. "E cego e nu". Que isto signifique que estão sem o entendimento do vero e sem o entendimento e a vontade do bem vê-se pela significação de 'cegos', que são os que não têm entendimento do vero (de que se tratará a seguir); e pela significação de 'nu', que são os que não têm vontade do bem, por conseguinte, também não têm o entendimento do bem (de que também se tratará a seguir). Aqueles que estão na doutrina da fé só e da justificação pela fé não têm entendimento do vero, conforme se pode ver pelo fato de que a fé só ou a caridade não reside em outro lugar senão na memória, e nada do que lhe pertence reside no entendimento. Por esse motivo, eles também removem o entendimento das coisas da fé, dizendo que estas devem ser cridas, e o que matérias de entendimento não têm coisa alguma com as matérias da fé. Assim podem dizer tudo o que quiserem, ainda que seja completamente falso, se tão somente souberem ajuntar alguma confirmação do sentido da letra da Palavra, cujo sentido espiritual ignoram. Nisto se encerra algo semelhante ao estatuto dos pontífices, que é que todos dependam de suas bocas, persuadindo-os assim de que sabem e vêem, quando, entretanto, nada vêem. Os que assim não vêem, isto é, os que não entendem as coisas em que crêem, esses são cegos. Daí é, também que, pelas coisas que devem ser da fé, não podem aperfeiçoar a vida, pois que o caminho para a vida do homem é o entendimento; por nenhum outro caminho o homem se torna espiritual. Todos os que estão no céu vêem os veros com o entendimento e, assim, os recebem, mas os veros que não vêem com o entendimento, não os recebem. Então, se alguém lhes diz que devem ter fé ainda que não vejam ou entendam, eles se opõem, dizendo: 'O que é isso? O que eu vejo e entendo, nisso creio; mas o que não vejo nem entendo, nisso não posso crer; talvez sejam falsos que destroem a vida espiritual".
[2] Que aqueles que estão na doutrina da fé só e da justificação pela fé não tenham entendimento do bem por não terem vontade do bem, vê-se pelo fato de eles nada absolutamente saberem a respeito da caridade para com o próximo, por conseguinte, nada a respeito do bem. Com efeito, todo bem espiritual é proveniente da caridade e nenhum há sem a caridade. Por isso, os que separam a fé da caridade, dizendo que a caridade nada faz para a salvação, mas a fé só, esses ignoram completamente o que é o bem, porque ignoram o que é a caridade, quando, todavia, o bem espiritual e sua afeição, que se chama caridade, é a vida mesma do homem espiritual, e a fé nada é sem ela. Daí se vê que estão sem o entendimento do bem. Que isto resulte daí, de estarem sem a vontade do bem, é porque se dizem justos ou justificados quando têm a fé, e por 'justificados' entendem que não são condenáveis por qualquer coisa que pensem e queiram, porquanto foram reconciliados a Deus. Por causa disso, crêem que os maus são salvos igualmente aos bons, ainda que seja nos últimos instantes da vida, pois tal crença se segue da conexão com seu princípio. Os arcanos dessa doutrina consistem no de fato de falarem dos graus progressivos da justificação, não por alguma vida do homem, nem pela afeição de sua caridade, mas pela fé só da reconciliação a Deus Pai por meio do Filho, à qual fé chamam de confiança ou segurança e fé salvífica mesma. Não sabem que nada da vida espiritual pode existir se nada há da caridade. O que é percebido interiormente ou aparece na confiança neles, não tira coisa alguma da afeição espiritual, mas do pensamento natural sobre o prazer ou sobre a não condenação.
[3] Além disso, aqueles que não sabem coisa alguma do bem da caridade não têm vontade do bem, e os que não sabem coisa alguma desse bem não sabem coisa alguma do mal, pois o bem descobre o mal. Por esse motivo, não podem se examinar, ver seus males, fugir deles e ter-lhes aversão. Assim é que relaxam todos os freios de seu pensamento e de sua vontade, evitando fazer os males somente por causa das leis, da perda da reputação, da honra, do ganho e da vida. Assim é que, quando se tornam espíritos, e os temores lhes são tirados, associam-se a diabos, pois pensam e querem como eles, uma vez que assim pensaram no mundo, já que no homem é o espírito que pensa. Mas dá-se de outro modo com aqueles que viveram a vida de caridade.
