração, para os matar" (Sl. 109:16);
em Isaías:
"O tolo fala tolices, e seu coração pratica iniqüidade para fazer hipocrisia e para falar em erro contra JEHOVAH, e para esvaziar a alma faminta, e para fazer faltar bebida ao sedento; (...) ele aconselha coisas criminosas para destruir os miseráveis com palavras de mentira, até quando o pobre fala o juízo" (Is. 32:6, 7);
aqui, pelos 'miseráveis' e pelo 'pobre' se entendem, semelhantemente, aqueles que estão destituídos das cognições do vero e do bem; por isso se diz que o desonesto 'aconselha coisas criminosas para destruir os miseráveis com palavras de mentira', também 'o pobre que fala o juízo'; por 'palavras de mentira' quer dizer por meio de falsos, e 'que fala o juízo' é o que é reto. Visto que se trata disso, também se diz que 'faz hipocrisia, e fala em erro contra JEHOVAH, para esvaziar a alma faminta e para fazer faltar a bebida ao sedento'; 'fazer hipocrisia e falar em erro' é fazer o mal pelo falso e falar o falso pelo mal; 'esvaziar a alma faminta' é privar das cognições do bem os que as desejam, e 'fazer faltar a bebida ao sedento' é privar das cognições do vero ao que as desejem. No mesmo:
"Os miseráveis terão prazer em JEHOVAH, e os pobres dos homens exultarão no Santo de Israel" (Is. 29:19);
pelos 'miseráveis e pobres' também são significados aqui os que têm falta do vero e do bem e, todavia, têm desejo por eles; destes é que se diz que 'terão prazer em JEHOVAH e exultarão no Santo de Israel' e não dos miseráveis e pobres quanto aos recursos mundanos.
[5] Por aí se pode ver o que é significado por 'miseráveis e pobres' em outras passagens na Palavra, como nas seguintes. Em David:
"O pobre não estará em perpétuo esquecimento, nem a esperança dos miseráveis perecerá na eternidade" (Sl. 9:18);
no mesmo:
Deus "julgará os miseráveis do povo, guardará os filhos dos pobres; livrará o pobre que clama e o miserável; (...) compadece-se do fraco e do pobre, e as almas dos pobres salvará" (Sl. 72:4, 12, 13);
no mesmo:
"Os miseráveis verão; os que buscam a JEHOVAH se alegrarão (...) porque JEHOVAH ouve os pobres" (Sl. 69:32, 33);
no mesmo:
"JEHOVAH (...) arrebatará o miserável dos que são mais fortes (...) e o pobre dos que o despojam" (Sl. 35:10);
no mesmo:
"O miserável e o pobre louvam o Teu nome" (Sl. 74:21, 109:22);
no mesmo:
"Sei que JEHOVAH há de executar a causa do miserável e o juízo do pobre" (Sl. 140:12);
e também em outras passagens, como Is. 10:2; Jr. 22:16; Ez. 16:49; 18:12; 22:29; Am. 8:4; Dt. 15:11; 24:14). Ambos, o 'miserável' e o 'pobre', são nomeados nas passagens citadas porque é segundo o estilo da Palavra que onde se tratar do vero trate-se também do bem, e, no sentido oposto, onde se tratar do falso trate-se também do mal, porque eles fazem um só e formam um casamento, por assim dizer. Por isso são nomeados os 'miseráveis' juntamente aos 'pobres', pois pelos 'miseráveis' se entendem os que têm falta de cognições do vero, e pelos 'pobres' o que têm falta das cognições do bem. (Que esse casamento exista em quase toda parte nos proféticos da Palavra, vê-se nos Arcanos Celestes, nºs 683, 793, 801, 2516, 2712, 3004, 3005, 3009, 4138, 5138, 5194, 5502, 6343, 7022, 7945, 8339, 9263 e 9314). Assim é, também, que se segue 'e cego e nu', pois pelo 'cego' se entende o que não está em conhecimento algum do vero, e pelo 'nu' o que não está em conhecimento algum nem vontade do bem. Depois, no versículo seguinte, 'recomendo-te que de Mim compres ouro provado no fogo, e vestes brancas, para que te vistas', pois pelo 'ouro provado no fogo' se entende o bem do amor, e pelas 'vestes brancas', o vero da fé; e, ainda, 'para que não apareça a vergonha de nua nudez, e unge os olhos com colírio, para que vejas', pelo que se entende que não vejam os males e falsos; assim também em outra passagem. Mas, que haja tal casamento em cada coisa da Palavra, não podem vê-lo senão os que conhecem o seu sentido interno.
[DOWNLOAD]
[VERSAO IMPRESSA]
Para estudo mais confortavel, adquira esta obra em formato impresso.