. “E houve saraiva e fogo misturado com sangue”. Que isto signifique o falso e o mal infernal que destroem, misturados aos veros e bens da Palavra, aos quais se fez violência, vê-se pela significação de ‘saraiva’, que é o falso infernal que destrói (de que se tratará a seguir); pela significação de ‘fogo’, que é o mal infernal que destrói (de que também se tratará a seguir); e pela significação de ‘sangue’, que é o Divino Vero, aqui, ao qual se fez violência, assim o Divino Vero falsificado, porque se diz ‘granizo e fogo misturado com sangue’. Que o ‘sangue’ signifique o Divino Vero procedente do Senhor e recebido pelo homem, e, no sentido oposto, a sua destruição pelos falsos do mal e, assim, a violência feita a ele, vê-se acima (n. 329).
[2] Que ‘saraiva’ e ‘fogo’ signifiquem o falso e o mal que destroem, vem também das aparências no mundo espiritual, quando ali o Divino Vero flui do céu e influi na esfera onde estão os que se acham nos falsos do mal e desejam destruir os veros e bens da igreja. Então aparece aos que estão de longe como que uma chuva de saraiva e fogo; por causa dos falsos neles, como que uma chuva de saraiva, e por causa dos males, como que uma chuva de fogo. A causa disso é que o Divino Vero, quando influi na esfera onde há falsos e males, muda-se em algo semelhante ao que há na esfera, pois todo influxo se muda no sujeito recipiente segundo a sua qualidade, tal como a luz do sol nos objetos negros e o calor do sol nos objetos pútridos. Assim é com o Divino Vero, que é a luz do céu, e o Divino Bem, que é o calor do céu, nos sujeitos maus, que são os espíritos que estão nos falsos do mal. Daí vem essa aparência. Por isso é que ‘saraiva’ e ‘fogo’, na Palavra, significam tais coisas, pois o sentido da letra da Palavra vem, quanto à sua maior parte, das aparências no mundo espiritual.
[3] Que a ‘saraiva’ signifique o falso infernal que destrói o vero da igreja, pode-se ver por outras passagens da Palavra, onde a destruição do vero é descrita pela ‘saraiva’, como no Egito, quando o faraó não quis despedir o povo de Israel, a cujo respeito assim se lê em Moisés:
Moisés disse ao faraó que choveria saraiva muito grave, tal como nunca houve no Egito, ...”e haverá saraiva sobre o homem e sobre a besta, e sobre toda erva do campo na terra do Egito. E estendeu Moisés o seu cajado para o céu, e Jehovah enviou vozes e saraiva, e o fogo avançou [ambulavit] para terra; e Jehovah faz chover saraiva sobre a terra do Egito, e houve saraiva, e o fogo avançando juntamente, no meio da saraiva muito grave...; e feriu a saraiva... tudo o que havia no campo, desde o homem até a besta, e a toda erva do campo a saraiva feriu, e toda árvore do campo quebrou. Somente em Goschen, onde estavam os filhos de Israel, não havia saraiva. ... E o linho e a cevada foram feridos, porque a espiga da cevada [estava] amadurecendo, e o linho na haste. E o trigo e a espelta não foram feridos, porque esses estavam cobertos” (Êx. 9:18-25);
pela ‘saraiva no Egito’ são significadas coisas semelhantes às que são aqui no Apocalipse significadas pela ‘saraiva’, pelo que se dizem várias coisas também semelhantes, como, por exemplo, que ‘a saraiva e o fogo avançaram juntamente’, que ‘a erva do campo foi ferida e as árvores quebradas’. Que várias coisa semelhantes sejam relatadas aqui é porque pelas pragas no Egito são significadas coisas semelhantes às que são significadas pelas pragas havidas no Apocalipse quanto os sete anjos tocaram, pois pelo ‘Egito’ são significados os homens meramente naturais, pelos ‘filhos de Israel’ os homens espirituais, pelas ‘pragas do Egito’ as mudanças que precederam o juízo final, do mesmo modo que aqui, no Apocalipse, uma vez que a imersão do farão e os egípcios no Mar Vermelho representava o juízo final e a danação. Assim é, pois, que pela ‘saraiva’ e pelo ‘fogo’ são também significados os falsos e males que destroem a igreja. (Essas coisas, porém, veem-se explicadas no Arcanos Celestes, n. 7553-7619).
[4] Algo semelhante é significado, pois, pela ‘saraiva’ e pelas ‘brasas’ ou fogo, em David:
“Feriu com saraiva a vide deles, e com grava saraiva os sicômoros deles; e fechou com a saraiva a besta deles, e o gado deles com brasas. Enviou neles a inflamação de Sua ira... envio de anjos maus” (Sl. 78:47-49).