[4] Também, os que se crêem justificados pela fé só acham que são conduzidos por Deus e, daí, são levados a fazer o bem; dizem que todo bem vem de Deus e nenhum do homem, e que de outro modo o bem seria meritório; não sabem que da parte do homem deve haver a recepção e que a recepção não existe se ele não atenta para os seus pensamentos e intenções e, daí, os seu atos, e, depois, desiste dos males e faz o bem, o que acontece quando considera os veros que aprendeu da Palavra e vive segundo eles. A não ser que se faça isso, não há recíproco algum, por conseguinte, nenhuma reforma. E para que outro fim serviriam os preceitos do Senhor na Palavra? A capacidade que o homem tem de fazer isso vem também do Senhor, pois essa faculdade é dada a cada homem pela Divina presença e vontade do Senhor para que seja recebida. Em suma, a não ser que o homem receba pelo entendimento e pela vontade, ou pelo pensamento e afeição, ou, o que é o mesmo, pelo amor e pela fé, não há recepção de sua parte e, conseqüentemente, não há conjunção com o Senhor. Qualquer um sabe que o Senhor está continuamente presente com o bem e quer ser recebido, mas onde foram soltos todos os freios do pensamento Ele não pode influir, mas somente onde os pensamentos e as intenções, que são da concupiscência, são refreados pelos veros da Palavra.
[5] Que o Senhor esteja continuamente presente com o bem e queira ser recebido, Ele o ensina na seqüência deste capítulo, onde diz:
"Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a Minha voz, e abrir a porta, entrarei a ele, e cearei com ele, e ele comigo" (Ap. 3:20);
'abrir a porta' é a recepção da parte do homem, como foi dito. O Senhor ensina a mesma coisa em outra passagem na Palavra, como em João:
"Quem Me ama, guarda as Minhas palavras, e Meu Pai o amará, e viremos a ele, e faremos morada nele. Quem não me ama não guarda as Minhas palavras" (Jo. 14:23, 24);
em Mateus:
"Quem foi semeado em boa terra é o que ouve a Palavra e entende, que dá fruto e produz" (Mt. 13:23);
em Marcos:
"Os que foram semeados em boa terra são os que ouvem a Palavra e a recebem, e dão fruto" (Mc. 4:20).
Visto que é a recepção do homem que o conjunta ao Senhor e, assim, torna-o espiritual, por isso, quando o Senhor disse essas palavras, Ele clamou, dizendo:
"Que tem ouvidos para ouvir, ouça" (Mt. 13:9; Mc. 4:9; Lc. 8:8).
[6] Os 'cegos' significam aqueles que não estão em entendimento algum do vero, e os 'nus' significam aqueles que não estão em entendimento algum do bem, por não estarem em vontade alguma do bem. Isto se vê por muitas passagens na Palavra, das quais quero citar aqui algumas, também para que se saiba que a Palavra é espiritual em seu seio, mas natural na letra, por conseguinte, que o sentido da letra da Palavra, que é natural, encerra em si o sentido espiritual. Que os 'cegos' signifiquem aqueles que não estão em entendimento algum do vero, vê-se pelas seguintes passagens. Em Isaías:
"Então os surdos ouvirão naquele dia as palavras do livro, e dentre a escuridão e as trevas os olhos dos cegos verão" (Is. 39:18);
aí se trata da restauração da igreja, e pelos 'surdos' que 'ouvirão as palavras do livro' se entendem os que querem obedecer aos veros e, assim, viver a vida do bem, mas não o podem, porque não têm a Palavra; e pelo 'cegos' cujos 'olhos verão na escuridão e nas trevas' se entendem os que não estão no entendimento do vero, por estarem na ignorância, mas que então irão entender. Que não se entendam surdos e cegos é evidente.
[7] No mesmo:
"Eis que vosso Deus virá com vingança; para retribuição de Deus Ele virá, e vos salvará; então se abrirão os olhos dos cegos os ouvidos dos surdos se abrirão; (...) romperão águas no deserto, e rios na planície do deserto" (Is. 35:4, 6);
estas palavras foram ditas a respeito do advento do Senhor, que então seriam salvos os que cressem n'Ele. Os que não estão no entendimento do vero então compreenderão; isto é significado por 'os olhos dos cegos se abrirão'; e os que não estão na percepção e na vontade do bem então obedeceriam e viveriam no bem, é significado por 'os ouvidos dos surdos se abrirão'. Por isso se diz: 'romperão águas no deserto, e rios na planície do deserto'; o 'deserto' significa onde não há bem, porque não há vero; as 'águas' significam os veros, e os 'rios' a inteligência que vem dos veros.
[8] No mesmo:
"Dar-Te-ei por aliança do povo, por luz das nações, para abrir os olhos aos cegos, e para tirar da prisão os acorrentados; Eu, JEHOVAH, este é Meu nome, e Minha glória a outro não darei" (Is. 42:6, 8);
estas palavras também são a respeito do Senhor e da instauração por Ele de uma igreja entre as nações. Que, então, os que antes estavam na ignorância entenderiam os veros é significado por 'abrir os olhos aos cegos'; e que eles seriam tirados da ignorância e dos falsos é significado por 'tirar da prisão o acorrentado'. Que o Senhor mesmo assumiria o Humano, entende-se por 'Eu, JEHOVAH, este é Meu nome, e Minha glória a outro não darei'.
[9] No mesmo:
"Conduzirei os cegos em caminho que não conheceram, em veredas que não conheceram os conduzirei, farei de suas trevas luz" (Is. 42:16);
os 'cegos', também aqui, estão em lugar dos que não estão em conhecimento algum do vero; os veros e bens que eles receberão são significados por 'serem conduzidos em caminhos e veredas que não conheceram'; a dissipação do falso da ignorância e a iluminação são significadas por 'farei de suas trevas luz' .
[10] No mesmo:
"Do oriente trarei a tua semente, e do ocidente te ajuntarei; direi ao norte: Dá!, e ao meio-dia: Não retém! Traze Meus filhos de longe, e Minhas filhas da extremidade da terra; todo aquele que é chamado pelo Meu nome (...) criei, formei e também o fiz; faze sair um povo cego que tem olhos, e um surdo que tem ouvidos" (Is. 43:5-8);
estas palavras também tratam da instauração pelo Senhor de uma igreja entre as nações. 'Trazer a semente do oriente', do 'ocidente', do 'norte' e do 'meio-dia' é trazer todos de qualquer religião que sejam, pois 'oriente e ocidente' significam onde há o bem do amor claro e obscuro, e 'norte e meio-dia', onde o vero da fé na obscuridade e na claridade. Aqui se entendem os que estão na obscuridade pela ignorância, pois se diz: 'faze sair Meus filhos de longe, e Minhas filhas da extremidade da terra'; chamam-se 'filhos' os que recebem os veros, e 'filhas' os que recebem os bens; 'de longe' e 'da extremidade da terra' signifique os que estão afastados dos veros e bens da igreja. Todos os que reconhecem o Senhor são recebidos e reformados por Ele; isto é significado por 'criei, formei e fiz a todo o que é chamado pelo Meu nome'. São estes, então, que se entendem pelos 'cegos que têm olhos' e pelos 'surdos que têm ouvidos'.
[11] No mesmo:
"Esperamos luz, mas, eis, trevas; (...) na escuridão andamos, apalpamos a parede como cegos, e como os que não têm olhos andamos apalpando; tropeçamos ao meio-dia como se fosse no crepúsculo, entre os vivos como se fôssemos mortos" (Is. 49:9, 10);
aqui, semelhantemente, os 'cegos' estão em lugar dos que não estão no entendimento do vero; 'trevas' e 'escuridão' são os falsos; 'tropeçar no meio-dia como se fosse no crepúsculo' é errar nos falsos ainda que se possa estar na luz da Palavra.
[12] No mesmo:
"Todos os seus atalaias são cegos; (...) e eles são pastores que não sabem compreender" (Is. 56:10,11);
também aqui, pelos 'cegos' se entendem os que não compreendem os veros, ainda que tenham a Palavra; é evidente que 'cegos' significa isto, porque se diz: 'não sabem' e 'não sabem compreender'.
[13] Em Jeremias:
"Eis que os trago da terra do norte; (...) entre eles, cegos e aleijados; (...) com choro virão e com preces os trarei, conduzi-los-ei às fontes de águas por um caminho direito" (Is. 31:8, 9);
'terra do norte' é onde há o falso da ignorância; e dos que estão nesse falso se diz que são 'cegos'; que eles devam ser conduzidos aos veros é significado por 'conduzi-los-ei às fontes de águas por um caminho direito'.
[14] Nas Lamentações:
"JEHOVAH (...) acendeu um fogo em Sião que consumiu os seus fundamentos, por causa dos pecados dos seus profetas e das iniqüidades dos sacerdotes; (...) errarão os cegos nas ruas, estão contaminados com o sangue, tocam com suas vestimentas as coisas que não podem [tocar]" (Lm. 4:11, 13, 14);
'Sião' é a igreja; o 'fogo que consumiu seus fundamentos' é o amor de si que dispersou todas as cognições do vero; 'pecados dos profetas' e 'iniqüidades dos sacerdotes' são as perversidades dos que ensinam os veros e bens; por 'errar os cegos nas ruas' é significado que não haveriam de entender coisa alguma do vero; o 'sangue' com que 'foram contaminados' é a falsificação do vero e a adulteração do bem na Palavra; a profanação do bem e do vero daí se entende por 'tocam com suas vestimentas as coisas que não podem [tocar]'.