Como a ‘saraiva’ significa o falso que destrói os veros da igreja, por isso se diz: ‘Feriu com saraiva a vinha deles, e os sicômoros com grave saraiva’, pois pela ‘vide é significado o vero espiritual da igreja, e pelo ‘sicômoro’ o seu vero natural. E como pelas ‘brasas’ ou fogo é significado o amor do mal e seu ardor de destruir os bens da igreja, por isso se diz que ‘fechou com saraiva a besta deles, e o gado deles com brasas’; pela ‘besta’ e pelo ‘gado’ são significadas as afeições más ou as cobiças oriundas de um amor mau, e pelas ‘brasas’ ou fogo as cobiças e o ardor de destruir. Pelo ‘envio de anjos maus’ é significado o falso do mal proveniente do inferno.
[5] Em David:
“Deu saraiva pela chuva deles, fogo de chamas na sua terra, e feriu a sua vide e a sua figueira, e quebrou a árvore de seus termos” (Sl. 105:32, 33).
Essas palavras também se referem à ‘saraiva do Egito’, pela qual é significado o falso infernal que destrói os veros da igreja, e pela ‘vide’ e pela ‘figueira’ aqui são também significadas coisas semelhantes às que são significadas acima pela ‘vide’ e pelos ‘sicômoros’; pela ‘vide’, o vero espiritual, e pela ‘figueira’ o vero natural, ambos da igreja; e pela ‘árvore’ são significadas as percepções e cognições do vero e do bem.
[6] O mesmo é significado pela ‘saraiva’ também em Josué, quando lutou contra os cinco reis dos amorreus, a cujo respeito assim se lê:
“Sucedeu que, como fugissem” os reis “diante de Israel, estando eles na descida de Beth-horon, que Jehovah lançou sobre eles grandes pedras de saraiva dos céus em Azekah...; e foram mais os que morreram das pedras da saraiva do que os que os filhos de Israel mataram à espada” (Js. 10:11).
Visto que as partes históricas da Palavra foram representativas igualmente às proféticas e contêm um sentido interno, assim também o que foi relatado a respeito dos cinco reis dos amorreus e da luta dos filhos de Israel com eles, pois as ‘nações’ expulsas da terra de Canaan significavam os maus haviam de ser lançados fora do reino do Senhor, e pelos ‘filhos de Israel’ eram significados aqueles a quem seria dada a posse do reino, porque pela ‘terra de Canaan’ eram significados o céu e a igreja, por conseguinte, o reino do Senhor. Assim, pelos ‘cinco reis dos amorreus’ eram significados aqueles que estão nos falsos do mal e querem destruir os veros do bem da igreja. Por isso sucedeu que eles ‘foram mortos pelas pedras de saraiva do céu’, isto é, foram destruídos e pereceram por seus próprios falsos do mal, pois os maus fazem perecer a si mesmos pelos seus males e falsos, pelos quais querem destruir os veros e bens da igreja.
[7] Em David:
“Do esplendor diante d’Ele Suas nuvens passaram, com saraiva e brasas de fogo. Jehovah trovejou nos céus, e o Altíssimo proferiu Sua voz com saraiva e com brasas de fogo; e lançou Suas flechas e os dispersou, e muitos relâmpagos e os perturbou” (Sl. 18:12-14);
pela ‘saraiva’ e pelo ‘fogo’ aí são significadas as mesmas coisas que pela ‘saraiva’ e pelo ‘fogo’ aqui no Apocalipse, ou seja, os falsos e males que destroem os veros e bens da igreja. Diz-se que procedem ‘de Jehovah’ porque o Divino Vero descendo do céu é convertido em falsos infernais nos maus, como acima foi dito. Dessa conversão surgem várias aparências, como a queda de saraiva e de fogo, quando, todavia, tais coisas não vêm do Senhor pelo céu, mas daqueles que estão nos falsos do mal, que convertem o influxo do Divino Vero e Bem em falso do mal. Também me foi concedido perceber essas conversões, quando o Divino Vero do céu fluía em algo infernal, convertendo-se sucessivamente em falso do mal, tal como havia neles. É inteiramente como o calor do sol quando cai em coisas estercorosas e como as luz do sol nos objetos que mudam seus raios em cores desagradáveis, ou como a luz e o calor do sol nos terrenos pútridos e pantanosos produzindo ervas nocivas que nutrem serpentes, e nos terrenos bons produzindo árvores e gramados, que nutrem os homens e os animais úteis. A luz e o calor não são a causa de esses efeitos serem produzidos nos terrenos pútridos, mas são os terrenos mesmos que os produzem; e, todavia, esses efeitos podem ser atribuídos ao fogo e ao calor do sol. Por aí se pode ver de que origem aparecerem a saraiva e o fogo no mundo espiritual e de onde procede dizer-se que ‘Jehovah os fez chover, quando, todavia, de Jehovah nada vem senão o que é bom. E quando Jehovah, sito é, o Senhor, causa um influxo forte não para destruir os maus, mas para resgatar e proteger os bons, pois assim Ele conjunta os bons mais estreita e interiormente a Si e, daí, eles são separados dos maus e os maus perecem, porque, se não fossem separados dos maus, os bons pereceriam e o céu angélico seria aniquilado.