[15] Em Zacarias:
"Naquele dia (...) ferirei todo cavalo com espanto, e o cavaleiro com demência (...) todo cavalo dos povos ferirei de cegueira" (Zc. 12:4);
o 'cavalo' significa o entendimento, e o 'cavaleiro' o inteligente; daí se vê o que é significado por 'ferir todo cavalo com espanto', 'os cavalos dos povos de cegueira' e 'o cavaleiro com demência'. (Que o cavalo signifique o entendimento vê-se no opúsculo Do Cavalo Branco, nºs 1-6).
[16] Em David:
"JEHOVAH soltará os acorrentados, JEHOVAH abrirá [os olhos dos] cegos" (Sl. 146:7-8);
'acorrentados' se dizem dos que estão nos falsos e desejam ser livres deles; os 'cegos' são os que daí não estão no entendimento do vero; 'abrir' [os seus olhos] é fazer com que entendam.
[17] Em João:
"Disse Isaías: Cegou os seus olhos, e fechou seu coração, para que não vejam com os olhos e entendem com o coração" (Jo. 12:39-40);
que 'fechar os olhos para que não vejam com seus olhos' signifique não entender os veros, é evidente.
[18] No mesmo:
"Jesus disse: Para juízo Eu vim a este mundo, para que os que não vêem vejam, mas tornem-se cegos os que vêem (...) Disseram: Logo, nós somos cegos? Disse Jesus: Se fôsseis cegos não teríeis pecado; mas, como agora dizeis: Vemos, por isso o vosso pecado permanece" (Jo. 9:39-41);
pelos que 'não vêem' se entendem os que estão fora da igreja e não conhecem os veros, por não terem a Palavra, portanto, os gentios; pelos que 'vêem', porém, são significados os que estão na igreja e têm a Palavra, portanto, os judeus; destes se diz que 'tornar-se-iam cegos', mas daqueles, que 'veriam'. Diz-se que 'o pecado deles permanece' porque dizem que não são cegos, mas vêem, porque estão na igreja onde há a Palavra e, todavia, não querem ver e reconhecer os veros nem, por conseguinte, o Senhor. Assim é que os escribas e fariseus dentre os judeus foram chamados
Cegos, condutores de cegos (Mt. 15:14; Lc. 6:39),
e
Condutores cegos (...) insensatos e tolos (Mt. 23:16-17, 19, 24).
[19] Em João:
Jesus "vê o homem cego de nascença"; diz aos discípulos: "Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo; dizendo estas palavras, cuspiu no húmus e fez lodo do cuspe, e ungiu com a lodo os olhos do cego, e disse: Vai e lava-te no tanque de Siloé (...) e foi e lavou-se, e voltou vendo" (Jo. 9:1, 5-7);
por que o Senhor fez isso, ninguém pode entender a menos que conheça o sentido interno ou espiritual da Palavra. Neste sentido, pelo 'cego de nascença' se entendem os que nasceram fora da igreja e, assim, não puderam saber coisa alguma a respeito do Senhor nem serem instruídos pela Palavra; pelo 'lodo' que 'fez com cuspe, no húmus', é significada a reforma por meio dos veros do sentido da letra da Palavra ('húmus' é a igreja onde há a Palavra, 'lodo' é o último Divino que forma, 'ungir com ele os olhos do cego' é dar por ele o entendimento do vero); o 'tanque de Siloé' também significa a Palavra na letra; 'lavar-se' é ser purificado dos falsos e males. Até agora tinha sido oculto que estas coisas sejam entendidas por essas palavras. (Que o 'húmus' signifique a igreja, vê-se nos nºs 566 e 10570; que o 'lodo' signifique o bem pelo qual existe o vero, assim, o bem que forma, nºs 1300 e 6669; que o 'tanque de Siloé' signifique a Palavra no sentido da letra, vê-se em Isaías 8:6; que o mesmo signifiquem em geral os 'tanques' que havia em Jerusalém (Is. 22:9, 11);
[20] Em Marcos:
Jesus "veio a Bethsaida, onde trouxeram a Ele um cego, e pediam que o tocasse; tomando, pois, a mão do cego, fê-lo sair foram da aldeia e, cuspindo em seus olhos (...) perguntou-lhe se via algo; respondendo ele, disse: Vejo homens, que são como árvores que andam; então de novo impôs a mão sobre seus olhos e o fez olhar para cima; então foi restaurado, e viu tudo claramente" (Mc. 8:22-27);