[8] Coisas semelhantes são significadas pela ‘saraiva’ e pela ‘chuva de saraiva’ nas passagens que se seguem. Em Isaías:
“Ai da coroa de soberba, dos ébrios de Efraim;... eis o Senhor forte e poderoso, como inundação de saraiva, procela de matança” (Is. 28:1, 2);
no mesmo:
“A saraiva revirará o refúgio da mentira, e as águas inundarão os esconderijos” (Is. 28:17);
no mesmo:
“Então Jehovah fará ouvir a glória de Sua voz, e fará ver o repouso de Seu braço na indignação da ira e na chama de fogo que devora, com dispersão e inundação, e com pedra de saraiva” (Is. 30:30, 31);
no mesmo:
“Haverá saraiva até cair a floresta, e com rebaixamento será rebaixada ??? a cidade” (Is. 31:19);
em Ezequiel:
“Contenderei com” Gog com “peste e sangue, e farei chover sobre ele chuva inundante e pedras de saraiva, fogo e enxofre” (Ez. 38:22);
no Apocalipse:
“Então foi aberto o templo de deus no céu, e viu-se a arca da aliança no Seu templo, e houve relâmpagos, e vozes, e trovões, e terremotos, e grande saraiva” (Ap. 11:19);
e, em outra passagem,
“Grande saraiva com quase um talento de peso desceu do céu sobre os homens, pelo que os homens blasfemaram a Deus por causa da praga de saraiva, porque muito grande era a sua praga” (Ap. 16:21).
[9] Daí vem que aqueles que estão nos falsos do mal são chamados ‘pedras de saraiva’ em Ezequiel:
“Dize aos que rebocam o que é tolo que isto cairá. Haverá chuva inundante, com a qual vós, pedras de saraiva, cairão” (Ez. 13:11);
pelos que ‘rebocam o que é tolo’ são significados os que confirmam os falsos para que exteriormente pareçam como se fossem veros; eles são chamados ‘pedras de saraiva’ porque assim destroem os veros. A dispersão de tais falsos é significada pela ‘chuva inundante’.
[10] Em Jó:
“Acaso vieste aos tesouros da neve, e viste os tesouros da saraiva? os quais reterei para o tempo... do combate e da guerra. Qual é o caminho em que se difunde a luz?” (Jó 38:22-24).
Jó é questionado por Jehovah sobre muitas coisas, se acaso ele as sabia, mas o que ele é questionado significa coisas tais que são do céu e da igreja, e por ‘acaso vieste aos tesouros da neve, e viste os tesouros da saraiva’ é significado se acaso sabia de onde vem a privação do vero e a sua destruição pelos falsos do mal, as quais aparecem no mundo espiritual como precipitação de neve e de saraiva dos céus ali. Que tais coisas apareçam quando os maus devem ser dispersos é significado por ‘os quais reterei para o tempo do combate e da guerra’. Daí também se diz ‘qual é o caminho em que se difunde a luz’, pelo que é significado em que progressão o vero é insinuado (‘luz’ é o vero).
[11] Que a ‘saraiva’ signifique o falso do mal e a ‘chuva de saraiva’ a destruição do vero é porque a saraiva é fria em si e não suporta o calor do céu, e o ‘frio’ significa a privação do bem do amor, e o ‘calor’ no céu angélico é o bem do amor (vide na obra O Céu e o Inferno, n. 126-140). É também porque as ‘pedras’ significam na Palavra os veros e, no sentido oposto, os falsos, uma grande saraiva parece consistir de pedras lançadas do céu, as quais destroem as searas e as ervas do campo, como também os animais menores, como se fossem pedras; daí também se diz: ‘pedra de saraiva’. (Que as ‘pedras’ na Palavra signifiquem os veros e, no sentido oposto, os falsos, vê-se nos Arcanos Celestes, n. 643, 1298, 3720, 6426, 8609 e 10376).
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