ninguém pode saber o que estas palavras encerram nem o que por elas se entende senão pelo sentido interno ou espiritual da Palavra. Quem não entende esse sentido não vê coisa alguma além do que ali se fez, e talvez pense sobre isso pelos sentidos somente. No entanto, todas as coisas que o Senhor falou e fez no mundo continham espirituais em ordem, das supremas até as últimas, portanto, plenamente. Assim é também com todos os milagres e os seus relatos. Os 'cegos' que o Senhor curava representavam os cegos espiritualmente, que são aqueles que não conhecem nem entendem os veros. O fato de aqui o cego 'ser conduzido para fora da aldeia de Bethsaida' era porque 'Behtsaida' significava a condenação por causa da não recepção do Senhor; que 'tenha cuspido em seus olhos' significa o mesmo que acima, isto é, 'fez barro do cuspe'; que, em seguida, 'tocou seus olhos' significa que o iluminou pelo Divino; assim é que o cego a princípio viu 'homens como árvores que andam', o que significa a percepção geral e obscura do vero pelo sentido da letra; pelas 'árvores' são também significadas as cognições, e por 'andar' é significado viver. Que, depois, ao ser tocado pelo Senhor, 'viu tudo claramente' significa que após a instrução e a iluminação pelo Senhor compreendeu os veros. Este sentido se acha encerrado nessas palavras e é o sentido percebido pelos anjos. (A aldeia de 'Bethsaida' significa a condenação pela não recepção do Senhor, como se vê em Mt. 11:21 e em Lc. 10:13; o 'tato' significa a comunicação e a translação, mas, aqui a iluminação, porque os olhos foram tocados, vê-se acima, nº 79; as 'árvores significam as cognições, como se vê nos Arcanos Celestes nºs 2722, 2972 e 7692; 'andar' significa viver, nºs 519, 1794, 8417 e 8420; e acima, nº 97).
[21] Além disso, por todos os cegos que o Senhor curou se entendem os que estão na ignorância e O recebem, sendo iluminados por Ele por meio da Palavra. E, em geral, por todos os milagres do Senhor são significadas coisas tais que são do céu e da igreja, por conseguinte, coisas espirituais. Por isso é que Seu milagres foram Divinos, pois é Divino agir pelos princípios e apresentá-los nos últimos. Por aí se vê o que é significado pelos 'cegos' que o Senhor curou, dos quais se trata em Mt. 9:27-31; 12:22; 20:29 ao fim 21:14; Mc. 10:46 ao fim; Lc. 7:21-23; 18:35 ao fim.
[22] Uma vez que pelos 'cegos' são significados aqueles que não estão nas cognições do vero e, daí, em nenhum vero do entendimento, por isso entre as leis e os estatutos que foram dados aos filhos de Israel havia estes:
Que o cego dentre os filhos de Aarão e dos levitas não subisse para oferecer o pão de seu Deus (isto é, para fazer sacrifício (Lv. 21:18);
E, também, não se ofertasse [animal] cego (Lv. 22:22; Dt. 15:21);
Igualmente, que não se colocassem tropeço diante de um cego (Lv. 19:14);
Seria amaldiçoado quem fizesse errar um cego (Dt. 27:18).
Que tenha havido tantas leis era porque a igreja instituída com eles era uma igreja representativa, na qual todas as coisas representacam espirituais que a elas correspondiam. Por isso, também, foi proferida a seguinte maldição sobre os que não guardam os mandamentos, em Moisés:
"Se não obedeceres a voz de teu Deus para guardar e fazer todos os Seus preceitos, JEHOVAH te ferirá com furor, com cegueira e com espanto de coração, para que estejas apalpando no meio-dia, como o cego apalpa nas trevas" (Dt. 28:15, 28, 29);
pelo que também se entende que serão feridos de cegueira e espanto espirituais aqueles que não obedecem a voz do Senhor, fazendo as coisas que ordenou na Palavra. A cegueira espiritual dos olhos e o espanto espiritual do coração são a falta do entendimento do vero e a falta da vontade do bem; 'apalpar no meio-dia' é ser assim na igreja onde a luz do vero existe pela Palavra. (O 'meio-dia' significa onde o vero está na luz, como se vê no nº 9642 e na obra O Céu e o Inferno, nºs 148, 149 e 151).
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